UOL Notícias Internacional
 

05/02/2009

Nova vida no Cairo proporcionou refúgio a médico nazista

The New York Times
Souad Mekhennet e Nicholas Kulish
Em Cairo (Egito)
Mesmo em idade avançada, o imponente alemão, alto e atlético, conhecido pelos moradores locais como Tarek Hussein Farid, mantinha a disciplina de caminhar aproximadamente 24 quilômetros diariamente pelas ruas movimentadas da capital do Egito. Ele andava até a mundialmente famosa mesquita Al Azhar, onde converteu-se ao islamismo, e até o ornamentado Café J. Groppi, no centro da cidade, onde pedia bolos de chocolate que enviava aos amigos, e comprava bombons para as crianças, que o chamavam de Tio Tarek.

  • LKA Baden-Wuerttemberg via The New York Times

    Foto do doutor Aribert Ferdinand Heim, conhecido como Doutor Morte, em 1950

Amigos e conhecidos aqui no Egito também recordam-se dele como sendo um fotógrafo amador entusiasmado, que trazia quase sempre uma câmera pendurada ao pescoço, mas que nunca permitia que tirassem fotografias suas. E, por um bom motivo: o nome de batismo do Tio Tarek era Aribert Ferdinand Heim, e ele era membro das Waffen-SS, a tropa de elite de Adolf Hitler, além de médico nos campos de concentração de Buchenwald, Sachsenhausen e Mauthausen.

Foi por detrás dos muros de pedras cinzentas de Mauthausen, na sua nativa Áustria, que Heim cometeu as atrocidades contra centenas de judeus e outros indivíduos. Essas atrocidades fizeram com que ele fosse apelidado de Doutor Morte e tornasse-se o criminoso nazista supostamente ainda solto mais procurado pelo Centro Simon Wiesenthal.

Heim foi acusado de operar prisioneiros sem anestesia; de remover órgãos de prisioneiros saudáveis, de deixá-los morrer na mesa de operação; de injetar venenos, incluindo gasolina, nos corações de outros; e de ter pegado o crânio de pelo menos uma das vítimas como suvenir. Após ter vivido fora do alcance do radar dos caçadores de nazistas durante mais de uma década após a Segunda Guerra Mundial - ele passou grande parte desse período na cidade alemã de Baden-Baden, onde tinha uma mulher, dois filhos e uma clínica ginecológica -, Heim escapou da captura quando os investigadores fecharam o cerco sobre ele em 1962.

O seu esconderijo, bem como a sua morte em 1992, permaneceram desconhecidos até agora.

Investigadores em Israel e na Alemanha disseram repetidamente acreditar que Heim estava vivo e escondido na América Latina, perto de onde uma mulher, supostamente a sua filha ilegítima, vivia no Chile. Testemunhas da Finlândia ao Vietnã e da Arábia Saudita à Argentina enviaram pistas aos investigadores e disseram ter visto o médico nazista.

Uma mala com duas alças enferrujadas, que estava quase esquecida em um depósito aqui no Cairo, escondia a verdade que havia por trás da fuga de Heim para o Oriente Médio. Obtidos pelo "New York Times" e pela estação de televisão ZDF de membros da família Doma, proprietária do hotel onde Heim morava, os registros contidos na mala contam a história da vida e da morte de Heim no Egito.

A mala contém um arquivo de páginas amareladas, algumas em envelopes ainda selados, de cartas e de resultados de exames médicos de Heim, de registros financeiros e ainda um artigo sublinhado e com anotações de uma revista alemã, sobre a caçada à sua pessoa e o julgamento a que foi submetido in absentia, e até desenhos de soldados e trens feitos pelos filhos que ele deixou na Alemanha. Alguns documentos estão no nome de Heim, outros de Farid, mas muitos destes últimos, tais como a inscrição para o visto para residência no Egito sob o nome Tarek Hussein Farid, trazem a mesma data de aniversário - 28 de junho de 1914 -, e o mesmo local de nascimento - Radkersburg, na Áustria - de Heim.

Embora nenhum dos dez amigos e conhecidos no Cairo que identificaram a fotografia de Heim soubessem a sua real identidade, eles disseram que havia sinais de que o médico poderia estar foragido. "A impressão que eu tinha, que na época baseou-se na impressão que o meu pai teve, foi de que ele talvez tivesse problemas com os judeus, mas naquela época ele refugiou-se no Cairo", diz Tarek Abdelmonein el Rifai, filho de Abdelmonein el Rifai, 88, dentista e amigo próximo de Heim no Cairo.

  • Dominic Buettner/The New York Times

    Filho de Heim admitiu publicamente pela primeira vez que esteve com o pai no Egito na época em que o doutor morreu de câncer

Uma cópia autenticada do atestado de óbito obtido junto às autoridades egípcias confirmou os relatos de testemunhas de que o homem chamado Tarek Hussein Farid morreu em 1992. "Tarek Hussein Farid é o nome que o meu pai adotou quando converteu-se ao islamismo", diz o filho dele, Ruediger Heim. Em uma entrevista na casa da família em Baden-Baden, Heim, 53, admitiu publicamente pela primeira vez que esteve com o pai no Egito na época em que este morreu de câncer do reto.

"Foi durante as Olimpíadas. Havia um televisor no quarto, e ele assistia às Olimpíadas. Isso o distraía. Ele devia estar passando por muita dor", conta Heim, que é alto como o pai, com uma face longa e triste, enquanto fala suave e cuidadosamente. O doutor Aribert Heim morreu um dia após o término das Olimpíadas, em 10 de agosto de 1992, segundo o seu filho e o atestado de óbito.

Ruediger Heim conta que ficou sabendo o paradeiro do pai através da sua tia, que já morreu. Ele diz que não falou nada porque não queria causar nenhum problema para os amigos do pai no Egito. À medida que o número de criminosos de guerra nazistas sobreviventes diminuía, a importância do caso do pai dele aumentava.

Apesar das evidências recém-descobertas do período que Heim passou no Egito, é impossível encerrar definitivamente o caso, já que local em que ele foi enterrado ainda é um mistério.

A morte dele será um marco significante, mas até então desconhecido, no desenrolar da apaixonada e às vezes polêmica caçada aos criminosos de guerra nazistas que resultaram no julgamento e na execução do planejador do Holocausto, Adolf Eichman, mas que jamais culminaram na captura de Josef Mengele, o mais famoso médico nazista, que morreu no Brasil em 1979, conforme demonstraram testes realizados mais tarde.

Embora as vidas secretas de nazistas em países como a Argentina e o Paraguai tenham capturado a imaginação popular em livros como "O Dossiê Odessa" e "Os Meninos do Brasil", o caso de Heim lança uma luz sobre a história muitas vezes negligenciada da fuga deles para o Oriente Médio.

Até a mudança dos ventos políticos, os ex-nazistas eram bem vindos no Egito nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e eles prestaram ajuda ao país especialmente com tecnologia militar. Ruediger Heim diz que o seu pai lhe disse que conhecia outros nazistas no país árabe, mas que procurava manter-se distantes deles.

Mesmo assim, não se sabe como Heim foi capaz de escapar dos seus perseguidores por tanto tempo, enquanto recebia dinheiro da Europa, especialmente da sua irmã, Herta Barth, já falecida, e correspondia-se com amigos e a família em longas cartas.

  • Shawn Baldwin/The New York Times

    Entrada do hotel Kasr el Madina, onde Heim morou durante a sua última década de vida

"O mundo árabe era um refúgio ainda melhor e mais seguro do que a América do Sul", diz Efraim Zuroff, diretor israelense do Centro Simon Wiesenthal, que procurava por Heim e que viajou ao Chile em julho do ano passado para aumentar a conscientização a respeito do caso. "Sob determinado aspecto estou completamente chocado", disse Zuroff quando foi informado do aparente destino de Heim.

Ele afirma que o centro estava prestes a elevar o prêmio por informações que levassem à prisão de Heim de US$ 400 mil para US$ 1,3 milhão.

A busca por Heim teve início pouco após o final da Segunda Guerra Mundial, quando ele ainda era um prisioneiro de guerra dos norte-americanos. Uma equipe de investigação de crimes de guerra montada pelos Estados Unidos ouviu depoimentos de Josef Kohl sobre os crimes cometidos por Heim. Os depoimentos de Kohl, um ex-prisioneiro de Mauthausen, foram ouvidos em 18 de janeiro de 1946, pouco menos de um ano após a rendição alemã.

"O doutor Heim tinha o hábito de examinar a boca dos detentos para determinar se os dentes deles estavam em condições impecáveis", contou Kohl, segundo uma transcrição da entrevista. "Se os dentes estivessem bons, ele matava o prisioneiro com uma injeção, decepava-lhe a cabeça, deixava-a cozinhar no forno crematório por horas, até que a carne se desprendesse dos ossos, e preparava o crânio para si próprio ou para os amigos dele como objeto de decoração para as suas mesas de trabalho".

Zuroff disse que, como Heim esteve em Mauthausen por pouco tempo no início da guerra, no outono de 1941, ele não tinha conhecimento de nenhuma pessoa viva à época do depoimento que tivesse sofrido nas mãos do médico e pudesse prestar um depoimento sobre os crimes dele baseados na própria experiência.

Investigadores alemães dizem que Heim foi cuidadoso durante todo o período do pós-guerra, quando pessoas menos controladas poderiam ter baixado a guarda.

Os investigadores observam que Heim, um talentoso jogador de hóquei, não apareceu nas fotografias quando o seu time posou para os seus retratos de equipe, nem mesmo após terem vencido o campeonato alemão. Heim era dono de um prédio de apartamentos em Berlim, que, segundo os investigadores, proporcionou a ele uma renda durante anos para que mantivesse a sua vida secreta.

Atualmente, na sede da polícia estadual de Baden-Wuerttemberg, em Stuttgart, pequenos ímãs pontilham um mapa-múndi, marcando os pontos nos quais surgiram pistas ou onde suspeitos foram vistos. Os investigadores dizem que procuraram por Heim desde o seu desaparecimento em 1962, tendo checado mais de 240 pistas e descartado várias pessoas que se acreditava serem Heim. Embora jamais o tivessem capturado, eles parecem ter chegado tremendamente perto do esconderijo de Heim no Oriente Médio.

"Havia a informação de que Heim estaria no Egito trabalhando como médico policial entre 1967 e o início dos anos setenta", diz Joachim Schaeck, diretor da unidade de fugitivos da polícia estadual. "Essa pista revelou-se falsa".

Segundo o filho dele, Heim deixou a Alemanha e dirigiu através da França e da Espanha antes de seguir para o Marrocos, e finalmente estabelecer-se no Egito. "Foi por pura coincidência que a polícia não conseguiu me prender, porque eu não estava em casa no momento", escreveu Heim em uma carta à revista alemã "Der Spiegel", após esta ter publicado uma reportagem sobre o seu caso de crimes de guerra em 1979. Não se sabe se ele chegou a enviar a carta, que foi encontrada nos seus arquivos, muitos dos quais foram redigidos em escrita cursiva meticulosa em alemão ou inglês.

Na carta ele acusa também Simon Wiesenthal, que foi prisioneiro em Mauthausen, de ser "o indivíduo que inventou essas atrocidades". Hein prosseguiu, discutindo aquilo que chamou de massacres israelenses dos palestinos, e acrescentou que "os judeus Kazhar, o lobby sionista dos Estados Unidos, foram os primeiros a declarar guerra à Alemanha de Hitler em 1933".

O grupo étnico turco dos Khazar foi um tema recorrente para Heim, que manteve-se ocupado no Cairo fazendo pesquisas para um trabalho que redigiu em inglês e alemão, no qual descartou a possibilidade de anti-semitismo porque, segundo ele, a maioria dos judeus não tinha origem étnica semita. Rifai lembra-se de que Heim mostrou à sua família vários rascunhos do trabalho, que foi um dos encontrados na mala obtida pelo "New York Times" e pela rede de televisão ZDF. Uma lista também revela que ele pretendia enviar minutas do seu trabalho para pessoas proeminentes de todo o mundo - sob o nome de doutor Youssef Ibrahim - incluindo o secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kurt Waldheim, o assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski, e o líder iugoslavo, marechal Tito.

Ele mantinha vínculos estreitos com os seus vizinhos, incluindo a família Doma, que era dona do hotel Kasr el Madina, onde Heim morou durante a sua última década de vida. Mahmoud Doma, cujo pai era dono do estabelecimento, diz que Heim falava árabe, inglês e francês, além de alemão. Doma conta que o vizinho lia e estudava o Alcorão, incluindo uma cópia em alemão que os Doma encomendaram para ele.

Mahmoud Doma, 38, fica emocionado quando fala do homem que conhecia como Tio Tarek, que lhe deu livros de presente e encorajou-o a estudar. "Ele era como um pai. Ele me amava e eu o amava".

Ele recorda-se de como o Tio Tarek comprou raquetes e instalou uma rede de tênis no terraço do hotel, onde ele e os irmãos jogavam até o anoitecer com o muçulmano alemão. Mas, por volta de 1990, a boa saúde de Heim começou a fraquejar e ele foi diagnosticado com câncer.
Após a sua morte, o seu filho Ruediger insistiu que eles atendessem aos desejos do pai e doassem o corpo à ciência, o que não é uma tarefa fácil em um país muçulmano, no qual as regras determinam um enterro rápido e onde a dissecação é condenada. Mahmoud, que desejava sepultar o Tio Tarek na cripta da família, perto do seu pai, foi contrário a esse plano.

Os dois homens dirigiram uma van branca com o corpo de Heim, que foi lavado e envolto em um lençol branco, segundo a tradição muçulmana, e colocado em um caixão de madeira. Doma conta que subornou um funcionário do hospital para que este aceitasse o corpo, mas as autoridades egípcias descobriram, e Heim acabou sendo enterrado em uma sepultura comum e anônima.

Tradução: UOL

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