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15/02/2009

O homenzinho dourado em um novo mundo azul

The New York Times
Patricia Leigh Brown
Em Culver City, Califórnia
De todas as situações incomuns em que um arquiteto poderia se encontrar, ser filmado para o segmento inicial da transmissão do Oscar deve ser uma das mais estranhas.

"Isto é surreal", disse o arquiteto de Nova York David Rockwell, que está estreando como estilista de produção na 81ª sessão dos prêmios da Academia de Cinema, enquanto a forte iluminação ressalta o brilho de vastos tecidos metálicos e organzas estendidos por esse estúdio improvisado no terreno da Sony Pictures. Mas lá estará ele, aparecendo na televisão entre a agitação da passarela vermelha e o início da cerimônia, no próximo domingo no Teatro Kodak.

Para a maioria das pessoas que assistem ao Oscar, a idéia de estilo é sinônimo de moda —as jóias pesadas de Bulgari ou Van Cleef & Arpels, Vera Wang versus Versace, ou qual decote de estrela está revelando um pouco demais para a televisão de alta definição.

No ano passado, com a menor audiência já registrada em um Oscar, Rockwell, que também projetou o luxuoso Teatro Kodak, está encarregado de nada menos que "redefinir o DNA do show", como ele diz. Juntamente com o produtor executivo Bill Condon (diretor de "Dreamgirls") e o veterano produtor Laurence Mark, Rockwell —o primeiro arquiteto a projetar o show— está recuando no tempo, no estilo Benjamin Button, para recapturar as raízes comunitárias do show, o ar de boate, com champanhe e diversão entre amigos.

Mesmo tendo como apresentador o Homem Mais Sexy da revista "People", Hugh Jackman, planejar a cerimônia é uma tarefa complexa e desafiadora em que a natureza híbrida da fera —um programa de televisão que comemora o cinema dentro de um teatro— há muito tempo tem uma qualidade perturbadora de "As Três Faces de Eva". A duração do show, descrita por Mark como "síndrome de bumbum dolorido", muitas vezes é acompanhada de monotonia —aquelas palavras terríveis: "Eu preciso agradecer a muitas pessoas".

"O Oscar é um dos grandes rituais mundiais", disse Rockwell, 52 anos, que passou a maior parte das últimas semanas correndo entre o edifício David Lean, no terreno da Sony em Culver City, e o Teatro Kodak, em Hollywood. "É uma comemoração. Queremos fazer que seja menos um pacote pré-gravado e mais um show ao vivo. De certa maneira, os Oscar são como um teatro comunitário com esteróides incríveis."

Teatro é uma grande parte da reforma genética de Rockwell. (Sua mãe foi dançarina e coreógrafa de "vaudeville".) Um esperto adivinhador do gosto popular, ele é mais conhecido por ambientes "imersivos" -(sua palavra favorita) como o cassino Mohegan Sun em Uncasville, Connecticut; os interiores cristalinos e minimalistas do W Hotel; e uma série de Nobus, em que árvores e seixos de rio lançaram uma nova era de restaurantes sofisticados.

Muitos projetos de Rockwell têm narrativas embutidas: os espaços públicos do Terminal 5 do Aeroporto Internacional Kennedy, que abriga a JetBlue Airways, foram inspirados na "dança de Nova York", transformada em forma física com a ajuda de Jerry Mitchell, um coreógrafo e colaborador frequente.

Enquanto muitos arquitetos adoram a permanência —talvez para alcançar a imortalidade—, Rockwell adota o efêmero, especialmente o poder transformador de uma noite no teatro. Ele foi o cenógrafo de "Hairspray", "Dirty Rotten Scoundrels", "The Rocky Horror Show" e outros espetáculos da Broadway.

Fica tão à vontade analisando o brilho da cortina de 92 mil cristais Swarovski que emoldura o palco do Oscar quanto falando com eloquência sobre a Piazza del Campidoglio de Michelangelo em Roma, cujo pavimento será reencarnado com padrões de luz coloridos no piso do Oscar (Brangelina, conheça Michelangelo).

O Oscar deu a Rockwell, um forasteiro em Hollywood que alega não possuir óculos escuros ("Sou um nova-iorquino", ele explicou. "Eu comprimo os olhos"), a oportunidade de reinventar o teatro que ele projetou. O Kodak, que foi inaugurado em 2001 como um lar especialmente criado para o Oscar (não dê atenção àquele shopping center atrás da cortina), é em si mesmo um conjunto que mistura a verticalidade de uma ópera com equipamentos tecnológicos feitos para a TV.

Este ano o esquema de cores predominante mudará do vermelho para um azul profundo, um tom inspirado em Joseph Urban, o prolífico cenarista de óperas e das Ziegfeld Follies. Rockwell também vai explorar alguns dos truques que ele mesmo projetou no Kodak. Candelabros de cristal afilados vão pairar sobre a platéia para dar a impressão de um clube noturno com teto baixo.

Para Condon, 53, que ganhou um Oscar por melhor roteiro adaptado com o filme de 1998 "Deuses e Monstros" e seu colega em "Dreamgirls" Mark, 59, a espontaneidade é o santo graal da noite do Oscar.

"Quando você vê os antigos shows, lembra daqueles momentos espontâneos", disse Condon, cujo interlúdio favorito ocorreu em 1999, quando o diretor e ator Alberto Benigni, de "A Vida é Bela", subiu de forma extravagante sobre as cadeiras para receber o prêmio. "Eles geralmente acontecem quando as pessoas se sentem soltas e vivas. Então você espera dar a essas pessoas a festa mais solta possível, para elas comemorarem."

"Em certo momento deixamos de ter uma experiência comunitária", ele acrescentou. "Tem sido mais para agradar à televisão."

Apesar de o visual do show ter sido muitas vezes rococó-déco, a primeira cerimônia do Oscar em 1929, no Blossom Room do Hotel Hollywood Roosevelt, foi um evento acolhedor e festivo, em que os convidados cearam abóbora com lagosta à Eugenie. Em 1953, quando o show foi transmitido pela primeira vez pela NBC, Bob Hope usou casaca, os astros se referiam uns aos outros como Sr. ou Sra. e não havia beijocas no ar.

Naquela era, "a maioria das estrelas de cinema não aparecia na TV, por isso era uma novidade", diz o historiador e crítico de cinema Leonard Maltin. Só os principais vencedores podiam fazer discursos —os demais faziam uma reverência e diziam "obrigado"— e o cenário consistia em vasos de buganvília, algumas colunas gregas e um Oscar em escala humana, empoleirado sobre um bolo de casamento falso.

Desde então, é claro, um estilo visual folheado a ouro evoluiu por conta própria, geralmente dominado por Oscars gigantescos no estilo Ilha de Páscoa. Entre as eras estiveram a Luís 14 (1967), Odisséia no Espaço moderna (2001) e constantes visões futuristas de art-déco de cinema, incluindo o show do ano passado, apresentado por Jon Stewart, em que os Oscars gigantes estavam dentro de cápsulas transparentes, parecendo o "orgasmatron" do filme de Woody Allen "O Dorminhoco", de 1973.

"Todo mundo envolvido no show está altamente consciente de que ele representa Hollywood para o mundo", disse Maltin. "Por isso precisa ser espetacular em algum sentido da palavra."

Ao pensar o show deste ano, os produtores visaram um ano excepcional —1969, quando o programa foi produzido, dirigido e coreografado pelo legendário diretor da Broadway Gower Champion, que se queixou de que os shows anteriores "sempre pareciam Tara". Seu cenário vanguardista apresentou uma passarela que se projetava sobre o público e elementos espelhados e cromados que sugeriam sutilmente a silhueta de uma cidade.

"É interessante como essa estética 'clean' da metade do século se manteve melhor do que os shows mais exagerados", disse Condon. (Nota para Condon: a imprensa malhou.) Champion, que morreu em 1980 e dirigiu produções na Broadway de "Hello, Dolly!" e "Bye Bye Birdie", entre outras, também fez a observação perspicaz de que o show do Oscar seria ótimo se não fosse "a distribuição desses prêmios idiotas".

Na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas obcecada pelo segredo, tentar obter detalhes sobre o próximo show é um pouco como ser o inimigo tentando decifrar os códigos navajo usados na Segunda Guerra Mundial. Mas isto está claro: o Oscar deste ano terá uma linha relacionada à feitura dos filmes e se inclinará muito para o teatro ao vivo, em vez de intermináveis trechos de filmes, com as apresentações dos prêmios quase peças shakespearianas dentro de uma peça.

Manter a atenção das estrelas é vital para um clima descontraído e espontâneo, dizem os produtores, todos estreantes no Oscar. "Conforme o show avança, as pessoas que perderam ou que estão com fome saem do teatro e figurantes ocupam seus lugares", disse Condon. É um segredinho sujo que milhões de espectadores desconhecem. "Isso tem um preço. David é um contador de histórias, além de um criador de ambientes. Ele entendeu a peça que estamos montando. Não é apenas espetáculo."

Embora os planos específicos estejam fortemente protegidos, as relações físicas entre a platéia e o palco, e das estrelas entre si, estão sendo radicalmente modificadas. A maior mudança envolve reimaginar alguns dos arranjos de assentos conforme o redesenho da paisagem cênica, incluindo uma nova passarela em projeção curvilínea.

A nova topografia permitirá mais trabalho de câmera interessante e entradas e saídas mais variadas e fluidas. "É a noite dos indicados e dos artistas, e David 'fisicalizou' essa idéia", disse Condon. "Não é colocar as pessoas em um teatro tradicional, onde você olha para a nuca de alguém."

Rockwell e Condon se encontraram no outono no Hotel Algonquin em Nova York e conversaram muito sobre a nova projeção do palco. Eles compartilham um sentido infantil de maravilhamento, a capacidade de dizer "Uau!" como se vissem a lua cheia pela primeira vez.

Rockwell começou o processo de projeto estudando "o motor físico do show", especialmente as transições entre segmentos. Ele notou que em muitas cerimônias os cenários eram "um mundo composto de elementos rígidos e estáticos" - por exemplo, 20 monumentais arcos art-déco entrelaçados. Este ano as mudanças de cenário e elementos acontecerão diante do público.

Além disso, a orquestra tinha "se tornado um fosso entre a platéia e o palco", disse Rockwell. Este ano os músicos vão ficar no palco, ampliando o que Mark chama de "experiência de festa comunitária".

Rockwell também usará o poder da sugestão, como fez Champion, em vez de imagens literais do período. Telas de LED atrás dos apresentadores vão permitir que a luz seja usada como uma sensação visual, filtrando-se através de cortinas teatrais, fileiras de bolas prateadas, tecidos e outros materiais.

Telas também aparecerão em lugares improváveis. Na apresentação da edição de filmes, por exemplo, as telas LED serão usadas de uma maneira cinética e arquitetônica. Dezenove delas, cada qual com a imagem de um filme diferente, vai "voar dimensionalmente no espaço", disse Rockwell, uma experiência que deverá sugerir "estar na mente de alguém que edita".

Rockwell esteve percorrendo freneticamente os armazéns de fabricação do cenário, lugares claramente sem glamour, com um odor quase asfixiante de solvente misturado com serragem. No escritório de Condon, ele desenhou loucamente enquanto a coreógrafa Fatima Robinson delineava sua visão para a melhor canção original. (Com muito sapateado.) Depois ele revelou para Condon a última maquete do palco, iluminada em azul. Ele resultou: "Uau! Meu Deus! Isto não parece um palco do Oscar!" (Foi um elogio.)

É claro que com o Oscar - ainda mais do que com o intervalo do Super Bowl e outras extravagâncias nacionais - todo mundo é um crítico. O público em casa vai gostar? Detestar? As estrelas estarão fascinadas ou olhando furtivamente para seus relógios Cartier?

Como muitas pessoas criativas, Rockwell tenta assumir uma visão cósmica. "O que dá a vida é fazer algo cuja resposta você não conhece antes de começar", ele disse.

(Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves)

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