UOL Notícias Internacional
 

01/02/2009

Watchmen chega furtivamente ao cinema

The New York Times
Dave Itzkoff
Burbank, Califórnia
Quando Zack Snyder aceitou dirigir a adaptação para o cinema de "Watchmen", a HQ sobre super-heróis problemáticos numa era de decadência, ele sabia que tinha em mãos não somente uma obra de cultura popular mas também mais de 20 anos de expectativas frustradas e projetos competitivos.

A partir de seus encontros com a HQ original, escrito por Alan Moore e ilustrado por Dave Gibbons, ele conhecia bem as idéias sérias e adultas dos criadores sobre a futilidade do heroísmo e sabia que eles não tinham nenhum entusiasmo em ver "Watchmen" transformado em filme. Ele também estava ciente de que muitos diretores antes dele haviam fracassado na mesma empreitada, e imaginava que teria de lutar contra o estúdio para fazer o filme que queria. (Ele não antecipou, entretanto, que um ano antes de seu lançamento, um estúdio rival processaria para evitar que o filme chegasse aos cinemas).

Mas Snyder acreditava que seu maior desafio seria satisfazer os desejos dos fãs devotos da HQ que, assim como ele, vêem a obra como um trabalho exemplar de narrativa pós-moderna e que iriam arrancar suas tripas se ele desviasse demais dos quadrinhos originais. E ele acreditava que o único caminho para satisfazer esses espectadores começava por quebrar o vínculo como material fonte.

"Watchmen", que estréia em 6 de março, começa com uma cena mostrada apenas em fragmentos nos quadrinhos: uma luta longa entre um agressor e um vingador com idade avançada chamado o Comediante. Depois disso vem uma lenta sequência de abertura com os créditos, em grande parte invenção de Snyder, que justapõe a música "The Times They Are A-Changin' de Bob Dylan, com uma montagem dos benfeitores mascarados com nomes como Dollar Bill (Nota de Dólar) e Hooded Justice (Justiça
Encapuzada) enquanto eles participam de momentos chave da história da era atômica, como o V-J Day e o assassinato de John F. Kennedy. As cenas que se seguem serão familiares para os leitores com uma semelhança quadrinho a quadrinho com a história original: o sonho surreal de um vigilante de uniforme que é amaldiçoado por problemas sexuais e temores de uma guerra nuclear; um homem-deus criado num acidente científico, andando pelas areias vermelhas de Marte; a cidade de Nova York parcialmente aniquilada pelos planos de um vilão - tudo conectado por uma história sobre heróis corrompidos pelo mal que eles não são capazes de eliminar do mundo.

As duas cenas introdutórias, diz Snyder, são concessões às audiências que não conhecem nada de "Watchmen", "para que elas engulam a pílula amarga dos próximos 20 minutos do filme e ouçam um punhado de super-heróis reclamando, antes que qualquer coisa aconteça".

Por mais de dois anos e meio esse foi o quebra-cabeça que Snyder teve de solucionar: como preservar o suficiente da HQ "Watchmen", rica em referências e com múltiplos níveis, para satisfazer os fãs, enquanto fornecia pontos de entrada suficientes para um público disposto a se sentar para assistir um filme de US$ 120 milhões, 160 minutos, proibido para menores, sobre guerreiros contra o crime contemplativos que raramente entram em brigas.

"Eu não diria que é um filme curto de forma alguma", disse Snyder.
"Mas é a versão mais condensada que eu consegui fazer sem sentir que violentei um pouco a obra". Praticamente desde o momento que o primeiro número de "Watchmen" foi publicado nos Estados Unidos como uma série limitada pela DC Comics em 1986, Hollywood tentou e fracassou em transformá-la em filme. O diretor Terry Gilliam perseguiu o projeto no final dos anos 80, apenas para concluir que ele não poderia ser condensado num filme; Darren Aronofsky deixou o projeto de lado em 2004 para fazer "Fonte da Vida"; e Paul Greengrass desistiu de sua versão em 2005 por problemas de orçamento.

Os criadores de "Watchmen" podem dizer que desistiram das perspectivas de chegarem aos cinemas, "mas isso praticamente implica que nós queríamos que ele se tornasse um filme", disse Gibbons, o ilustrador.
Depois que a Fox adquiriu os direitos para o cinema em 1986, Gibbons e Moore concluíram que nenhum estudo desejaria preservar o espírito de seus quadrinhos - uma crença cultivada num encontro com o produtor Joel Silver, que queria que Arnold Schwarzenegger interpretasse o super-herói estóico e onisciente Dr. Manhattan. "Imagine que tipo de filme isso teria sido", disse Gibbons.

(Moore, que ficou cada vez mais frustrado com as adaptações hollywoodianas para seus outros trabalhos, como "V de Vingança" e "A Liga Extraordinária", recusou que seu nome fosse usado em conexão com o filme "Watchmen" e deu sua porcentagem dos lucros com o filme para
Gibbons.)

Quando Snyder, 42, foi cogitado para dirigir o filme em 2006, seu currículo deixou muitos fãs de "Watchmen" nervosos. Diretor de comerciais de TV, ele era conhecido por trabalhos superficiais e hiperativos. Em 2004 ele fez sucesso com sua refilmagem do filme de zumbis de George A. Romero "Madrugada dos Mortos" e estava trabalhando no filme de ação ainda não anunciado "300", uma adaptação violenta da HQ de Frank Miller sobre a batalha antiga de Thermopylae. (O escritório de Snyder na Warner Brothers é decorado com um tapete de pele de leão, um molde de crânio de tigre de dentes de sabre e uma vela em forma de crânio humano.)

Antes que "300" fosse lançado e arrecadasse US$ 456 milhões no mundo todo no ano seguinte, a Warner Brothers, que lançou "300" e desde então adquiriu os direitos de "Watchmen" queria que Snyder começasse logo a adaptação do quadrinho.

"Ele tem uma sensibilidade bastante pop, que requer um estilo visual incrível", disse Jeff Robinov, presidente da Warner Brothers Pictures Group.

Mas Snyder, que leu "Watchmen" pela primeira vez quando estava na faculdade, sabia que a história era intrincada e misteriosa, que tinha mais filosofia do que troca de socos. "Não há nenhum momento em que ela não é consciente", disse. Mesmo quando "Watchmen" adere às fórmulas de super-heróis, faz isso desconstruindo muitas tradições do meio. Snyder disse: "Está sempre jogando uma luz sobre a idéia de colocar uma roupa especial e sair tentando acertar os erros e dizendo, 'Na verdade você acha que isso é legal?'".

A Warner Brothers não hesitou em dar a Snyder os recursos que ele queria, em grande parte por causa de "300". "Eles disseram, 'OK, não entendemos "300", e ele arrecadou muito dinheiro'", disse Snyder.

Esses recursos significaram que ele pode passar mais de 100 dias filmando em Vancouver, que pode convidar atores mais por causa da habilidade de atuação do que pelo magnetismo nas bilheterias (Patrick Wilson é o impotente Coruja (Nite Owl, na versão original), Jackie Earle Haley é o instável Rorschach, Billy Crudup é Dr. Manhattan) e ter cerca de 200 cenários construídos para o filme.

Mas com esses recursos, disse Snyder, também veio uma enxurrada de pedidos do estúdio para mudar detalhes pequenos, porém fundamentais: o filme tinha que interromper sua história com longas digressões sobre as origens de Rorschach e Dr. Manhattan? Era essencial que Dr.
Manhattan ficasse nu por tanto tempo no filme? E será que o filme não poderia ser um pouco mais curto?

A resposta de Snyder para cada uma dessas perguntas foi permanecer fiel à HQ e seus criadores. "As idéias deles passaram pelo teste, pelo menos é assim que eu vejo", disse.

(Robinov disse que não se lembra de disputas específicas sobre o conteúdo de "Watchmen" mas reconheceu que a classificação para maiores do filme, que poderia afastar o público mais jovem, era uma preocupação. O filme, disse ele, "tira do conforto em algumas áreas".)

Dias antes do final das filmagens em fevereiro passado, a maldição de "Watchmen" parecia ter atacado novamente. A Fox, que havia alertado a Warner Brothers de que ainda era dona de uma parte dos direitos de "Watchmen", entrou com um processo e ameaçou conseguir uma ordem para evitar o lançamento do filme. Um ano de batalhas judiciais se seguiu. Terminaram no mês passado, quando a Warner concordou em dar à Fox 8,5% das receitas do filme, ou de possíveis sequências ou distribuições de ações.

Agora, com a iminente estréia de "Watchmen", a ansiedade e a tensão entre os fãs chegou ao pico. Diferente das franquias de Batman ou do Super-Homem, por exemplo, cujos heróis-título podem ser reinventados a cada dez ou 15 anos, "Watchmen" só tem uma história para contar. Se Snyder fracassar, nenhum diretor terá uma segunda chance.

Mesmo os amigos de Snyder da indústria do entretenimento dizem que ele enfrenta um ceticismo generalizado por parte dos fãs leais do quadrinho. "Acho que os fãs assistirão "Watchmen" com uma mentalidade de 'O que ele deixou de fora?', e não de 'o que ele acrescentou?'", disse Damon Lindelof, criador e produtor executivo de "Lost" e um dos poucos a quem Snyder mostrou "Watchmen".

Os desafios de divulgar o filme para o público que não conhece a HQ parecem ser bem maiores, já que as histórias não têm um protagonista central claro e nenhum personagem reconhecido mundialmente. Mesmo assim a Warner Brothers tentou criar uma expectativa para o filme entre os leigos, usando uma campanha baseada principalmente em trailers elegantes e expressivos. A DC Comics disse que lançou 900 mil cópias adicionais da HQ desde que o primeiro trailer de "Watchmen" foi divulgado no verão passado.

E, conforme diz Snyder, os filmes sobre histórias em quadrinho se tornaram eventos tão transcendentes da cultura pop que até o público comum que não lê quadrinhos sabe que deve assistir a esses filmes. Um espectador que tenha assistido metade dos filmes de super-heróis que Snyder chama de "filmes 'Homem'" - Super-Homem, Homem-Aranha, Homem de Ferro e outros - já tem contexto suficiente para entender "Watchmen" e os clichês cinematográficos com os quais ele joga, disse.

Em particular ele disse que sua posição foi fortalecida pelo sucesso do filme "Batman - O Cavaleiro das Trevas" de Christopher Nolan, a depressiva sequência de Batman que arrecadou cerca de US$ 1 bilhão em todo o mundo desde o lançamento pela Warner Brothers em julho. "É tão sério quanto, por exemplo, uma cirurgia no cérebro de um bebê", disse Snyder sobre "O Cavaleiro das Trevas", esclarecendo que isso é um elogio.

Enquanto o filme de Batman tinha aspirações por uma estética realista, Snyder disse que "Watchmen", com seus heróis que podem crescer dezenas de metros e vilões que mantém esconderijos na Antártida, tem a liberdade de ser mais fantasioso. E diferentemente da maioria dos filmes de "Homem" cujos finais - com o bem vencendo o mal - nunca são colocados em dúvida, Snyder disse: "Não queremos mesmo aderir a esse conceito".

Mas ele também deixou os fãs irritados quando revelou que havia mudado o final de "Watchmen". Apesar de o filme aderir à essência do último capítulo da história, no qual os heróis ignoram os atos assassinos de sua vingança para o bem da humanidade, Snyder alterou detalhes essenciais.

Para preserver o final original de "Watchmen", "você teria que ficar falando cerca de 30 minutos sobre outras coisas fora do filme", disse.
"E nesse momento eu estou no limite da quantidade de Rorschach que tenho, e de Coruja, e de Dr. Manhattan".

Durante a realização de "Watchmen", Snyder ultrapassou os limites usuais para sinalar o quanto ele reverencia a HQ, tanto quanto os fãs.
Ele encarregou Gibbons e o colorista original da HQ, John Higgins, de criarem um pôster para o filme, assim como os storyboards para o final modificado. E ele se apropriou da maior parte do visual e do diálogo dos quadrinhos, desde o muxoxo que é o bordão de Rorschach, "hurm".

Snyder acredita que o filme pode mudar o equilíbrio entre os estúdios de cinema e os criadores de HQs. Até hoje, disse ele, a Warner Brothers ainda quer que ele e Miller criem uma sequência para "300" - apesar de o filme terminar com o sacrifício do herói e seu exército.

"Na atitude em relação aos quadrinhos, eles revelam um pouco seus planos", disse Snyder. "Eles nunca diriam isso para um escritor, mas fazem isso com os quadrinhos. 'Eles fazem isso rápido, não é? Não é grande coisa'". Segundo ele, "no final tudo o que espero é que esse filme dê à cultura geek um pouco de credibilidade".

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h59

    0,40
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h09

    0,26
    65.176,59
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host