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08/02/2009

São quantos, contando o bebê?

The New York Times
Kate Zernike
O comentário da fotógrafa na Sears foi típico. "Todos são seus?", ela perguntou, contando os 12 filhos de Kim Gunnip.

"Não", respondeu Gunnip, "eu peguei alguns na praça de alimentação".

Mas foi mais difícil encontrar uma resposta para um homem na fila do supermercado que disse ao alcance dos ouvidos das crianças pequenas:
"Você deve ter uma ótima vida sexual".

Agora sua família, entre outras que se autointitulam "famílias maiores", enfrenta a interminável cobertura noticiosa dos óctuplos nascidos na Califórnia e uma nova rodada de escárnio, queixos caídos e piadas bobas.

Antes, quando a média das mulheres não tinha mais do que três filhos, as grandes famílias eram os Kennedy de Hickory Hill e Hyannis Port ou os Cosby - uma confusão adorável de crianças tipicamente americanas com seus machucados e sorrisos.

Mas à medida que as famílias encolhiam, e os pais gravitavam em torno de proles menores, porém mais preciosas, ter filhos suficientes para encher uma van passou a ser visto como certa aberração. As famílias conhecem os estereótipos: poligâmicos, fanáticos religiosos, candidatos a reality show ou quebequenses atrás do bônus do governo. E o esforço de Angelina Jolie para ter sua própria seleção de futebol para a Copa do Mundo não parece um pouco obsessivo?

"Veja os três programas sobre famílias maiores que passam no canal TLC", diz Meagan Francis, 31, autora do livro "Table for Eight" ("Mesa para Oito", em português), escrito a partir de sua experiência de cuidar de quatro filhos (ela está esperando o quinto para o mês que vem).

"Um é sobre fundamentalistas religiosos, o outro tem sêxtuplos, e a terceira família é de anões", disse, referindo-se, respectivamente aos Duggars do programa "17 Kids and Counting" ("17 Filhos e Contando"), "Jon e Kate Mais Oito" e "A Pequena Grande Família", sobre dois anões criando seus quatro filhos, três de estatura média, numa fazenda de abóboras no Oregon.

"Tem-se a impressão", acrescenta Francis, "de que qualquer um que tenha mais de três filhos faz isso por razões bizarras ou por causa de uma anomalia médica".

Nos últimos dias, o conselheiro ambiental do governo britânico declarou "irresponsável" ter mais de dois filhos. E Nancy Pelosi, porta-voz da Casa Branca, afirmou que incluir a contracepção no pacote de estímulo do governo poderia reduzir os gastos públicos. Pelosi, que é mãe de cinco, estava argumentando contra a gravidez indesejada, e não contra famílias que escolhem ter muitos filhos. Mas independente disso, as famílias veem as críticas se avolumarem.

Em fóruns e blogs na Internet, como o lotsofkids.com e largerfamilies.com, as mães defendem a si mesmas contra as acusações de que não são capazes de dar a cada criança o amor necessário ou de que estão usurpando os escassos recursos do planeta. Elas resistem e ficam indignadas com as tentativas de compará-las com os Duggars, Jon and Kate e os óctuplos.

Muitas mães, na verdade, compartilham a repulsa ou as questões éticas contra a fertilização in vitro que levou ao nascimento de oito bebês de uma mãe solteira e desempregada da Califórnia. Mas dizem também que a reação contra a mãe dos óctuplos só foi mais dura quando foi revelado que ela já tinha outros seis filhos. Ter óctuplos é algo impressionante, ter 14 filhos é uma aberração.

Referindo-se à reação de uma correspondente de um programa de notícias que pareceu "enojada" com a história, uma mãe escreveu no site
lotsofkids.com: "Eu queria bater a cabecinha cheia de julgamentos dela contra a parede".

Francis, criadora do largerfamilies.com, disse: "Não consigo imaginar ter 14 filhos, mas acho que é possível criá-los e fazer um bom trabalho".

E continuou: "As pessoas sentem como se tivessem algum direito ou propriedade sobre os filhos dos outros ou sobre a forma como as crianças são criadas. É um símbolo de quem você é e quais são seus valores".

Se as famílias maiores são motivo para espetáculo, em parte é porque elas se tornaram cada vez mais raras.

Em 1976, de acordo com dados do censo, 59% das mulheres entre 40 e 44 anos tinham três ou mais filhos, 20% tinham cinco ou mais e 6% tinham sete ou mais.

Em 2006, quatro décadas depois que a Suprema Corte declarou o controle de natalidade como um direito constitucional (e o último ano disponível de estudos do censo), 28% das mulheres entre 40 a 44 anos tinham três filhos ou mais, 4% tinham cinco ou mais e apenas 0,5% tinham sete ou mais.

"Três ainda é OK", diz Michelle Lehmann, fundadora do lotsofkids.com e mãe de oito filhos, que mora nos arredores de Chicago. "Quando você tem quatro, as pessoas começam a levantar as sobrancelhas. Quando você tem cinco, as pessoas dizem: 'Não acredito'."

Mais de dez? "Elas acham que você está mentindo", disse Gunnip, que também escreve dois blogs sobre as chamadas megafamílias, com oito filhos ou mais.

Leslie Leyland Fields, mãe de seis em Kodiak, Alaska, lembra-se da resposta de seu chefe quando ela anunciou que estava grávida do quinto filho e desistindo do cargo de professora numa universidade estadual:
"Este é o que, o nono ou décimo?".

Fields, que teve quatro filhos e duas gestações inesperadas, mas bem-vindas, depois dos 40, disse: "Era inevitável que as pessoas chegassem para mim com um ar condescendente, puxassem-me para o lado e
sussurrassem: 'Vou explicar para você como isso funciona'."

Num artigo de 2006, "The Case for Kids", no jornal Christianity Today, Fields lamentou as novas normas sociais que assumem que ter muitos filhos é um fardo para os objetivos profissionais das mulheres com mais escolaridade. "A mulher inteligente, ambiciosa, totalmente realizada do século 21 escolhe a carreira. A mulher sem ambições tem filhos".

Numa entrevista, Fields acrescentou: "A escolha por uma vida doméstica maior é frequentemente vista como uma negação do profissional e do público. Acho maravilhoso e muito saudável ter um pé nos dois mundos".

Com mais filhos, ela teve de mudar de emprego, mas sua carreira, como ela mesma disse, tornou-se mais satisfatória. Agora ela dá aulas na pós-graduação e não na graduação, o que requer menos tempo na sala de aula e permitiu que ela escrevesse mais três livros.

"As críticas parecem elitistas", disse. "Vêm de pessoas com escolaridade, o que me faz pensar que essas pessoas não têm desculpas para pensar de um jeito tão estereotipado".

O artigo no jornal Christianity Today desencadeou uma enxurrada de e-mails de revolta. Um leitor escreveu em letras capitulares: "Já lhe ocorreu que se você de fato quer servir a Deus, deveria ter menos filhos para que tivesse mais tempo para isso?" ("Não dá para estabelecer um debate com pessoas que tem esse tipo de raiva", disse Field).

Com as histórias sobre o aumento do número de famílias grandes em lugares como o Upper East Side de Manhattan e áreas seletas dos subúrbios, presume-se que as famílias grandes são ou muito ricas, e que têm filhos como um símbolo de status, ou então muito pobres, vivendo de auxílio social e totalmente destituídas de cultura.

A crença quanto à falta de inteligência irrita Barbara Curtis, mãe de 12, com idades entre 8 e 39, em Loudoun County, Virginia. "Eles esperam que eu chegue me arrastando dos Apalaches [área pobre de minas de carvão nos EUA] ou algo do tipo", disse. Na verdade, ela é uma professora do método Montessori e seu marido é gerente de contas comerciais numa indústria automobilística. Um dos filhos está entrando num programa de graduação em ópera, e outro esteve em Nova York na semana passada fazendo um teste para uma companhia de teatro. Seu sexto filho foi o único finalista do concurso nacional de mérito escolar em sua classe do segundo grau, disse.

Curtis ilustra uma das muitas maneiras pelas quais as famílias crescem
tanto: ela teve dois filhos do primeiro casamento, depois, com o segundo marido, teve sete filhos em dez anos. Um deles tem síndrome de Down, então eles adotaram outra criança com a doença, acreditando que os dois seriam mais felizes crescendo juntos. Desde então, eles aceitaram mais dois pedidos de adoção de crianças com síndrome de Down.

"Crianças são uma espécie de riqueza", disse Curtis. "Só não são o tipo de riqueza que nossa sociedade tende a buscar".

Ainda assim, para muitas megafamílias, a vida é difícil. As casas estão normalmente lotadas; frequentar a faculdade normalmente significa frequentar uma faculdade comunitária [com cursos de dois anos]. Os pais trabalham longas horas além da demanda de tempo para criar tantos filhos. E apesar de o censo não revelar as estatísticas de renda das famílias maiores, as mulheres sem diploma superior têm em média cerca de um filho a mais do que as mulheres com diploma ou cursos profissionalizantes.

Gunnip é dona de casa no norte do Estado de Nova York, e seu marido trabalha como supervisor no departamento de esgoto. Ela diz que eles têm direito a pedir assistência social, mas não querem porque acham que há quem precise mais. "Não sei dizer como conseguimos nos virar, e no papel parece que não conseguimos, mas sempre tem um jeito", disse.
"Meus filhos nunca passam fome. Eles fazem as atividades que querem fazer, nós saímos de férias. Não vamos para a Disney, mas vamos acampar".

Muitas famílias grandes são religiosas, e algumas seguem o movimento QuiverFull, que encontra justificativa para as famílias grandes no salmo 127: As crianças são um presente de Deus, "assim como as flechas na mão de um guerreiro", e "feliz o homem que enche delas a sua aljava".

Essas crenças podem ir de encontro aos problemas ambientais. Com 6,8 bilhões de pessoas, a população do mundo mais do que triplicou no século passado, e os demógrafos esperam que ela exceda os 9 bilhões até a metade deste.

"Cada pessoa tem múltiplos impactos sobre múltiplos recursos ambientais", diz Alan Weisman, autor de "The World Without Us" ("O Mundo Sem Nós"), que defende uma política de filhos únicos para que o mundo volte aos níveis populacionais do início do século 20. "É óbvio que quanto mais pessoas existirem, maior será o estresse sobre um ecossistema que não tende a crescer".

Os pais de famílias grandes defendem que têm uma economia de escala:
uma lâmpada ilumina uma sala quer ela tenha quatro ou 14 pessoas. Seus filhos aprendem a não demorar no banho, dividir o espaço, apreciar brinquedos, roupas e livros de segunda-mão.

"As famílias grandes estão entre as famílias mais verdes", disse Gunnip. "Elas normalmente não têm muito dinheiro, então se certificam de fazer o máximo que podem com o que têm".

Além disso, dizem, a taxa de natalidade nos Estados Unidos mal chega ao nível necessário para substituir a população. A taxa de fertilidade total, que prevê o número de crianças que uma mulher terá em média na vida, chegou a 2,1 em 2006, suficiente para os níveis de substituição da população; mas esta foi a primeira vez que chegou a ficar tão alta desde 1971. Um número pequeno de famílias grandes, dizem, não é suficiente para desequilibrar a balança.

Quanto à acusação de que seus filhos sofrem por falta de tempo e atenção, os pais de grandes famílias dizem que são pais melhores.
Apesar de não dar pra ficar em cima o tempo todo, é possível passar tempo com cada filho individualmente.

"Você tem de abrir mão de várias ideias sobre o tipo de mãe que queria ser", disse Francis. "Isso não é ruim. Se você se apega à ideia de que pode controlar tudo, bem, você não pode. Eles acabam se virando sozinhos. Nas famílias grandes, você perde isso."

Quanto às outras questões apontadas sobre as famílias grandes, os defensores desenvolveram respostas padrão, em listas que circulam na Internet.

Como você consegue bancar tantos filhos? "Estilos de vida é que são caros, crianças não".

Você não sabe o que provoca isso? "Ah, sim, agora eu lavo separado as cuecas do meu marido".

Vocês têm tempo só para vocês? "É claro, ou então não teríamos seis filhos". Eloise De Vylder

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