UOL Notícias Internacional
 

04/02/2009

No México, crise econômica aumenta as chances eleitorais de um populista

The New York Times
Elisabeth Malkin
Em Cidade do México (México)
Assim que este ano começou, a figura política dominante da esquerda mexicana parecia caminhar rapidamente rumo à irrelevância.

Mas Andres Manuel Lopez Obrador ainda não está morto. Faz apenas dois anos que Amlo, conforme é conhecido o ex-prefeito da Cidade do México, era a força impulsionadora da polarizada política mexicana. Após ter perdido por pouco a presidência e liderado durantes meses protestos de ruas, alegando ter sido roubado nas urnas, a política reduziu-se a uma só questão: quem era a favor dele e quem era contra.

No ano passado, a atenção pública começou a distanciar-se de Obrador. O povo, a mídia e muitos dos seus apoiadores simplesmente seguiram em frente, deixando que a confusão em torno da eleição de 2006 se apagasse na história.

Mas há sinais de que os esforços de Lopez Obrador para reativar a sua carreira política podem estar dando resultado, à medida que o aprofundamento da recessão cria oportunidades para a sua nova marca registrada de populismo econômico. A questão agora é saber se ele capitalizará esse ímpeto para refazer e expandir a coalizão que lhe permitiu chegar muito perto de obter a presidência.

Em um comício na semana passada em Zocalo, a imensa praça central da Cidade do México, Lopez Obrador, 55, atraiu dezenas de milhares de eleitores que o apoiam. Embora a multidão não fosse nada se comparada às centenas de milhares de pessoas que participaram dos seus comícios no auge da campanha presidencial de 2006, ela foi significativamente maior do que as que compareceram aos comícios de Obrador no ano passado.

Ao contrário dos seus eventos de campanha, este comício foi realizado sem o apoio da máquina partidária, que transportava eleitores de todo o país, demonstrando uma base substancial de apoio firme.

Afirmando que a economia só piorará, Lopez Obrador anunciou uma campanha para pressionar o governo a cortar gastos inúteis, reduzir os preços pagos pelo consumidor e os impostos e fazer mais pelos pobres.

"O nosso governo precisa continuar exigindo uma mudança da política econômica, que tem se revelado um fracasso", disse ele. "O modelo precisa ser mudado. Não se pode colocar vinho novo em garrafas velhas".

As palavras foram claramente bem recebidas pela sua base formada por uma classe trabalhadora pobre.

"Achamos que ele é de fato capaz de mudar as coisas, de forma que o povo tenha o direito de decidir", afirma Aide Florentino, que faz parte de uma pequena cooperativa de vestuários na região rural ao sul da Cidade do México.

"Não é importante que Lopez Obrador seja o presidente", opina Victor Baltasar, 49, que veio de Guadalajara, onde é supervisor do sistema ferroviário da cidade. "O importante é que as coisas mudem".

Mas o aumento da ansiedade quanto à economia pode estar amplificando a mensagem de Obrador. Apesar das medidas do governo com o objetivo de estimular a economia e proteger as famílias contra os piores efeitos da crise, há um clamor generalizado para que se faça mais, por parte de grupos de eleitores de várias faixas sociais, incluindo grupos empresariais, de camponeses pobres e de pescadores. Essa exigência poderia alterar o cálculo político.

"O México é fundamentalmente um país conservador", diz Federico Estevez, analista político do Instituto Tecnológico Autônomo do México. "Mas, em 2009, as cartas são diferentes".

Referindo-se à esquerda, ele diz: "Creio que eles estão com um coringa ou um par de ases".

Faltando três anos para a próxima eleição presidencial, não se sabe exatamente quais são as ambições de Lopez Obrador. Ele chama a sua nova campanha de um movimento social e deseja claramente ser uma força reconhecida.

Mas o relacionamento com o seu próprio partido continua ruim. No ano passado ele perdeu uma batalha com uma facção rival pela presidência da legenda, o Partido da Revolução Democrática, ou PRD, e não ocupa mais nenhum cargo oficial no partido ou no governo.

O ponto mais baixo da sua trajetória foi registrado no outono passado, quando a maioria dos senadores do seu partido rompeu com ele para aprovarem uma importante legislação referente ao setor de energia, enquanto os seus apoiadores enfrentaram policiais na tentativa de bloquear a votação.

Para muitos que apoiaram a sua chapa presidencial, o estilo político do tipo "briga de rua" usado por Lopez Obrador tornou-se um problema.

A sua campanha para reverter o resultado da eleição de 2006, que ele perdeu por uma diferença de apenas 0,6% em relação aos votos de Felipe Calderon, consistiu de manifestações de massa e da criação de uma cidade de barracas que fechou as principais avenidas da capital durante semanas. Recusando-se a admitir a derrota, mesmo após o tribunal eleitoral de maior alçada no país ter declarado que o vencedor foi Calderon, Obrador organizou uma grande cerimônia pública na qual ele próprio proferiu o juramento como o "presidente legítimo" do México, um título que continua reivindicando.

Tais espetáculos danificaram a reputação do partido, segundo dirigentes do PRD. Jesus Ortega, o presidente do partido, que derrotou Lopez Obrador na disputa pelo cargo, diz que pesquisas feitas pela legenda revelaram que dois terços dos mexicanos consideram o PRD "agitador".

Além do mais, as pesquisas indicam que o partido está em terceiro lugar para as eleições parlamentares de julho, quando a população elegerá 500 membros para a Câmara dos Deputados do México. O partido conta atualmente com 18% das intenções de voto, a metade do que tinha em 2006.

Embora a popularidade de Obrador em 2006 tenha feito com que o partido passasse de terceiro para segundo maior no Congresso, a legenda deverá agora perder muitas das cadeiras que conquistou naquele ano.

Embora não chegue a culpar Lopez Obrador pelo declínio do PRD, Ortega deixou claro que desejava refazer a imagem da sigla, como a de um partido mais próximo aos partidos de governo social-democratas do Chile e do Brasil, e que barricadas de ruas não estão nos seus planos.

"Os protestos contra a injustiça não podem afetar os direitos dos cidadãos", diz Ortega. "Temos que aprender a lutar dentro dos limites da lei".

O partido começou a transmitir propagandas na televisão, pedindo desculpas aos eleitores e declarando a sua disposição para trabalhar com outros partidos, em contraste com a campanha de assédio permanente feita por Lopez Obrador.

Pelo menos publicamente, Lopez Obrador e o seu partido dizem que trabalharam no sentido de contornar as suas diferenças. Os analistas afirmam que nenhum dos dois é capaz de suportar um rompimento político. "Se a esquerda como um todo não se recuperar antes das eleições com base apenas nas questões econômicas, eles não terão qualquer chance real de algum dia governar".

Lopez Obrador necessita da estrutura e dos recursos fornecidos por um grande partido, dizem os analistas. E o partido não pode expulsar o seu político mais carismático.

"O PRD percebe que não pode abrir mão dele", diz Daniel M. Lund, um especialista em pesquisas que trabalhou para Lopez Obrador em 2004. "Se o PRD romper com Lopez Obrador, eles cairão para a faixa de um dígito".

Não se sabe em que situação isto deixa o movimento de Lopez Obrador. Embora 2012 esteja ainda longe, nenhum dos atuais líderes do partido chega perto da estatura dele como potencial candidato à presidência.

O que está evidente é que, se ainda pode ser cedo para falar de um retorno de Obrador, também seria prematuro descartá-lo.

"Ele é um político carismático e intuitivo", diz Joy Langston, analista do CIDE, um instituto de pesquisas da Cidade do México. "Ele sabe não só como obter o apoio das massas, mas também como governar de forma a manter a sua popularidade. Amlo jamais estará completamente acabado".

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host