UOL Notícias Internacional
 

16/02/2009

Passado nazista de cidade alemã vaza após esfaqueamento

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Passau (Alemanha)
O esfaqueamento de um chefe de polícia aqui em dezembro provocou uma comoção nacional porque a vítima, Alois Mannichl, era conhecida por ser um forte opositor dos neonazistas, que foram imediatamente acusados do ataque.

Mas os protestos públicos ruidosos e as manifestações nas ruas de Passau deram lugar ao silêncio à medida que os dias se tornaram semanas e o caso continuou sem solução.

Especulações de que o autor do crime pudesse ser um familiar do chefe de polícia se espalharam para além das fofocas locais até os principais jornais e revistas da Alemanha.

O que havia se tornado um símbolo instantâneo da violência fora de controle da extrema direita rapidamente se transformou numa investigação microscópica. Aqui nesta antiga cidade, cuja história se estende desde antes do período romano, o caso e sua repercussão trazem à tona uma reputação de ligações com o nazismo que os líderes municipais trabalharam duro para dissipar.

Agora, dois meses depois que o crime balançou o país, a polícia e os promotores declararam na quarta-feira (dia 11) que estão mais ou menos de volta ao ponto de partida, excluíram a mulher e os filhos de Mannichl e ainda procuram por um homem de 2 metros de altura, de compleição forte, com cabelo raspado e possivelmente uma tatuagem no pescoço, a mesma descrição divulgada em 14 de dezembro, dia seguinte ao crime.

"Nesse ponto, não há nenhuma prova de que o crime tenha sido cometido por alguém do círculo familiar", informou a declaração. A comissão especial de investigações, com 50 integrantes, estabelecida nos dias seguintes ao ataque, está investigando "em todas as direções", mas não tem nenhuma "pista quente" até agora, informou.

O ataque contra Mannichl, que foi grave apesar de não ter sido fatal, renovou em todo o país os clamores por um boicote do Partido Nacional Democrático, de extrema direita, conhecido como NPD, por suas iniciais em alemão. Além disso, também alimentou as preocupações em relação a um aumento da violência por parte da extrema direita.

No Estado da Bavária, onde está localizada a cidade de Passau, o número de ataques motivados pela extrema direita aumentou de 42 em 2006 para 76 em 2007, de acordo com os dados mais recentes do governo. Mas o jornal Frankfurter Rundschau revelou números ainda não divulgados pelas autoridades de acordo com os quais os crimes violentos da direita aumentaram 15% em todo o país nos primeiros dez meses de 2008.

Mannichl é conhecido por ser linha dura contra a extrema direita, mas ganhou a inimizade particular dos grupos neonazistas depois de ordenar a abertura do túmulo de um importante ex-líder nazista, Friedhelm Busse, depois de sua morte em julho passado. Busse foi enterrado com uma bandeira da suástica, que é proibida na Alemanha, e a polícia apreendeu a bandeira como prova.

Por volta das 17h30 de 13 de dezembro, um agressor enterrou uma faca no peito de Mannichl do lado de fora de sua casa, numa tranquila rua residencial da pequena cidade de Fuerstenzell, próxima a Passau, por pouco não acertando o coração, de acordo com as notícias. Mannichl disse que depois do ataque o agressor gritou: "Com os cumprimentos da resistência nacional" e "Você não vai mais destruir os túmulos dos nossos camaradas".

O ataque ganhou as manchetes em todo o país, assim como uma vigília à luz de velas em homenagem a Mannichl. "Quando qualquer um é atacado por um extremista de direita, é um ataque contra todos nós", disse a chanceler Angela Merkel numa entrevista na semana seguinte.

No dia seguinte ao ataque, a polícia prendeu dois homens, de 26 e 27 anos, supostamente ligados ao crime. Dois dias depois, um casal de Munique foi detido para interrogatório como possíveis cúmplices.

Mas os quatro foram logo soltos. E as perguntas começaram a aumentar, sobretudo em relação ao fato de a faca usada no ataque ter vindo da casa de Mannichl. Ele explicou que a faca havia sido usada para cortar o bolo de Natal durante uma celebração do Advento na vizinhança e que tinha sido deixada do lado de fora, onde o agressor pode tê-la encontrado.

Heinz Fromm, presidente da agência nacional de inteligência, o Escritório Federal para Proteção da Constituição, disse publicamente que a instituição não tem nenhuma prova que relacione o crime com os extremistas de direita. E as conjecturas sobre o caso, e sobre Mannichl, transformaram-se no assunto da vez desde Passau até a capital, Berlim.

A revista nacional Stern informou mais tarde que "havia especulações mais ou menos abertas de que o chefe de polícia poderia ter sido vítima de um drama familiar" e que poderia ter enviado sua própria força policial para uma busca infrutífera.

Outras possibilidades divulgadas publicamente incluíram a ideia de que o agressor era um punk ou gótico, ou um criminoso em busca de vingança que fingiu ser um neonazista para disfarçar sua identidade.

Mannichl recusou-se a ser entrevistado para esta reportagem, mas disse para um jornal de Munique no mês passado que estava tentando conviver com essas "especulações virulentas". Ele descreveu as dúvidas que envolvem o caso como "um vale profundo" em sua vida.

Membros do NPD local, que há tempos acusam Mannichl de perseguição, organizaram um protesto contra o que consideram uma "caça" injusta à direita por conta do caso. Em 4 de janeiro, cerca de 200 manifestantes de extrema direita de toda a Alemanha reuniram-se em Passau, onde foram confrontados por cerca de mil manifestantes contrários a eles e quase o mesmo número de policiais. Houve várias prisões, mas nenhuma violência.

Para Passau, cidade de 50 mil habitantes que fica na confluência de três rios, o Inn, o Ilz e o Danúbio, e busca seduzir os turistas para as ruelas estreitas de seu charmoso centro histórico medieval, o caso foi um retorno indesejado à reputação, considerada injusta pelas autoridades, de "cidade marrom", numa referência às camisas marrons que identificavam o partido nazista.

Passau ganhou notoriedade internacional como um símbolo da relação difícil da Alemanha com o seu passado no filme nomeado ao Oscar "The Nasty Girl" ["Uma Cidade Sem Passado"], baseado na história verídica de Anna Rosmus, que enfrentou ameaças de morte quando começou a vasculhar o passado nazista de sua cidade natal em 1980, aos 19 anos.

Passau continuou sendo um popular centro de convergência para a extrema direita, tanto para o NPD quanto para a União do Povo Alemão, até alguns anos atrás, não só por causa de sua conexão com nazistas famosos (Hitler morou aqui por dois anos quando era criança), mas também porque eles podiam fazer seus encontros locais no Nibelung Hall, um exemplo de arquitetura nazista de 1934.

Mas a cidade aos poucos se transformou num lugar mais aberto e cosmopolita. Uma universidade que se estabeleceu aqui em 1978 trouxe 8 mil alunos e um novo vigor cultural.

A queda da Cortina de Ferro e a integração da Europa transformaram a localização de Passau, que antes era um canto isolado da Alemanha, numa rota de passagem e destino turístico. O Nibelung Hall foi derrubado em 2004, e o edifício que o substitui é chamado Dreilaenderhalle, ou Edifício das Três Terras.

Tradução: Eloise De Vylder

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