UOL Notícias Internacional
 

08/02/2009

Uma nova língua para ganhar corações e mentes

The New York Times
Michael Slackman*
Em Beni Suef (Egito)
Os Estados Unidos gastam muito dinheiro no Egito. Cerca de US$ 1,7 bilhão por ano, sobretudo para comprar armas e sustentar seu exército. Há também uma imensa Embaixada dos EUA no Cairo, a segunda maior depois da nova embaixada no Iraque, cheia de diplomatas, autoridades militares, agentes do FBI, do DEA, CIA e outros.

Os Estados Unidos também gastaram cerca de US$ 2 mil durante os últimos dois anos para ensinar Yousra Yousef a falar inglês. Ela é uma jovem de 15 anos de Ayut, uma das cidades mais ligadas à tradição e conservadoras do país, antes reduto de incubação do extremismo islâmico. Autoridades em Washington ficaram irritadas com o quanto custava ensinar Yousef, disse um funcionário, porque em outros países, o mesmo programa custa cerca de US$ 1.000 por aluno.

Mas o que os Estados Unidos ganham com o investimento nessa jovem?

"A ideia mais importante que eu aprendi foi a respeitar as diferenças", disse Yousef, com um grande sorriso.

Ela disse isso em inglês, expressando uma ideia considerada rebelde numa sociedade que valoriza e encoraja as convenções. Yousef aprendeu sua nova língua e novas ideias no curso Access, um programa extracurricular de língua inglesa que responde por uma parte pequena e quase invisível do orçamento multibilionário do Departamento de Estado norte-americano. É um programa modesto, de impacto lento, que tem como objetivo promover a mudança e o entendimento a partir da base. Desde sua origem em 2004, teve 32 mil alunos em 50 países.

O Access chegou ao Egito cerca de dois anos atrás e já formou 182 adolescentes de todo o país, cristãos e muçulmanos, de ambos os sexos.
O único requisito é que eles venham de famílias pobres.

O programa nunca foi promovido como parte dos esforços do governo Bush para levar a democracia ao Oriente Médio, e pode ser que nunca tenha sido concebido nesses termos. Mas os jovens disseram que o programa mudou suas vidas, levando-os a abraçar a diversidade, a tolerância e o compromisso, fundamentos de uma sociedade democrática e pluralista.

"Tudo na minha vida é diferente agora", disse Manal Adel Ahmed, uma jovem de 16 anos também de Asyut. "Antes, eu tinha medo de lidar com qualquer um que fosse diferente, achava que era ruim. Agora, acho que é importante conhecer outras pessoas e outras culturas".

O trabalho do curso enfatiza o aprendizado de inglês, mas também tem como objetivo transmitir um melhor entendimento da cultura americana, que com frequência é muito distante dos jovens daqui. "O Dia de Ação de Graças é o meu feriado americano favorito", disse Nourhan Ahmed, 16. "A ideia de a família toda se reunir uma vez por ano é ótima, principalmente porque não é algo religioso. Não é para um grupo ou para outro. É para todos".

Depois de completar o curso de dois anos, esses jovens participaram de um encontro de três dias para ex-alunos, a cerca de uma hora e meia de carro ao sul de Cairo. O evento foi concebido por um lado como um programa de revisão e por outro para continuar em contato com os jovens.

Apesar do sucesso aparente do programa, autoridades americanas dizem que não há uma perspectiva natural de ampliação, e nem mesmo a certeza de que o programa continuará a partir do segundo grupo, que inclui 192 alunos em diferentes cidades do Egito.

"Acho que ficaria deprimido se o Access não existisse mais", disse Rizk Massoud, 16, também de Asyut. "Ele mudou minha vida, mudou meu jeito de pensar, minhas escolhas, meus amigos. Abriu portas. Não tem nenhuma área em que ele não me beneficiou".

O encontro aconteceu no Centro Mediterrâneo para o Desenvolvimento Sustentável, um oásis de calma e possibilidades, cercado por muros, numa região pobre e seca ao sul de Cairo onde as pessoas normalmente dividem suas casas com animais de criação.

"Não é possível construir a democracia dizendo 'Escolhemos a democracia'", disse Adly Hassanein, que com sua mulher, Djodi, administra o centro de sua propriedade. "É preciso construir a democracia no coração dos jovens".

Os graduados no Access foram convidados a participar de um dos quatro programas de três dias que acontecem no centro Hassanein.

"Aprendemos sobre igualdade", disse Abanoud Wanees, 16, que é da cidade de Minya.

"Aprendemos sobre individualidade", disse Fady Samir, 14, também de Minya. Então Samir levantou-se e disse: "Quero acrescentar uma coisa.
Eles nos permitem aprender a pensar".

Na segunda-feira, os alunos foram convidados para uma oficina coordenada por três músicos americanos que vivem em Cairo: Jeff Harding, Eden Unger e Nate Bowditch. O grupo, chamado Fuuls, usou seu próprio nome como exemplo para transmitir uma lição aos alunos, com um toque de humor auto-depreciativo ao jogar com o significado da palavra em inglês, "fools" [tolos, loucos], e em árabe, que se refere a uma pasta de feijão popularmente consumida no café da manhã.

"We are stupid beans", disse Unger, arrancando risos dos 35 alunos. [A frase pode ser entendida como "Somos seres estúpidos" ou "Somos feijões estúpidos"].

Os Fuuls ensinaram aos alunos a música "If I had a Hammer" ["Se eu Tivesse um Martelo"], o hino progressivo dos anos 60 conhecido por qualquer americano de meia-idade que participou de acampamentos. A música foi escolhida porque o inglês era simples e o simbolismo - o martelo como justiça -, relevante.

Em poucos minutos, os alunos estavam cantando com entusiasmo, os garotos abraçados uns aos outros, as jovens lendo a letra com atenção.

Há um aspecto óbvio e potencialmente controverso em relação ao programa, no que diz respeito a aumentar a afeição pelos Estados Unidos. Mas isso não parecia chatear os alunos, mesmo quando pediram que eles agitassem pequenas bandeiras americanas para saudar a embaixadora dos EUA no Egito, Margaret Scobey, que passou para fazer uma visita. Eles estavam ansiosos para mostrar suas habilidades em inglês, e para perguntar sobre as coisas que mais os inquietam.

"A primeira pergunta deles para a embaixadora foi 'O que faremos depois?'", disse Robert Lindsey, coordenador do Access no Egito para o Departamento de Estado.

Os alunos pareceram desapontados com a resposta. Eles ficaram sabendo que não há mais etapas do Access, que o programa poderia ajudá-los a participar de outros programas, mas que isso seria uma iniciativa de cada um.

"Não queremos que sejam apenas dois anos, que já passaram e agora acabou", disse Sandy Morris, 15, de Minya.

"Demos o primeiro passo, agora queremos dar o próximo", disse Bishoy Wanees, 15, também de Minya.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host