UOL Notícias Internacional
 

02/02/2009

"Saindo com um Banqueiro Anônimo" ajuda amantes de homens afetados pela crise financeira

The New York Times
Ravi Somaiya
Em Nova York
A crise econômica chegou à casa de Megan Petrus, 27, no começo do ano passado quando o rapaz com quem ela namorava há oito meses, funcionário de um grande banco, provou estar mais preocupado em ajudar um colega que havia sido demitido do que confortá-la depois que o pai dela havia sofrido um ataque cardíaco.

Para Christine Cameron, a recessão se tornou real quando o analista financeiro com quem ela estava saindo há um ano começou a ficar bêbado e desaparecer quando eles saiam juntos, e depois no dia seguinte dizia que era ela quem tinha sumido.

Dawn Spinner Davis, 26, escritora sobre beleza, disse que os gráficos econômicos negativos começaram a fazer sentido quando o homem com quem ela se casou em 1º de novembro, um gerente de fundos privados de 28 anos, parou de jogar golfe, que antes era sua paixão. "Um de seus melhores amigos me disse que minha tarefa agora era mantê-lo calmo e evitar que ele morresse aos 35", disse Davis. "Não foi o que estava no contrato".

Elas compartilharam suas histórias tristes num encontro informal do "Saindo com um Banqueiro Anônimo", um grupo de apoio fundado em novembro para ajudar mulheres cujos relacionamentos sofrem com os efeitos colaterais, por exemplo, da falência do Lehman Brothers ou da queda de 777 pontos do índice Dow Jones num só dia, como aconteceu em
29 de setembro.

Além de se encontrarem uma ou duas vezes por semana para um lanche da manhã ou drinques num bar ou restaurante, o grupo tem um blog, divulgado como "livre do escrutínio de feministas", que convida mulheres para se juntarem "se sua mesada para bens de luxo foi cortada pela metade e as bebidas caras quase desapareceram da sua vida noturna".

Os encontros não seguem o programa típico dos 12 passos.

Primeiro passo: coloque vestido e sapatos de salto alto. Passo 2:
Beberique um coquetel enquanto espera sua vez de falar. Passo 3: Abra o coração. Repita se for necessário.

Cerca de 30 mulheres, em geral entre 25 a 30 anos, publicam textos com regularidade no site ou comparecem aos encontros.

"Nós falamos sobre tudo de um jeito leve no blog e é tudo muito engraçado", diz Laney Crowell, 27, que se separou de um investidor do mercado imobiliário no mês passado depois de um relacionamento conturbado. "Mas tudo vem de situações sérias e dolorosas".

Quando ela apresenta novas viúvas de Wall Street ao grupo, acrescenta Crowell, "elas ligam para as amigas e dizem: 'você não vai acreditar o que eu acabei de ler. Isso vai fazer com que você se sinta muito melhor'."

Antes elas consideravam uma bênção ter um parceiro rico e poderoso que deixava a mulher sozinha com o cartão de crédito enquanto ele estava ocupado fazendo negócios. Agora, muitas esposas, namoradas e um número cada vez maior de ex-mulheres de Wall Street estão vivendo a maldição dos cortes nos turnos das babás e nas reservas em restaurantes como Masa ou Megu. E o cartão de crédito? Cancelado.

Raoul Felder, um advogado de divórcios de Manhattan, disse que os casos envolvendo investidores do mercado financeiro sempre aumentam quando a economia começa a cair, porque as demissões e redução de bônus causam estresse nos relacionamentos - e, diz ele, porque "não há mais dinheiro ou tempo para ter amantes".

(Uma dessas amantes escreveu no blog que, quando ela reclamou por não ter sido levada numa viagem, o homem casado explicou que a mulher dele tinha começado a checar suas contas, por causa do dinheiro apertado.)

Harriet Pappenheim, psicoterapeuta da Park Avenue Consultores de Relacionamentos que escreveu "For Richer or Poorer" [algo como "Na Riqueza e na Pobreza"], livro sobre o papel do dinheiro nos relacionamentos lançado em 2006, disse que as repercussões podem ser graves para os garotos prodígio de Wall Street que definiam sua identidade de acordo com o título do cargo que ocupavam e o tamanho do bônus que recebiam.

"É um grande golpe para o ego e para a auto-estima desses homens", disse sobre o interminável fluxo de notícias econômicas ruins, "e eles podem descontar isso em suas parceiras e filhos".

Petrus, que é advogada, e Crowell, que trabalha para um site de moda, começaram o grupo de apoio quando perceberam que estavam enfrentando problemas semelhantes em seus relacionamentos com banqueiros no outono passado.

"Somamos dois mais dois e descobrimos que o problema era a economia, e não nós". Contou Petrus durante um encontro recente no bar do hotel Bowery. "Quando os homens que trabalham nesse setor passam por isso, eles não conseguem levar um relacionamento". (Ela e o namorado se separaram no ano passado; ele se recusou a discutir o assunto.)

Muitas das mulheres disseram que quando a crise econômica atacou no outono passado, elas começaram a acompanhar os mercados durante o dia para prever qual seria o humor de seus parceiros à noite. Nos dias de grandes notícias, como quando a primeira proposta de auxílio do governo aos bancos falhou no Congresso, ou quando o Lehman faliu, elas sabiam que os planos para ver seus parceiros estavam descartados.

"Era mais ou menos assim: 'tudo bem, eu concordei com isso, então está bem'", disse Cameron. "Mas de repente", disse, seu namorado "não conseguia se concentrar. Quando ele estava na minha casa, às vezes acordava a qualquer hora para checar seu BlackBerry, a Bloomberg e a CNBC".

Cameron disse que ela e o namorado se separaram no fim de novembro mas ainda se veem ocasionalmente.

Um tópico frequente no grupo é a ligação entre a sala de reuniões e a cama. "Há um tipo de homem que quando tem um dia ruim nas negociações quer fazer mais sexo", disse Spinner Davis enquanto bebericava seu vodca gimlet, recusando-se a dizer de quem se tratava.

Petrus concordou.

"Se você tiver sorte, você pega esse cara", disse, sem revelar se ela se considerava sortuda ou não. "Numa hipótese meio-termo, o sexo é relegado para os fins de semana".

"Na pior das hipóteses", começou a falar, e então tomou outro gole de bebida.

Brandon Davis, marido de Spinner Davis por quase três meses, reconheceu numa entrevista recente por telefone que seu novo emprego era "com certeza mais estressante e há muito mais pressão" por causa da economia, mas discordou de que esse estresse tenha afetado sua vida em casa. Ele não quis falar sobre o golfe.

Algumas mulheres no grupo disseram que seus parceiros que antes eram distantes e inatingíveis ficaram carentes e apegados, de um jeito pouco atraente. Outras reclamaram que estão sendo ignoradas - uma, que se identificou como A.P., escreveu no blog que havia passado três semanas sem que seu namorado fizesse "uma só pergunta" sobre sua vida.
Outra escreveu, com apreensão, que seu namorado havia pedido que ela fizesse uma lista dos seus restaurantes favoritos em Nova York antes que o mercado ruim o forçasse a se mudar para o centro-oeste.

"Da próxima vez que você ficar estressada por causa de um homem das finanças, lembre-se de que ele é apenas um nerd do clube de matemática", escreveu uma das mulheres ao contar sobre o término de seu relacionamento. "Essa recessão simplesmente deu a todos eles mais dois anos de vida de solteiro".

Outra parecia desconcertada depois que seu namorado disse para ela "crescer" e parar de "reclamar sobre férias e jantares" enquanto ele tinha que "demitir 20 pessoas até o fim da semana".

No blog, os objetos da afeição dessas mulheres - e de seu desdém - são reconhecidos pela sigla FBFs, que em inglês significa algo como Namorados do Setor Financeiro (Financial-Guy Boyfriend). As notícias financeiras são transmitidas através de um código de cores que serve de alerta diário: vermelho, quando o Dow Jones caiu 300 pontos em 6 de outubro ("Noite boa para jantar com as amigas e lavar roupa"); amarelo, quando Warren Buffet investiu US$ 3 bilhões na General Electric ("Noite boa para sair com o seu FBF"); e verde, em 21 de janeiro, em homenagem à esperança do presidente Obama.

Apesar da enxurrada de comentários desrespeitosos e reprovações, parte do apelo de namorar um banqueiro ainda existe.

"Não é nem mesmo por causa dos jantares de US$ 200", diz Petrus. "É porque um banqueiro é um macho alfa, agressivo, que vai atrás do que quer, não recebe não como resposta, é confiante, e as pessoas o respeitam e isso cria toda uma mística a respeito de quem ele é".

Tradução: Eloise De Vylder

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