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03/02/2009

Google Earth mostrará relevo do fundo dos oceanos

The New York Times
Andrew C. Revkin
Há dois anos e meio, os engenheiros de programação responsáveis pelo Google Earth, a réplica do planeta para buscas geográficas online, preparavam-se para preencher uma enorme lacuna de informação, acrescentando os dois terços do globo que, na realidade, estão cobertos de água, mas que, na versão do ciberespaço, são azuis e vazios.

Mas, até então, todos os detalhes mostrados no Google Earth - montanhas, vales, cidades, planícies, coberturas de gelo - eram construídas por meio de programação referente à altitude zero para cima.

"Havia essa convenção arbitrária segundo a qual o que estivesse abaixo do nível do mar não contava", lembra John Hanke, o empresário da Internet que foi um dos criadores do precursor do Google Earth, o chamado Keyhole. Hanke foi para o Google quando este comprou a sua companhia em 2004.

Essa falha precisava ser consertada antes que os vários meses de novas programações e coleta de dados pudessem culminar na criação de oceanos simulados. Segundo a companhia, na próxima segunda-feira os oceanos serão a mais significativa dentre as várias novidades do Google Earth, e a nova versão estará disponível gratuitamente para download no site www.earth.google.com.

Um outro recurso, o Historical Imagery, permite que o usuário examine retroativamente décadas de imagens de satélites e veja o aumento das áreas suburbanas ou a erosão de costas litorâneas.

Clique em uma função chamada Touring e você será capaz de criar passeios narrados e ilustrados, tanto na terra quanto na superfície ou no fundo do mar, descrevendo e mostrando coisas como uma caminhada por uma trilha ou uma excursão subaquática, ou até mesmo um cruzeiro de pesquisa em um submarino capaz de descer às profundezas do oceano.

A iniciativa de dois anos no sentido de preencher os enormes espaços azuis vazios ocorreu devido a um encontro acidental em março de 2006. Hanke preparava-se para receber um prêmio da Sociedade Geográfica da Espanha pelo seu trabalho pioneiro na construção de modelos do planeta na Web.

Mas ele foi precedido na plataforma de premiação por Sylvia Earle, ex-cientista da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), que estava lá para receber o seu próprio prêmio devido à exploração das profundezas abissais e à popularização da ciência oceânica.

Ela virou-se para ele e lhe disse que adorava a maneira como o Google Earth permitia aos usuários ver como as coisas se interrelacionam no planeta. Mas Earle acrescentou sem rodeios: "Vocês fizeram um grande trabalho com o solo. Mas, e quanto à água?".

Desde então, Earle e Hanke são parceiros na longo trabalho para, como ela explica, "garantir que as montanhas não acabem na praia".

Ela montou uma comissão de assessoria que inclui Jane Lubchenco, a bióloga marinha da Universidade Estadual do Oregon, que recentemente foi escolhida pelo presidente Barack Obama para chefiar a agência oceânica e atmosférica.

"Durante toda a minha vida procurei descobrir como alcançar as pessoas comuns e fazer com que elas entendessem que estão conectadas ao oceano", diz Earle.
"Mas eu vou ao supermercado e ainda vejo as Nações Unidas dos peixes à venda", diz ela. "Os santuários marinhos ainda não estão de fato protegidos. Agora o Google Earth pega toda essa informação e a coloca em um só lugar para que desde as crianças pequenas até os marmanjos possam ver tudo isso de uma forma que nunca antes foi possível".

Ao navegar pelos 20 botões que remetem a arquivos de informação, denominado "layers", ou camadas, pelo Google, o visitante é capaz de ler os registros de expedições oceanográficas, assistir a trechos de filmes antigos da época de Jacques-Yves Costeau e observar mapas diários de temperaturas marinhas feitos pela Marinha dos Estados Unidos.

Os mares replicados trazem detalhes quanto à topografia, refletindo o que se conhece sobre as profundezas abissais e as plataformas continentais - e ainda áreas mais acidentadas sobre as quais pouco se sabe.

Como somente 5% do fundo do oceano estão mapeados detalhadamente e apenas 1% encontra-se protegido, os executivos do Google e os cientistas marinhos que ajudaram a construir os oceanos digitais dizem esperar que o resultado estimule a população a apoiar mais a exploração e a conservação marítima.

Em um recente teste dos novos recursos no escritório do Google em São Francisco, eu pairei sobre o Havaí e mergulhei sob a superfície ondulada do Pacífico para explorar cânions, recifes e outros acidentes subaquáticos que agora estão mapeados com precisão em todos os lugares para os quais existem dados do governo.

Eu também revisitei a Groenlândia, o Polo Norte e o North Slope do Alasca. E, em menos de um minuto de uso do recurso Touring, fui capaz de observar comunidades de beira-mar expandirem-se e, a seguir, serem abruptamente varridas do mapa após o furacão Ike.

O recurso demonstra com intensidade o interrelacionamento cada vez maior entre os seres humanos e o meio ambiente, seja ele bom ou ruim, à medida que as populações crescem e se espalham.

Os engenheiros do Google contam que o acréscimo dos oceanos representou muitos obstáculos de ordem técnica, sendo que um dos mais difíceis foi o alinhamento de conjuntos de dados desvinculados, de forma que a água se encontrasse com a terra nos locais precisamente corretos.

Sem dúvida aparecerão outros problemas à medida que milhões de usuários vasculharem o novo território.

Mas muitos cientistas marinhos que trabalharam discretamente com o Google nos últimos dois anos para aglutinar amplos conjuntos de dados estão encantados com a perspectiva de que os mares ganhem nova visibilidade, e respeito.

"Esta é uma maneira de aumentar a consciência de milhares a bilhões de pessoas da noite para o dia", afirma Richard W. Spinrad, o administrador-assistente de pesquisas da NOAA, que fez parte de uma comissão de assessoria.

Barbara Block, bióloga da Universidade Stanford, cujos projetos colaboraram para o entendimento da vida secreta do atum de barbatana azul, do tubarão branco e de outras espécies cujas populações estão em declínio, diz que a parte azul do Google Earth poderá também aumentar o apoio popular à conservação dos ambientes marinhos.

"Como uma comunidade, não somos capazes de conservar aquilo que não vemos", explica Block. "Trabalhamos durante anos como o Aquário da Baía de Monterey para colocar em exibição o atum gigante de barbatana azul e o tubarão branco, e, se tivermos sorte, dois milhões de pessoas anualmente verão os animais e descobrirão as suas cores, a beleza de seus movimentos e das suas formas. Com o recurso do Google para a exploração visual dos oceanos, temos o potencial para alcançar centenas de milhões de pessoas". E, de acordo com Peter Birch, gerente de produtos do Google Earth, espera-se que a cada vez que alguém consultar e clicar o programa, haverá com certeza renda com publicidade. Nos três anos desde o seu lançamento público em 2005, o Google Earth tornou-se um instrumento básico para estudantes, viajantes, empresários e pesquisadores que buscam um local para escrever mensagens e descobrir informações sobre o mundo - sobre tópicos tão diversos quanto hotéis, trilhas, habitats de espécies e dados climáticos.

Desde então, o pacote de software foi instalado em meio bilhão de computadores. Os visitantes passam um milhão de horas por dia vasculhando o Google Earth e os Mapas Google a ele relacionados.

Alguns websites comerciais, incluindo o shipwreckcentral.com e o wannasurf.com, já promovem ativamente atividades no oceano e agora permitirão aos mergulhadores e surfistas acrescentar os seus próprios "tours" narrados e ilustrados dos recifes ou praias favoritos nas camadas do Google Earth.

Organizações que procuram fazer com que as pessoas se reconectem à natureza manifestaram um otimismo discreto quando os novos recursos do Google Earth foram descritos.

"As imagens eletrônicas são capazes de elevar a consciência, e às vezes até de inspirar, mas não existe substituto para a experiência direta na natureza", diz Cheryl Charls, presidente da Rede Crianças e Natureza, que procura acabar com aquilo que chama de "desordem da deficiência da natureza" na sociedade moderna plugada. "Esperamos que aqueles que explorem os oceanos virtuais do Google, especialmente as crianças, possam ainda encontrar tempo também para se molhar".

Tradução: UOL

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