UOL Notícias Internacional
 

06/02/2009

O lado positivo de resistir à globalização

The New York Times
Floyd Norris
À medida que a globalização se disseminava nas últimas décadas, o ritmo do crescimento econômico mundial acelerou. Economias abertas, como foi mostrado, podem crescer mais depressa do que as fechadas.

Mas agora que a crise financeira se transformou em uma crise econômica, parece que aqueles que mantinham uma economia fechada podem estar em melhor forma para suportar a tempestade.

Kenneth S. Rogoff, o economista de Harvard, notou na semana passada no Fórum Monetário Internacional em Davos, Suíça, que a Índia, que tem "restrições comparativamente rígidas aos fluxos de capital estrangeiro", também parecia possuir os mais otimistas e estar caminhando para um crescimento econômico em um ano em que poucos países estão.

"Graças aos céus pela forte estrutura de regulamentação que temos em nosso sistema financeiro", ele citou um executivo corporativo indiano como tendo dito.

Em comparação, os países que mais se abriram para os mercados de capital internacionais, e que buscaram atrair negócios com regulamentações relativamente relaxadas, agora são os que estão mais sofrendo. A Islândia era a maravilha econômica do mundo; agora está falida.

A metáfora que vem a mente é a de um grande navio. Um navio de casco único custará menos para construir e operar do que um navio semelhante de casco duplo. Portanto, ele ganhará mais dinheiro a cada viagem, mas sua chance de afundar é maior caso encontre uma tempestade severa ou um grande iceberg.

Foi permitido que o sistema financeiro saísse de controle no momento exato em que poderia causar mais danos ao mundo.

Antes deste episódio, a evidência parecia mostrar que os países em desenvolvimento poderiam se beneficiar em serem financeiramente abertos, desde que outros fatores estivessem presentes.

"A abertura plena das contas de capital na ausência de condições essenciais de apoio pode arruinar a obtenção de qualquer benefício, tornando o país mais vulnerável a paradas repentinas no fluxo de capital", escreveu Rogoff, um ex-chefe de pesquisa do Fundo Monetário Internacional, há dois anos. Este trabalho foi escrito em conjunto com três economistas que na época estavam no FMI, M. Ayhan Kose, Eswar Prasad e Shang-Jin Wei.

Essas condições essenciais, acrescentou o trabalho, "incluem políticas macroeconômicas estáveis assim como instituições financeiras e outras suficientemente fortes, regulamentação e governança".

Quando Rogoff e seus colegas escreveram essas palavras, eles tinham em mente a regulamentação em um país realizando a abertura, não os Estados Unidos e o Reino Unido, onde a maioria dos grandes bancos do mundo está situada.

Mas foram exatamente estes países que provaram a verdade do alerta.

"Nós fomos incrivelmente irresponsáveis", disse Rogoff sobre os reguladores americanos. "Nós tínhamos todas as luzes vermelhas piscando. Nossos líderes estavam cegos para o que estava acontecendo."

Rogoff é economista demais para pensar que a solução seja fechar as economias. "A lição não pode ser a de que se deve seguir o caminho da autarquia financeira", ele disse.

Mas o mundo poderia estar em melhores condições agora se mais países tivessem escolhido essa rota e, portanto estariam mais isolados da tempestade de crédito que deixou empresas e países ao redor do mundo temerosos de que serão incapazes de obter o financiamento necessário.

Certamente uma nova arquitetura americana de regulamentação nascerá disto, assim como haverá mais esforços de colaboração internacional.

Entre os reguladores, a palavra do momento agora é "contracíclico", e esforços serão feitos para incorporar isso em qualquer novo sistema. Basicamente, isso diz que os reguladores devem forçar os bancos a correrem menos riscos quando a situação estiver muito boa - talvez elevando os níveis de capital obrigatórios - e relaxar os padrões quando as coisas estiverem muito ruins e o mundo estiver desesperado por crédito. O atual sistema tendia a reagir diante de tudo o que era bom concluindo que menos capital era necessário.

Nós veremos em algum novo ciclo se a idéia realmente funcionará. Os reguladores estariam dispostos a agir quando a situação fosse muito boa, como fracassaram em fazer no último ciclo? Alguns têm dúvidas, entre eles Walter B. Kielholz, o presidente do Credit Suisse, que diz achar que os governos dificilmente apoiarão os reguladores se bancos e clientes se queixarem.

A crise mostrou que o calcanhar de Aquiles do sistema financeiro globalizado é uma falta de regulamentação de alta qualidade, consistente, para impedir que banqueiros com excesso de confiança assumam riscos irresponsáveis. Há um ano e meio, quando parecia que a questão das hipotecas subprime se restringiria aos Estados Unidos, a maioria dos países achou que passaria ileso por ela. Mas a verdade é que todos em um sistema globalizado estavam vulneráveis a um colapso que teve início no centro.

"Eu acredito que precisamos de um regulador financeiro global com força real", disse Rogoff nesta semana, "para impedir o problema do mínimo denominador comum".

Antes desta crise, o capital fluía para o local que era menos regulado, e alguns países competiam para ser este lugar. Vale a pena lembrar que o governo Bush estava tentando usar a ameaça da concorrência externa para relaxar a regulamentação antes do sistema financeiro implodir.

Se isso não acontecer, então o caminho mais racional para muitos países pode ser se isolar da economia globalizada.

"Os países se sentirão mais obrigados a impor mais controles de capital para não ficarem expostos a países que estão assumindo riscos", disse Rogoff.

Assim como os compradores de navios de casco duplo, os países que seguirem por esse caminho provavelmente serão menos bem-sucedidos em grande parte do tempo. As oportunidades para os bancos internacionais serão reduzidas. Adotar medidas para impedir que isso aconteça - implantando um sistema regulador eficaz - ajudaria a economia global e, a longo prazo, as instituições que seriam reguladas. Realizar isso será muito mais difícil, e menos popular politicamente, do que impor limites aos bônus dos executivos. Mas poderia fazer um bem muito maior.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h09

    -0,80
    3,132
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h16

    1,09
    64.455,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host