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09/02/2009

Tente viver com US$ 500 mil

The New York Times
Allen Salkin
Escola particular: US$ 32 mil por ano por aluno.

Hipoteca: US$ 96 mil por ano.

Taxa de manutenção da cooperativa [de compradores de um prédio de
apartamentos]: US$ 96 mil por ano.

Babá: US$ 45 mil por ano.

Já estamos em quase US$ 269 mil, e ainda nem chegamos aos impostos.

Quinhentos mil dólares - a quantia que o presidente Barack Obama quer estabelecer como pagamento máximo para os executivos dos bancos que aceitaram o dinheiro de auxílio do governo - parece muito, e é muito.

Para muita gente em muitos lugares, é uma quantia principesca para se viver. Mas em alguns bairros da cidade de Nova York e em áreas suburbanas onde vivem os banqueiros de sucesso, meio milhão por ano pode ir embora muito rápido.

"Por mais impossível que pareça, os banqueiros que moram no Upper East Side e ganham de 2 a 3 milhões por ano estabeleceram um estilo de vida no qual também chegam ao zero no final do ano, com contas de cartão de crédito e hipotecas das quais não podem escapar", disse Holly Peterson, autora do livro "The Manny", sobre a vida no Upper East Side, e filha de Peter G. Peterson, fundador da firma de ativos Blackstone Group. "500 mil dólares significam tirar os filhos da escola particular e vender a casa por uma ninharia".

É claro, a solução pode parecer simples: mudar para o Brooklyn ou Hoboken, colocar os filhos em escolas públicas e comprar um cartão do metrô. Mas muitos executivos do setor financeiro de Nova York que teriam seus salários limitados são homens (e homens que não gostam de mudanças) cujas identidades estão entrelaçadas ao fato de viverem de uma maneira específica em certo bairro a oeste da Terceira Avenida: uma vida de escolas particulares, casas de veraneio e jantares beneficentes que só um salário de sete dígitos é capaz de cobrir.

Poucos lamentam o destino desse pessoal, principalmente depois que o colapso das instituições que eles comandam acarretou incontáveis problemas financeiros. Mas em Nova York, onde um novo estudo do Centro por um Futuro Urbano, grupo de pesquisa sem fins lucrativos de Manhattan, estimou que são necessários US$ 123.322 para desfrutar da mesma vida de classe média de alguém que ganha US$ 50 mil em Houston, livrar-se de contas caras pode ser difícil.

Portanto, considere os números, se não por simpatia, por diversão.

A matemática fria e dura pode ser cruel.

Assim como os impostos. Se uma pessoa é casada e tem dois filhos, as deduções em um salário de US$ 500 mil são: US$ 2.645 de impostos federais; US$ 596 de Seguro Social, US$ 139 de Medicare [assistência médica]; US$ 682 de impostos estaduais; e US$ 372 de impostos municipais, reduzindo o salário semanal para US$ 5.180, ou cerca de US$ 269 mil por ano, diz Martin Cohen, contador de Manhattan.

Agora vamos às despesas com moradia.

Barbara Corcoran, executiva do setor imobiliário, diz que as famílias mais abastadas saem de férias pelo menos duas vezes por ano: uma viagem de inverno para algum lugar ensolarado e uma viagem na primavera para esquiar.

Custo mínimo total: US$ 16 mil.

Um apartamento modesto de três dormitórios, diz ela, comprado por US$
1,5 milhão, longe de ser o mais caro do mercado, tem uma hipoteca mensal de cerca de US$ 8.000 e uma taxa de manutenção da cooperativa de US$ 8.000 por mês. Custo total: US$ 192 mil. Uma casa de veraneio em Southampton de US$ 4 milhões, que também não é a mais cara do mercado, tem uma hipoteca anual de US$ 240 mil.

Muitos altos executivos têm carros com motoristas. O salário de um chofer varia de US$ 75 mil a US$ 125 mil por ano. A quantia mais alta é para ex-policiais que também servem como guarda-costas, disse um motorista de limusine que preferiu manter-se anônimo para não expor seus clientes da alta sociedade.

"Alguns querem que os motoristas andem armados", disse o chofer. "Você contrata um policial e ganha um motorista". O custo da garagem para um carro desses é de cerca de US$ 700 por mês.

Um personal trainer que cobra US$ 80 por hora, três vezes por semana, sai por cerca de US$ 12 mil por ano.

O exercício físico compensa quando a mulher precisa usar um vestido formal para um jantar beneficente de gala. "Para ir a essas festas", diz David Patrick Columbia, editor do New York Social Diary (newyorksocialdiary.com), "uma mulher pode gastar de US$ 10 a US$ 15 mil dólares num vestido. Se ela for a dois ou três jantares em um ano, não vai usar o mesmo vestido."

Custo total para três vestidos: cerca de US$ 35 mil.

Nem todos os executivos dos bancos têm filhos em idade escolar, mas para os que têm, isso pode sair caro. Além de pagar pelo ensino, "não dá para ir adiante numa escola particular sem um tutor", diz Sandy Bass, editora do Private School Insider, jornal que cobre as escolas particulares na área da cidade de Nova York. Uma hora de aula particular uma vez por semana custa US$ 125. "Essa é a mais barata", diz ela. "As mais caras custam US$ 150 a 175". Professores para preparar para os exames universitários custam cerca de US$ 250 por hora. Custo total por 30 semanas com aulas particulares regulares: US$3.750.

Dois filhos em escola particular: US$ 64 mil.

Babá: US$ 45 mil.

Bass, cujo marido trabalha como contador para muitos clientes ricos, disse que gasta cerca de US$ 425 fazendo supermercado para a família a cada dez dias. Custo anual: cerca de US$ 15 mil.

Mais? Restaurantes. Lavagem a seco. Cada terno Brooks Brothers custa cerca de US$ 1.000. Se você dirige um banco, não pode parecer um desleixado.

O custo total até agora, que não incluiu muitas coisas como hotéis de cachorro quando a família viaja, acampamentos de verão, spas e outros tratamentos de beleza para os humanos da família, doações para organizações beneficentes e "frozen hot chocolate" [famosa sobremesa de chocolate] da Serendipity, chega a US$ 790.750, e seria necessário um salário de US$ 1,6 milhão para compensar os impostos. Acrescente ou retire alguns milhares de dólares.

Esse dinheiro paga um diretor executivo cobiçado pelos acionistas, um homem bem de vida com um andar confiante, algo que pode se perder se esse executivo tiver de entrar num trem lotado toda manhã em Journal Square (Nova Jersey), com seu jornal aberto atrás da cabeça de um estranho?

Com certeza esse homem não se sentiria ele mesmo no trem, diz Candace Bushnell, autora de "Sex and the City" e outros livros que retratam a vida dos mais abastados de Nova York.

"As pessoas entendem de uma forma inerente que, se estão dispostas a crescer em qualquer cultura corporativa em que estejam envolvidas, precisam ter os acessórios que definem essa cultura", disse. "Então, se você está numa cultura em que gastar muito dinheiro é um sinal de sucesso, é o como voltar para a pressão social do colegial. O jeito é se enquadrar".

A propósito, o "frozen hot chocolate" custa US$ 8,50. Eloise De Vylder

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