UOL Notícias Internacional
 

11/02/2009

Abertura diplomática do Irã para Washington pode complicar relações entre EUA e Israel

The New York Times
Nazila Fathi e David E. Sanger
Em Teerã (Irã)
Na terça-feira (10/02), o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad recebeu bem o convite do presidente Barack Obama, repetido com frequência, para conversações diretas entre Irã e Estados Unidos. O fato indica o início de um drama de guerra e paz, há muito adiado, que poderia ajudar a definir os planos do governo Obama para reformular a abordagem da diplomacia pelos Estados Unidos.

Mas isso também traz a possibilidade de novas tensões com Israel, que há menos de um ano buscou ajuda norte-americana ao preparar-se para atacar a principal instalação nuclear do Irã e que deverá dar uma guinada ainda mais à direita após as eleições parlamentares da terça-feira. E Obama terá que decidir se dará continuidade a um grande programa clandestino contra as ambições nucleares do Irã, mesmo neste momento em que começa a recorrer à diplomacia.

Ahmadinejad prometeu que se os Estados Unidos estiverem de fato falando sério a respeito da modificação das relações entre os dois países, o Irã estará pronto a responder da mesma forma. "Está claro que a mudança deve ser fundamental, e não tática, e o nosso povo recebe bem mudanças reais", afirmou Ahmadinejad. "A nossa nação está pronta para manter conversações baseadas no respeito mútuo e em um clima justo".

Os comentários de Ahmadinejad foram feitos em um discurso televisado para uma multidão que celebrava o 30º aniversário da Revolução Islâmica em 1979, que depôs o xá Mohammed Reza Pahlavi. Isso encerrou a relação próxima entre Washington e Teerã, e gerou décadas de confrontação que culminaram na declaração de George W. Bush, em 2002, descrevendo o Irã como parte de um "eixo do mal".

No entanto, três semanas atrás, Obama prometeu no seu discurso de posse um novo relacionamento com nações dispostas a "descerrar" os punhos, uma oferta que ele repetiu na sua entrevista coletiva à imprensa na noite da última segunda-feira.

É muito cedo para saber exatamente como interpretar a resposta de Ahmadinejad. A oferta de conversações foi acompanhada de um ataque verbal a Bush, no qual o iraniano pediu que o ex-presidente dos Estados Unidos seja "julgado e punido" pelas suas politicas e ações no Oriente Médio e na região do Golfo Pérsico.

Não ficou também muito claro quem está administrando a política externa iraniana, e há bons motivos para questionar se o aguerrido presidente do país será capaz de superar a má administração da economia para que possa sobreviver às eleições de 12 de janeiro.

Mas os analistas observam que, apesar de todas as palavras duras, Ahmadinejad mandou vários sinais surpreendentemente positivos aos Estados Unidos nos últimos anos. Ele enviou uma carta a Bush em 2006 e uma a Obama cumprimentando-o pela vitória eleitoral. Ahmadinejad viajou quatro vezes a Nova York desde que assumiu a presidência, para participar de reuniões da Organização das Nações Unidas (ONU).

"De maneira geral, o Irã é favorável aos laços com os Estados Unidos porque a queda do preço do petróleo atingiu drasticamente a economia do país", diz Saeed Leylaz, economista e analista político em Teerã. "Os Estados Unidos necessitam dar o primeiro grande passo, caso contrário o Irã não poderá ir além do ponto em que já chegou", afirma Leylaz. Mas ele adverte que os Estados Unidos devem manter contatos diretos apenas com o aiatolá Ali Khamenei, o supremo líder religioso do Irã.

Não há dúvida de que há uma nova dinâmica em ação. Uma dinâmica que parece destinada a tornar-se mais complicada após a divulgação do resultado da eleição de terça-feira em Israel. Caso o governo israelense que emergir mostrar-se anda mais determinado a acabar com o programa nuclear iraniano por qualquer meio necessário, Obama poderá ver-se em uma situação na qual estará tentando negociar com um dos mais determinados adversários dos Estados Unidos, e, ao mesmo tempo, contendo um dos seus aliados mais próximos.

"Posso imaginar um cenário no qual esta nova combinação de protagonistas conduzirá às primeiras conversações reais com o Irã em três décadas", disse na semana passada um dos principais assessores de Obama nesta área. Ele não quis falar oficialmente porque o novo governo ainda não nomeou a sua equipe, e tampouco a sua estratégia. "E posso traçar um outro cenário no qual a primeira grande crise externa da presidência Obama seja de fato um confronto duro, seja devido a um ataque israelense, seja pelo fato de nós não permitirmos que Israel ataque".

Em público, Obama só fala sobre o primeiro cenário. Na noite da segunda-feira, ele falou sobre "identificar áreas nas quais possamos manter um diálogo construtivo, e nas quais possamos conversar diretamente com eles", e disse que está procurando "aberturas diplomáticas". Mas ele advertiu que "muita desconfiança acumulou-se nos últimos anos", e que após 30 anos de profundo congelamento de relações, uma abertura "não ocorrerá da noite para o dia".

A fim de proteger o seu flanco à direita, Obama acrescentou rapidamente que o Irã precisa saber que "nós consideramos o financiamento de organizações terroristas inaceitável" e que "um Irã nuclear poderia desencadear uma corrida de armas nucleares na região, o que poderia ser profundamente desestabilizador".

Mas, curiosamente, ele não repetiu a advertência feita repetidamente durante a campanha, de que jamais permitiria que o Irã obtivesse armas nucleares, ou sequer combustível nuclear para fabricar uma bomba.

O que ninguém sabe é se isso dará resultados, ou se tudo emperrará na questão referente à corrida iraniana para o enriquecimento de urânio, enquanto os dois presidentes trocam acenos. Mas o fato deverá deixar o novo governo de Israel nervoso, e o relógio em Jerusalém está batendo bem mais rápido do que o de Washington no que se refere à questão iraniana.

Conforme o "New York Times" anunciou no mês passado, há pouco menos de um ano o governo israelense foi até Bush pedindo bombas destruidoras de bunkers, capacidade de reabastecimento aéreo e permissão para sobrevoar o Iraque com o objetivo de atacar a principal usina de enriquecimento de urânio do Irã, em Natanz. Bush - que elevou as ações militares preventivas ao patamar de doutrina, e declarou que jamais permitiria que o Irã desenvolvesse a capacidade de construir uma arma nuclear - disse não aos israelenses.

Bush disse ao primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, que está nos seus últimos dias no cargo, que aguardasse, e que desse tempo para que uma nova iniciativa clandestina norte-americana para incapacitar a instalação de Natanz surtisse efeito. Relutantemente, os israelenses concordaram, e quando o governo Bush chegou ao fim no mês passado, ainda não se sabia se Olmert pretendia de fato atacar ou se estava blefando, em uma tentativa de obrigar os Estados Unidos a lidar com o problema.

Agora a história se repete, mas desta vez com novos protagonistas.
Durante o último fim de semana, o vice-presidente Joe Biden fez uma advertência que Obama evitou fazer na noite da segunda-feira: se o Irã mantiver o seu curso atual, as sanções serão intensificadas. Nas entrelinhas da eleição israelense, a mensagem foi ainda mais evidente: em graus variados, todos os candidatos deixaram claro que pretendem atacar não só o Hamas, mas também os seus patrocinadores iranianos.

E no Irã a corrida presidencial foi energizada pelo anúncio no final de semana de que o ex-presidente Mohammad Khatami, o reformista que jamais contou com o poder ou a disposição para promover muitas reformas, quer recuperar o seu antigo emprego. Supostamente isso é um alívio para Washington, que deseja desesperadamente que Ahmadinejad receba uma aposentadoria prematura e permanente, e que com a a saída dele acabem as declarações sobre a destruição de Israel e o inevitável declínio dos Estados Unidos.

Mas foi sob Khatami, o reformista, que a expansão das ambições nucleares do Irã se expandiram. Se a última Estimativa Nacional de Inteligência a respeito das ambições nucleares do Irã estiver correta, o impulso para a o desenvolvimento do projeto de armamentos, e a suspensão dessa iniciativa em 2003, ocorreram no governo Khatami. O Irã alega que o seu programa nuclear é apenas para geração de energia, mas Israel e muitos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, dizem que o programa é apenas uma cobertura para as tentativas de fabricação de uma bomba.

A tarefa de Obama nos próximos meses será demonstrar que ele é capaz de simultaneamente fazer progressos com os iranianos e ganhar algum tempo junto aos israelenses. Isso exigirá algumas decisões difíceis. A primeira será determinar se os Estados Unidos manterão a sua insistência de que toda a infraestrutura nuclear do Irã seja desmantelada até a última centrífuga.

Alguns dos assessores de Obama admitem que é quase inconcebível que os iranianos se disponham a abrir de mão de tudo o que necessitam para produzir uma arma nuclear. E é difícil imaginar que os israelenses aceitam algo menos do que isso.

Tradução: UOL

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