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05/02/2009

Chineses aprendem os limites da liberdade online à medida que os filtros ficam mais rigorosos

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Pequim
Era para ser uma alternativa bem-humorada ao programa de variedades absurdo transmitido para milhões de lares na véspera de cada Ano Novo Lunar. Mas o programa, chamado "Shanzhai", ou gala de "imitação", não era para existir.

Após as emissoras de televisão retirarem os horários prometidos, os produtores da extravagância se voltaram à Internet. Mas aqueles que tentaram baixar o programa de três horas, em 25 de janeiro, ficaram desapontados. O programa foi suprimido pelos censores, supostamente por sua ridicularização de uma instituição oca segundo os moldes do Estado.

O incidente provocou revolta entre os chamados "netizens" (cidadãos da Internet) da China, que dizem ser outro exemplo da supervisão com mão pesada da Internet pelo Partido Comunista. Desde o início de janeiro, o governo tem travado uma campanha de decência que fechou 1.500 sites contendo sexo, violência ou "vulgaridade". Vários outros sites, incluindo o Google, responderam removendo quaisquer páginas que pudessem ofender as sensibilidades puritanas.

Mas a indecência freqüentemente está nos olhos do observador. Em janeiro, o Bullog, um baluarte popular para blogueiros livres, foi fechado pelo que as autoridades disseram ser "grandes quantidades de informação prejudicial sobre eventos atuais", segundo uma nota postada pelo fundador do site, Luo Yonghao. Quando Luo ressuscitou o site no domingo, usando um servidor no exterior, ele foi bloqueado de novo.

Muitas pessoas daqui acreditam que o Bullog pode ter ido longe demais ao postar informação sobre a Carta 08, uma petição online pedindo reformas democráticas. Os organizadores dizem que o manifesto obteve milhares de assinaturas desde sua introdução em dezembro. Dentro do firewall de Internet chinês, agora é quase impossível encontrar uma cópia.

Apesar de alguns verem a repressão que já dura um mês como um presságio das crescentes restrições do governo à liberdade de expressão eletrônica, aqueles que acompanham o relacionamento em evolução da China com a Internet dizem que é cedo demais para dizer.

"As autoridades endurecem as restrições em intervalos de poucos meses, e alguns períodos são mais restritos que outros, de forma que isso não é nada novo", disse Xia Qiang, diretor do Projeto China Internet da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Mas o fator imprevisível desta vez, dizem Xiao e outros, é a desaceleração econômica que tem o potencial de colocar a supervisão do conteúdo online pelo Partido Comunista sob novo teste.

Por anos, a China tentou obter um equilíbrio entre permitir o crescimento vigoroso da Internet e impedi-la de se tornar um instrumento para minar o domínio do partido. Mas a revolta popular contra a corrupção oficial ou sua inépcia pode se tornar mais difícil de ser contida em uma era de dificuldades econômicas.

Apesar do desenvolvimento de um dos firewalls de Internet tecnicamente mais sofisticados, a China ainda conta com uma das comunidades de usuários de Internet mais dinâmicas do mundo. Há mais de 70 milhões de blogueiros na China, e em janeiro as autoridades anunciaram orgulhosamente que o número de usuários de Internet se aproximou de 300 milhões, mais do que em qualquer outro país.

A Internet se tornou um espaço para ativismo público que poderia ser rapidamente reprimido, ou ignorado pela maioria, caso ocorresse offline. Nos últimos meses, uma onda de campanhas vem sendo travada contra autoridades de baixo escalão acusadas de corrupção ou comportamento impróprio.

Em um caso notável em dezembro, uma foto altamente inofensiva de Zhou Jiugeng, uma autoridade de habitação de Nanjing, foi parar na Internet. Blogueiros de olhos atentos não deixaram de notar o relógio suíço de US$ 15 mil em seu pulso e o maço de cigarros de US$ 22 na mesa diante dele. Duas semanas depois, Zhou foi demitido após os investigadores terem determinado que ele levava um estilo de vida improvavelmente opulento para um funcionário público de salário modesto.

Duas semanas antes, uma autoridade do Partido Comunista em Shenzhen renunciou após ter sido acusada de abusar de uma menina de 11 anos em um banheiro de restaurante. O que o derrubou foi o vídeo de uma câmera de segurança, que foi amplamente divulgado online, que mostrou ele gesticulando para que a família perturbada da menina se afastasse, enquanto a ameaçava com seu alto cargo.

E há o caso de uma delegação do governo de Wenzhou, cuja viagem paga pelos cofres públicos a Las Vegas, Niagara Falls e Vancouver foi exposta por um blogueiro que encontrou um saco de recibos incriminadores no metrô de Xangai. Após os documentos terem sido publicados na Internet em dezembro, dois altos funcionários perderam seus cargos; os outros nove viajantes foram forçados a escrever ensaios de autocrítica.

Estes e vários outros incidentes convenceram comentaristas como Ai Weiwei de que a Internet abrirá o caminho para uma nova era de liberdade de expressão e democracia. "Enquanto as pessoas se importarem com os problemas da sociedade, elas buscarão informação na Internet", ele disse.

Um artista que é um dos blogueiros mais lidos da China, Ai ajudou a inspirar um aumento de apoio populista a Yang Jia, um desempregado de 28 anos condenado pela morte de seis policiais em Xangai. Apesar de ter sido executado em novembro, Yang ganhou uma aprovação popular considerável depois que Ai e outros blogueiros destacaram o abuso que Yang disse ter sofrido nas mãos dos policiais antes de sua reação homicida.

Ai reconheceu que o laço do governo apertará se aumentar a inquietação popular, mas ele insistiu que qualquer tentativa de endurecer as restrições à Internet terá efeito contrário. "A restrição apenas produzirá um maior clamor por democracia", ele disse.

Mas o governo está bem posicionado para impedir que o clamor cresça demais. Apesar de imperfeitas, suas armas incluem um firewall que bloqueia eficazmente sites estrangeiros de grupos como a Anistia Internacional, Falun Gong e vários sites de notícias em língua chinesa em Taiwan, para citar alguns poucos. Algoritmos apagam postagens que incluem palavras como "democracia", "Dalai Lama" ou "massacre de Tiananmen". Quando eles falham, a legião de censores empregada por sites privados estão de prontidão para fechar a brecha.

E há os incontáveis milhares de comentaristas pagos que se passam por usários comuns de Internet para se oporem às críticas ao governo. Conhecidos como membros do Partido dos 50 Centavos, estes moldadores da opinião pública costumam receber uma pequena soma, 50 centavos chineses, por cada postagem.

Falando em um fórum de mídia em Pequim na semana passada, Liu Zhengrong, uma das maiores autoridades de propaganda do governo, alertou seus colegas a ficarem vigilantes no próximo ano, que incluirá o 20º aniversário da repressão na Praça Tiananmen e o 50º aniversário do levante tibetano, que levou ao exílio do Dalai Lama.

"Vocês precisam checar os canais um por um, os programas um por um, as páginas uma por uma", ele disse, segundo o "Southern Weekend", um jornal conhecido por sua reportagem investigativa. "Vocês não podem perder nenhum passo. Vocês não devem deixar nenhum canto não checado."

Rebecca MacKinnon, uma professora assistente do Centro de Estudos de Mídia e Jornalismo da Universidade de Hong Kong, não tem ilusões a respeito da Internet como veículo para reforma política. A Internet pode ser uma confusão de opiniões e críticas, ela disse, mas no momento em que os participantes falam a respeito de organização, a conversa e o site são retirados do ar.

"Todo esse discurso de Internet não deixou a China mais próxima da democracia do que há 10 anos", disse MacKinnon, cuja especialidade inclui os blogueiros chineses e a censura na Internet.

De certa forma, ela disse, o governo usa a Internet como uma válvula de escape que permite que os cidadãos ofendidos extravasem antes que sua fúria cresça demais.

"É possível argumentar que a Internet permite que o Partido Comunista permaneça no poder por mais tempo, porque ela fornece espaço para as pessoas expressarem suas queixas sem permitir uma mudança real", ela disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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