UOL Notícias Internacional
 

13/02/2009

Ex-funcionários da GM tentam reiniciar suas vidas

The New York Times
Steven Greenhouse
Em Janesville, Wisconsin
Kevin Corkhill cresceu em uma época e lugar em que a manufatura era tudo. Mas desde que foi demitido da imensa fábrica da General Motors daqui, Corkhill parece sem saber o que o futuro lhe reserva.

Ele ainda não decidiu se tentará uma transferência para outra fábrica da GM, mudar de ocupação ou retornar à escola. Ao visitar o (sindicato) United Automobile Workers, Corkhill parou diante de um mostruário antiquado para mostrar ao seu filho de 8 anos uma foto em preto-e-branco no interior - era o avô de Corkhill carregando um projétil de artilharia feito na fábrica durante a Segunda Guerra Mundial.

"Meu avô trabalhou aqui, meu pai trabalhou aqui", ele disse. "Uma coisa que meu pai me disse é que você tem que trabalhar arduamente para tornar as coisas melhores para a geração seguinte, mas agora temo que não conseguiremos fazer mais isso."

Ele virou o rosto para esconder suas lágrimas de seu filho.

Nesta cidade, a perda da fábrica de 90 anos da GM e seus 2.500 empregos criou uma mistura de raiva, confusão, preocupação e dor, ressaltando como a recessão está aumentando a ansiedade entre os trabalhadores de todo o país. Somado ao fechamento de vários fornecedores próximos, o encerramento da atividade na fábrica da GM representou a perda de 4 mil empregos nesta cidade de 64 mil habitantes.

O contrato coletivo do sindicato deu a estes trabalhadores uma ajuda maior do que outros. Com poucos empregadores locais contratando, mais de mil dos demitidos voltaram à escola, buscando reiniciar suas vidas estudando soldagem, enfermagem, culinária e outros campos, graças, em parte, à bolsa de estudos oferecida pelo contrato.

O contrato também fornece um ajuda financeira substancial: 48 semanas de auxílio-desemprego equivalente a três quartos do salário e seguro-saúde. Mas quando ela acabar, será difícil para eles encontrarem empregos que paguem próximo dos US$ 28 por hora que ganhavam em média para montar Chevy Tahoes, Suburbans e GMC Yukons.

"Nós descobrimos que 76% dos demitidos que nos procuram ganhavam US$ 20 ou mais por hora", disse Robert T. Borremans, diretor-executivo da Southwest Wisconsin Workforce Development Board, que ajuda os trabalhadores demitidos com cursos de requalificação e a encontrarem empregos. "Não há muitos empregos de US$ 20 por hora na área. Se as pessoas precisam de tanto para manter seu estilo de vida, então precisarão procurar em outro lugar."

A esperança é de que as coisas melhorem daqui um ano. "O que me surpreende é quão resistentes e otimistas muitas pessoas são", disse Borremans, cuja agência ocupa quase todo um mercado Kmart fechado. "Elas estão dispostas a trabalhar e reconstruir."

Muitas estão mudando de área. Kimberly Pope, após 30 anos na GM, onde trabalhava como eletricista, se inscreveu em um curso técnico em radiologia. Bill Truman, um caminhoneiro demitido de uma fornecedora da GM, está planejando estudar logística e gestão de depósitos. Diane Kudrna, que estava entre os 800 funcionários de uma recém-fechada fábrica da Lear daqui, que fabricava assentos para utilitários esportivos, se tornou uma assistente de veterinário ganhando US$ 12,50 por hora.

E Robert Phelps, após 13 anos na Lear, entrou em um programa de culinária de dois anos na Blackhawk Technical College, disposto a ir atrás do há muito adiado sonho de abrir seu próprio restaurante ou serviço de catering. Voltar para a escola se tornou financeiramente possível, ele disse, apenas porque sua esposa arrumou recentemente um emprego como secretária do distrito escolar.

"As coisas acontecem por um motivo", disse Phelps. "Eu sinto fortemente que ocorreu uma intervenção aqui. O fechamento da fábrica abriu muitas portas para mim."

Foram 1.800 matrículas a mais na Blackhawk Tech em relação ao ano passado, um aumento de 23%.

"Entre um terço e metade dos demitidos nos procura", disse Eric Larson, o presidente da escola. "Eles procuram por cursos de curta duração que os levarão a empregos melhor remunerados. Minha preocupação é: 'Haverá empregos disponíveis quando estiverem requalificados?'"

O emprego de John Beckord é ajudar a assegurar que existam empregos. Como presidente da Forward Janesville, uma agência de desenvolvimento econômico, ele está otimista, divulgando que Janesville está localizada de forma central entre Milwaukee, Chicago e Minneapolis, além de contar com uma força de trabalho esforçada e com boa formação. Janesville acabou de gastar US$ 72 milhões reformando seus dois colégios e há três faculdades estaduais em um raio de 16 quilômetros.

"Há um governo local interessado em oferecer o tapete vermelho para as empresas, não burocracia", disse Beckord.

Mas isso pode não ser suficiente para atrair empresas em uma recessão. Por esse motivo, muitos trabalhadores com 20 ou mais anos de GM estão tentando uma transferência para outras fábricas da GM e assim chegar a 30 anos, o que lhes daria direito a uma pensão plena de US$ 36 mil por ano. O problema é que a GM em dificuldades está aceitando poucas transferências.

Os trabalhadores temem que sua generosa rede de segurança provará ser inadequada caso a recessão seja longa e profunda. O que acontecerá com suas famílias se não conseguirem encontrar novos empregos antes de seus benefícios se esgotarem?

Alguns rezam para que antes de suas 48 semanas de auxílio-desemprego se esgotarem, a GM reabra a fábrica, permitindo que retornem aos seus empregos.

Outros acham que isso é uma ilusão; Borremans a rotulou como "fuga da realidade".

Corkhill, o neto do veterano da Segunda Guerra Mundial, esperava uma transferência para outra fábrica, mas está pessimista em relação às suas chances. Para dar conta das despesas, ele cancelou sua linha de telefone fixo e a TV por assinatura.

"Eu estou muito furioso com todo o quadro econômico", ele disse. O sentimento era bem diferente em fevereiro passado, quando um candidato chamado Barack Obama fez campanha na fábrica, anunciando um plano de criação de empregos no valor de US$ 150 bilhões e dizendo que com algum ajuste e ajuda federal, "esta fábrica estará aqui por mais 100 anos".

Mas em seguida os preços do petróleo tiveram forte alta, a economia definhou e uma queda de 40% nas vendas de utilitários esportivos selou o destino da fábrica.

Pope, a ex-eletricista da GM - orgulhosa por ter enviado seus dois filhos para a Universidade Marquette e para a Universidade de Wisconsin - agora teme que "não haverá oportunidades para pessoas como eu terem uma renda de classe média, por causa da erosão da base industrial. Os trabalhos que pagam US$ 25, US$ 30 por hora, onde é possível ajudar seus filhos a cursarem uma faculdade sem se a preocupação com dinheiro, estes empregos estão se tornando cada vez mais escassos. A GM me deu uma oportunidade maravilhosa, assim como aos meus filhos, e não vejo mais oportunidades como estas por aí".

Este é o motivo para Andy Richardson, presidente do sindicato UAW local e um homem com 24 anos de GM, estar torcendo para uma transferência para outra fábrica. Ele planeja se mudar sem sua família - sua esposa tem um bom emprego, suas duas filhas são estrelas esportivas e ele acha que vender a casa seria impossível.

"Eu quero poder voltar nos fins de semana ou pelo menos em fins de semana alternados", ele disse. "Eu sentirei falta da minha família."

Ele espera ser transferido para um local a não mais de cinco horas de distância, talvez para Fort Wayne, Indiana, ou para Lansing, Michigan. Ele também tentou esconder suas lágrimas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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