UOL Notícias Internacional
 

16/02/2009

Estrangeiros desempregados fogem da crise em Dubai

The New York Times
Robert F. Worth*
Dubai, Emirados Árabes Unidos
Sofia, uma francesa de 34 anos, mudou-se para cá há um ano para trabalhar em propaganda. Bastante confiante no rápido crescimento econômico de Dubai, ela comprou um apartamento por quase US$ 300 mil, com um financiamento de 15 anos.

Agora, assim como muitos outros trabalhadores estrangeiros - que somam 90% da população daqui -, ela foi demitida e enfrenta a possibilidade de ser obrigada a deixar a cidade no Golfo Pérsico, ou algo pior.

"Tenho muito medo do que pode acontecer, porque eu comprei um imóvel aqui", disse Sofia, que pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado uma vez que ainda está procurando um novo emprego. "Se eu não puder pagar, disseram que posso ir parar na prisão por inadimplência".

Com a economia de Dubai em queda livre, os jornais informaram que mais de 3 mil carros estão parados no estacionamento do aeroporto de Dubai, abandonados por estrangeiros que fugiram endividados (e que de fato podem ser presos se não pagarem suas contas). Alguns teriam deixado seus cartões de crédito com limites estourados dentro dos veículos e bilhetes de desculpas fixados nos para-brisas.

O governo diz que o número real é bem menor. Mas as histórias contêm pelo menos um pouco de verdade: aqui, os desempregados perdem o visto de trabalho e precisam sair do país dentro de um mês. Isso consequentemente reduz o consumo, deixa imóveis vazios e diminui os preços no mercado imobiliário, causando uma espiral decrescente que deixou partes de Dubai - que já foi aclamada como a superpotência econômica do Oriente Médio - parecendo uma cidade fantasma.

Ninguém sabe qual é a situação real, apesar de estar claro que dezenas de milhares de pessoas foram embora, os preços do mercado imobiliário despencaram e muitos dos principais projetos de construção de Dubai foram suspensos ou cancelados. Mas como o governo se recusa a fornecer dados, os rumores tendem a crescer, prejudicando a confiança e enfraquecendo ainda mais a economia.

Em vez de caminhar em direção a uma maior transparência, os emirados parecem ter escolhido o sentido inverso. Um novo projeto de lei de imprensa transformaria os danos à reputação ou a economia do país em crime, sujeito a multas de até 1 milhão de dirhams (cerca de US$ 272 mil). Alguns dizem que o projeto já está surtindo um efeito desencorajador no noticiário sobre a crise.

No mês passado, jornais locais informaram que Dubai cancelava 1.500 vistos de trabalho por dia, citando autoridades anônimas do governo.
Questionado em relação ao número, Humaid Bin Dimas, assessor do Ministério do Trabalho de Dubai, disse que não confirmaria nem negaria a informação, e recusou-se a dizer mais que isso. Alguns dizem que o número real é bem mais alto.

"No momento, existe uma predisposição a acreditar no pior", disse Simon Williams, economista-chefe do banco HSBC em Dubai. "E a falta de informações torna difícil negar os rumores".

Algumas coisas estão claras: os preços do mercado imobiliário, que aumentaram dramaticamente durante a expansão de seis anos de Dubai, caíram 30% ou mais nos últimos dois ou três meses em algumas partes da cidade. Na semana passada, a agência de classificação financeira Moody's anunciou que poderia baixar as notas de seis das mais importantes companhias estatais de Dubai, citando uma deterioração das perspectivas econômicas. Além disso, muitos carros de luxo estão à venda, às vezes por preços 40% menores do que os de dois meses atrás, dizem as concessionárias. As ruas de Dubai, normalmente cheias de tráfego nessa época do ano, estão na maioria livres.

Alguns analistas dizem que a crise deve ter efeitos de longa duração na federação de emirados, onde Dubai exerce há tempos o papel do irmão mais novo rebelde em relação a Abu Dhabi, mais conservador e rico em petróleo. Autoridades de Dubai, engolindo seu orgulho, deixaram claro que aceitam ajuda financeira, mas até agora Abu Dhabi ofereceu assistência somente para seus próprios bancos.

"Por que Abu Dhabi está permitindo que seu vizinho tenha a reputação internacional arruinada, quando poderia resgatar os bancos de Dubai e restaurar a confiança?" pergunta Christopher M. Davidson, que previu a crise atual em "Dubai: The Vulnerability of Success" ["Dubai: A Vulnerabilidade do Sucesso"], livro publicado no ano passado. "Talvez o plano seja centralizar os EAU (Emirados Árabes Unidos)" sob o controle de Abu Dhabi, acredita, numa manobra que reduziria drasticamente a independência de Dubai e que poderia mudar seu estilo próprio, livre de regulações.

Para muitos estrangeiros, Dubai a princípio parecia um refúgio, relativamente isolado do pânico que começou a atingir o resto do mundo no outono passado. O Golfo Pérsico está protegido por uma grande riqueza em petróleo e gás, e muitas pessoas que perderam seus empregos em Nova York e Londres começaram a procurar trabalho aqui.

Mas Dubai, diferentemente de Abu Dhabi ou dos vizinhos Qatar e Arábia Saudita, não tem seu próprio petróleo, e construiu sua reputação sobre o mercado imobiliário, finanças e turismo.

Agora, muitos estrangeiros estão falando de Dubai como se tudo tivesse sido uma fraude desde o princípio. Rumores sensacionalistas se espalham rápido: dizem que a ilha artificial Palmeira Jumeirah, que é um dos cartões postais da cidade, está afundando, e que quando se abrem as torneiras de seus hotéis, só saem baratas.

"A situação vai melhorar? Eles dizem que vai, mas não sei mais em que acreditar", disse Sofia, que ainda espera encontrar um emprego antes que o tempo acabe. "As pessoas estão entrando em pânico muito rápido".

Hamza Thiab, iraquiano de 27 anos que se mudou de Bagdá para cá em 2005, perdeu o emprego numa firma de engenharia há seis semanas. Ele tem até o fim de fevereiro para encontrar outro, ou terá de deixar o país. "Estou procurando emprego há três meses, e só consegui duas entrevistas", disse. "Antes, costumava abrir os jornais aqui e ver dezenas de ofertas. O salário mínimo para um engenheiro civil com quatro anos de experiência era cerca de 15 mil dirhams por mês. Agora, o máximo que você consegue é 8 mil", ou cerca de US$ 2 mil.

Thiab estava sentado à mesa do Costa Coffee Shop no shopping Ibn Battuta, onde a maioria dos clientes pareciam ser homens solteiros, desacompanhados, tomando café ao meio dia com um ar taciturno. Se ele não conseguir encontrar outro emprego, terá de voltar para a Jordânia, onde tem familiares - o Iraque ainda é muito perigoso, disse - apesar de a situação aqui não ser muito melhor. Antes disso, ele terá de emprestar dinheiro do pai para pagar os mais de US$ 12 mil que ainda deve pelo financiamento de seu Honda Civic. Seus amigos iraquianos compraram carros mais luxuosos e agora, desempregados, estão com dificuldades para vendê-los.

"Antes, estávamos vivendo uma vida boa aqui", disse Thiab. "Agora não conseguimos nem pagar nossos empréstimos. Estamos só dormindo, fumando, tomando café e ficando com dores de cabeça por causa da situação".

* Ali al-Shouk contribuiu com a reportagem

Tradução: Eloise De Vylder

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