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13/02/2009

Prefeito da Cidade do México oferece Viagra para homens pobres com mais de 60 anos

The New York Times
Marc Lacey
Na Cidade do México
Exibindo um sorriso de garoto, o septuagenário grisalho se remexia nervosamente. Sua voz se transformou em um sussurro. Um tom avermelhado envolveu seu rosto. Tudo isso porque lhe foi perguntado como o mais recente programa social oferecido pela prefeitura da Cidade do México estava afetando sua vida doméstica.

"As coisas mudaram", finalmente confessou Angel Posadas Sandoval, 74 anos, sem entrar em detalhes específicos, mas, todavia, deixando tudo bem claro.

Ele falava indiretamente sobre o Viagra gratuito que a prefeitura está distribuindo aos homens pobres com 60 anos ou mais.

Com a proximidade das eleições em julho, o prefeito Marcelo Ebrard foi bem criativo em suas tentativas de tornar a vida melhor para as pessoas nesta enorme metrópole, que está sempre congestionada, tomada pela poluição, repleta de criminosos e sofrendo com a crise financeira global.

O prefeito despeja areia nas piscinas públicas para criar praias artificiais. Ele proíbe carros nas principais avenidas aos domingos e as transforma em amplas ciclovias. O maior rinque de patinação do mundo, um que faz o trecho de gelo do Rockefeller Center parecer insignificante, foi montado na Zocalo, a praça central da Cidade do México, pelo segundo ano consecutivo durante o período do Natal.

Neste fim de semana, para o Dia dos Namorados, a prefeitura está patrocinando uma tentativa de quebrar o recorde mundial de pessoas se beijando e aumentar a conscientização sobre a violência doméstica. "Besame Mucho", ou "Me beije muito", foi recentemente adotado como slogan da cidade pelas autoridades de turismo, e Ebrard vai presidir o evento, apesar de seus assessores não saberem se ele beijará publicamente sua esposa, uma ex-atriz de novelas.

Mas o Viagra gratuito é o que fez Posadas, um aposentado, pigarrear de embaraço em uma tarde recente. Após ler o anúncio a respeito do gesto mais recente de Ebrard, ele reuniu a coragem para expor o assunto de sua disfunção erétil em um posto de saúde da prefeitura. Após passar por um exame médico profundo e receber uma aula sobre os riscos das doenças sexualmente transmissíveis, Posadas se tornou recentemente um dos primeiros homens na cidade a receber um punhado de pílulas pagas pela prefeitura.

Aparentemente elas funcionaram. "Agora eu posso satisfazer minha esposa", disse o pai de dois e avô de seis, que reconheceu que sua vida sexual tinha diminuído muito nos últimos anos.

A iniciativa pode estar mais interessada em política do que qualquer outra coisa, com as eleições nacionais se aproximando em julho e candidatos por todo o México dando início às suas campanhas.

Para aumentar as chances de seu Partido da Revolução Democrática (PRD) de esquerda e promover seu próprio sonho de se tornar o presidente do país em 2012, Ebrard buscou legalizar o aborto e o casamento civil gay na capital e reprimir os vendedores ambulantes ilegais e taxistas sem licença, que há muito estavam associados com tumultos e criminalidade. Seus planos para ampliar a rede de metrô e ônibus são ambiciosos e populares.

Ao anunciar seu programa de disfunção erétil em novembro, Ebrard, 49 anos, o retratou como uma forma de devolver sorrisos aos rostos daqueles que chegaram à terceira idade.

"Todo o mundo tem o direito de ser feliz", disse o prefeito, notando que muitos dos idosos mais pobres não se qualificavam aos planos de saúde pagos por empregadores e foram abandonados por suas famílias. "Eles não possuem atendimento médico e uma sociedade que não cuida de seus idosos não tem dignidade."

Cerca da metade dos homens mexicanos com mais de 40 anos experimentam dificuldades para obter ereção, disse a doutora. Iran Roldan, uma especialista em geriatria que ajuda a dirigir o novo programa no Departamento de Saúde Pública da Cidade do México. Mas este não é um assunto que muitos homens se sentem à vontade para conversar a respeito.

Atrair os homens para clínicas públicas com a promessa de medicamento erétil gratuito, disse Roldan, pode ajudá-los a obter tratamento para outros problemas de saúde relacionados, como diabete, hipertensão, obesidade e depressão. "Este é um problema de saúde pública", ela disse.

Até o momento, não é grande o número de pessoas à procura do Viagra, Levitra ou Cialis gratuitos, que são os três medicamentos que estão sendo oferecidos. Menos de 100 pedidos foram feitos nas clínicas de saúde e apenas cerca de uma dúzia de homens, cujas disfunções eréteis foram diagnosticadas, começaram a receber as pílulas, disseram as autoridades de saúde. A idade deles varia de 60 e poucos anos até 82.

Ainda assim, o novo programa conseguiu provocar um debate animado sobre o assunto, que antes era considerado tabu: sexo entre idosos.

Um dos possíveis adversários de Ebrard para a presidência, Fidel Herrera, 59 anos, o governador do Estado de Veracruz pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), considerou ridícula a distribuição de Viagra. "Qual o sentido de encorajar idosos a praticarem sexo?" ele perguntou em uma recente entrevista. "Existe uma coisa chamada natureza. Não se pode brincar de Deus."

Mas outros discordam dessa posição.

"Ninguém dá atenção para nós", disse Bernarda Valenzuela, 77 anos, cujo marido morreu em um acidente anos atrás. "Os filhos que cuidam de seus pais só se preocupam em lhes dar comida e trocar suas roupas, como se fôssemos crianças. Eles esquecem que sentimos muitas coisas, mesmo coisas sexuais. Nós não somos feitos de madeira."

Mas Pepe Castro, 65 anos, um barbeiro que tinge seu cabelo de preto, acha que o dinheiro gasto com as pílulas poderia ser gasto em assuntos mais urgentes. "Há outras coisas mais importantes", ele disse. "Todo mundo quer sexo, independente da idade, mas a prefeitura devia estar pagando por medicamentos para manter as pessoas vivas, não isso."

Quanto a Posadas, ele usou três pílulas e ainda lhe restam três da cota inicial. Em breve ele retornará à clínica para mais exames e, ele espera, mais pílulas.

Sua prótese no joelho ainda dói e seu colesterol está elevado. Mas fora isso, ele disse que se sente bem robusto. "Eu vou desfrutar por quanto tempo eu ainda tiver", ele disse, flexionando um pouco seus bíceps.

Antonio Betancourt contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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