UOL Notícias Internacional
 

10/02/2009

Roger Cohen: a opção chinesa do Irã

The New York Times
Roger Cohen
Em Teerã (Irã)
O que o Irã mais teme é uma figura como Gorbachov, alguém de dentro do regime que, em nome de um acordo com o Ocidente, acabe vendendo a revolução e destruindo sua edificação.

A disputa antes da eleição presidencial de 12 de junho - a mais importante do mundo desde a dos Estados Unidos - deve ser vista por este prisma. O debate central é: será que o Irã conseguiria uma reforma ao estilo da chinesa, onde sua hierarquia islâmica resistiria em meio às mudanças, ou uma abertura para os Estados Unidos resultaria em uma implosão como a soviética?

Os cantos "Morte à América" nos comícios, ao lado do rotineiro "Morte a Israel", parecem ser uma resposta suficiente. O regime se agarrará ao jogo que conhece. Mas o Irã raramente é o que parece. Ele não mede esforços para mascarar sua sofisticação.

Jahangir Amirhusseini, um advogado veterano que já foi preso pelos mulás, me disse: "Para criar confiança, dissimulação é necessária". Ele falava sério. O que ele quis dizer é que a política envolve manobras hábeis; mas os Estados Unidos têm preferido a marreta.

Ela provou ser um péssimo instrumento. A ascensão iraniana coincidiu com a dificuldade americana. Sob o presidente Barack Obama, a política americana em relação ao Irã deve se basear em convencer o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo, de que o preço do engajamento não é a extinção.

Esta é a chave para a teocracia persa sobre a qual Khamenei preside.

Mas seu governo está longe de absoluto. Khamenei é o maior acionista minoritário (apesar daquele com ações preferenciais dadas por Deus) em um sistema onde competem repressão e liberdades arduamente conquistadas, assim como autoritarismo e democracia.

O que nos leva à eleição-chave de junho e ao ex-presidente Mohammad Khatami, o reformista antes visto como o Gorbachov-em-espera do Irã. Não era. Sua presidência de 1997 a 2005 deixou muitos iranianos desapontados. Diante da brecha, ele recuou. Os protestos estudantis em 1999 e 2003 morreram antes de ganharem força.

Ainda assim, a reforma econômica liberalizadora e o diálogo foram marcas de Khatami tanto quanto a de seu sucessor, Mahmoud Ahmadinejad, foi a bombástica má administração. À medida que a queda do preço do petróleo se soma ao custo da dissipação em prol dos amigos por Ahmadinejad e os iranianos se perguntam onde raios foram parar os bilhões, o anúncio no domingo da candidatura de Khatami agitou a disputa.

Khatami pôs fim a dias de rumores ao dizer que "a exigência histórica (do Irã) por liberdade, independência e justiça" o obrigavam a concorrer. Foi significativo que ele tenha colocado liberdade, uma promessa não cumprida da revolução que derrubou o xá, em primeiro lugar.

Seu principal adversário será o detentor do cargo, Ahmadinejad, que continua sendo o favorito. O sucesso do presidente em projetar o Irã como a voz dos destituídos do mundo, o modo como promoveu o rápido avanço do programa nuclear e seu toque popular impressionaram Khamenei.

Mas a impetuosidade que tornou Ahmadinejad o Objeto Voador Não Identificado da política global deu ao guardião da revolução - e muitos milhões de eleitores - motivo para pausa.

Uma teoria diz que Ahmadinejad defenderia uma glasnost iraniana em resposta a Obama, porque ele acredita que não seria a teocracia iraniana que ruiria, mas sim os Estados Unidos! Ele tem sido influenciado pelos sinais de que o capitalismo pode seguir o comunismo ao cesto de lixo da história. Mas não estou convencido de que ele deixará de ser um linha dura.

O maior interesse do Ocidente está em impedir outro mandato de Ahmadinejad. Dado que Ahmadinejad prospera com o confronto, é isso o que Obama deve evitar. O recente tom condescendente do vice-presidente Joe Biden -"Continuem em seu curso atual e haverá pressão e isolamento" - está totalmente errado.

Mostafa Tajzadeh, o ex-vice-ministro do Interior de Khatami, me disse: "Bush contribuiu muito para prejudicar o movimento de reforma. Nós apreciaríamos um acalmar imediato do clima por parte de Obama, com a opção militar deixada de lado".

Kazem Jalali, o porta-voz do comitê parlamentar de segurança nacional, disse que os Estados Unidos deveriam "parar de olhar com menosprezo do alto de um ponto de vista dominador".

Antes da eleição, Obama deve declarar que os Estados Unidos não buscam uma mudança de regime. Ele também deve esclarecer que os Estados Unidos desejam um papel de "mediador honesto" no conflito entre israelenses e palestinos para suplantar a política "Israel não faz nada errado" de Bush.

Essas medidas ajudariam Khatami ou talvez um conservador pragmático, como o prefeito de Teerã, Mohammad Baqer Ghalibaf, ao minar o discurso de Ahmadinejad. Um presidente moderado não resolveria a questão nuclear (Khamenei se inclina para a intransigência), mas ajudaria.

Eu espero que Obama possa visitar a residência do embaixador britânico aqui para ver a mesa do jantar de 30 de novembro de 1943 (o 69º aniversário de Churchill), com o líder britânico, Roosevelt e Stalin. Nenhum iraniano estava entre as autoridades presentes que analisavam o destino de um mundo devastado pela guerra.

A Revolução Iraniana, que completa 30 anos, tem a independência em seu coração. O lançamento do satélite, assim como o programa nuclear, envolve orgulho nacional. Para abrir o sistema, sem derrubá-lo, o que deve ser a meta dos Estados Unidos, será necessária indulgência engenhosa a este orgulho, não um apontar de dedo. O momento da mudança no qual os jovens iranianos podem acreditar ocorrerá bem antes de 12 de junho.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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