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17/02/2009

Ameaça do Taleban sai de um vale paquistanês e chega a Nova York

The New York Times
Kirk Semple
Em Nova York
Em junho passado, Bakht Bilind Khan, que estava morando no Bronx e trabalhava em um restaurante fast-food, retornou para sua aldeia no volátil Vale do Swat, no norte do Paquistão, para visitar sua esposa e sete filhos pela primeira vez em três anos. Mas durante um jantar comemorativo com sua família, sua volta para casa repentinamente se tornou um pesadelo: vários guerreiros talebans fortemente armados e vestindo máscaras apareceram à porta de sua casa, acusaram Khan de ser um espião americano e o sequestraram.

Durante duas semanas de cativeiro em uma cadeia de montanhas próxima, disse Khan, ele foi interrogado repetidas vezes sobre sua riqueza, propriedades e "missão" nos Estados Unidos. Ele foi libertado em troca de um resgate de US$ 8 mil. Sua família, ameaçada de morte caso não deixasse a região, agora está escondida em algum lugar no Paquistão.

"Nosso Swat, nosso paraíso, agora está queimando", disse Khan, 55 anos, que voltou aos Estados Unidos e está trabalhando em um restaurante fast-food em Albany, tentando reembolsar os amigos e parentes que pagaram seu resgate.

Os imigrantes paquistaneses do Vale do Swat, onde o Taleban está combatendo as forças de segurança paquistanesas desde 2007, dizem que alguns de seus parentes estão sendo ameaçados, sequestrados ou mesmo assassinados pelas forças do Taleban, que os consideram colaboradores americanos potenciais e fontes lucrativas de resgate. Alguns imigrantes também dizem que também estão sendo ameaçados por talebans ou seus simpatizantes nos Estados Unidos, e alguns imigrantes disseram que foram atacados ou sequestrados quando voltaram para casa.

As ameaças deram uma dimensão adicional ao sofrimento dos imigrantes, que dizem que novos relatos de dificuldades surgem aqui todo dia, às vezes várias vezes ao dia, e se espalham rapidamente entre os milhares de imigrantes do Vale do Swat na região de Nova York: famílias expulsas de suas aldeias, casas sendo destruídas, parentes desaparecendo. O destino do vale domina a conversa entre os imigrantes.

"É 24 horas, sete dias por semana", disse Zakrya Khan, 30 anos, proprietário de dois restaurantes em Nova York, cujo quadro de 15 funcionários é quase totalmente do Swat. "Esta é a única preocupação deles agora."

Apesar de toda comunidade de imigrantes de um país em conflito sofrer quando parentes que ficam para trás são pegos pelo fogo, os imigrantes do Swat também carregam o fardo de acreditar que sua presença nos Estados Unidos está colocando em risco seus parentes em casa, onde o Taleban impôs sua autoridade sobre grande parte da região, a cerca de 160 quilômetros a noroeste de Islamabad.

Mais do que isso, os imigrantes do Swat dizem que estão com a sensação de que quanto mais tentam ajudar suas famílias em casa, mais dano podem causar, um dilema terrível que os enche com uma combinação de impotência, medo, tristeza e culpa.

Caso se manifestem, eles temem, isso poderia levar a uma retaliação contra eles ou seus parentes no Paquistão. Alguns imigrantes que participaram de manifestações políticas anti-Taleban aqui ou de apoio aos moradores do Swat dizem que eles e suas famílias passaram a sofrer pressão em consequência dessas atividades.

E poucos ousam deixar os Estados Unidos por temerem perder a principal fonte de renda de suas famílias.

"Ir para lá para ajudá-los poderia piorar a situação", disse Khan, o dono de restaurante. "Nós somos a única fonte de renda dessas pessoas. Se formos embora dos Estados Unidos, elas não terão ninguém que os sustentem."

O governo do Paquistão anunciou na segunda-feira que fechou um acordo com o Taleban em meio a um cessar-fogo de 10 dias para estabelecer a lei islâmica na região e suspender as operações militares ali.

Mas alguns imigrantes do Swat disseram estar céticos de que o acordo durará -dois outros acordos fracassaram nos últimos seis meses - e que estão se preparando para a retomada da violência.

Iqbal Ali Khan, 50 anos, um secretário-geral da diretório americano do Partido Nacional Awami, um partido político secular dominante em Swat, disse que recebeu três telefonemas ameaçadores nos últimos dois meses. Os autores das ligações, que não se identificaram, disseram para Khan que ele estava "ativo demais" e ordenaram que ele levasse consigo US$ 1 milhão em sua próxima viagem ao Paquistão.

"Ou você sabe o que acontecerá", disse um autor de ligação, segundo Khan, que também é dono de uma empresa de limusines com sede no Queens. "Nós conhecemos sua família."

O telefonema mais recente ocorreu em 10 de fevereiro. "Você ainda está ativo", disse o autor da ligação, como lembrou Khan. "Este é o último aviso."

Em 11 de fevereiro, ele recebeu um telefonema preocupante de seu irmão, que neste momento está escondido em uma floresta nos arredores da maior cidade do vale, Mingora, com seu pai de 97 anos.

O pai de Khan recebeu uma carta do Taleban naquele dia alertando que ele seria sequestrado a menos que pagasse US$ 200 mil. A nota instruía especificamente o pai a obter o dinheiro junto ao filho nos Estados Unidos.

"Meu pai de 97 anos está fugindo", exclamou Khan, com sua voz embargada de tristeza. "Tragédia! Tragédia!"

Antes do início da incursão do Taleban na região em 2007, Swat era um importante destino de férias, particularmente entre os pashtuns, o grupo étnico dominante na região. Conhecida como "a Suíça do Paquistão", ela tem picos cobertos de neve, pomares, lagos e campinas cobertas de flores.

Mas com o colapso do setor de turismo em meio ao levante do Taleban, segundo algumas estimativas centenas de milhares de moradores abandonaram suas casas, fugindo para Mingora ou outras regiões do Paquistão.

Imigrantes vêm do Vale do Swat há anos, muito antes de se transformar em uma frente na guerra entre o Taleban e as tropas do governo paquistanês.

Há cerca de 6 mil a 7 mil pessoas do Vale do Swat nos Estados Unidos, aproximadamente metade vivendo na região metropolitana de Nova York, disse Taj Akbar Khan, presidente da Khyber Society USA, uma organização cultural e caridade paquistanesa.

Em Nova York, os moradores do Swat geralmente vivem entre a população paquistanesa mais ampla, que fica concentrada em Coney Island, Brooklyn, e Astoria, Queens, entre outros bairros.

Muitos paquistaneses do Swat aqui suspeitam que o Taleban tem espiões entre eles, e que a insegurança espelha a desconfiança desenfreada no vale, onde muitos moradores temem as forças de segurança paquistanesas quase tanto quanto o Taleban e não sabem em quem confiar.

Talvez com a ajuda de simpatizantes no território americano, o Taleban tem se mostrado hábil em rastrear o fluxo de dinheiro dos Estados Unidos, e passou a recorrer ao sequestro dos recebedores do dinheiro visando obter resgates polpudos, disseram os imigrantes.

Ajab, o proprietário de uma loja de frango frito em Paterson, Nova Jersey, disse que o Taleban sequestrou seu cunhado no ano passado, perto da aldeia da família no Vale do Swat.

Durante 75 dias de cativeiro, os combatentes do Taleban disseram ao cunhado que um dos motivos para ter sido sequestrado era o fato de ter parentes nos Estados Unidos, incluindo Ajab. Os combatentes o libertaram após a família pagar um resgate de US$ 20 mil.

"Estamos tristes porque por nossa causa, nossos parentes estão em apuros", disse Ajab, 51 anos, que falou apenas sob a condição de que seu sobrenome não fosse publicado, para proteger a identidade de sua família.

Nem toda a violência que recai sobre as famílias dos imigrantes se deve à presença deles aqui. Mas a dificuldade de assistir de longe não é menos agonizante.

Deixando para trás sua família no Swat, Jihanzada chegou aos Estados Unidos em 2001 para ganhar dinheiro para construir a casa dos seus sonhos no Paquistão e pagar pelos futuros casamentos de seus cinco filhos. Ele trabalhou em vários empregos braçais em Boston e Nova York.

"Tudo o que ganhei eu mandei de volta para casa", ele disse em uma entrevista na semana passada, em um restaurante fast-food no Brooklyn onde ele trabalha.

Ele também falou sob a condição de que não fosse plenamente identificado, por temer alertar o Taleban de sua presença nos Estados Unidos. "Se soubessem que estou aqui, eles certamente fariam mal à minha família", ele disse. "Se soubessem que falei com você, eu me tornaria um alvo."

A casa foi concluída no início do ano passado; Jihanzada nunca a viu: ele não retornou ao Paquistão desde que partiu, há oito anos.

Mas durante os combates entre o Taleban e as forças de segurança paquistanesas, uma bomba lançada por uma aeronave militar paquistanesa demoliu a casa. A família de Jihanzada foi evacuada antes do início do combate e agora vive em Mingora. O casamento de sua filha mais velha, marcado para o próximo mês, foi adiado.

Jihanzada, que disse que não podia retornar ao Paquistão por ter um pedido de asilo pendente, recebeu fotos da destruição logo após o ataque. Ao ser perguntado sobre como se sentiu quando viu as fotos, ele baixou sua cabeça, escondendo seu rosto e tentando conter a tristeza. Ele permaneceu assim por um minuto, sem dizer nada.

Finalmente, ele prosseguiu: "Este é o sonho de cada pashtun: ganhar dinheiro, construir uma casa, ver os filhos crescer nela e, quando ficar velho, ficar sentado em casa e desfrutar a vida. Eu estou triste porque vou precisar recomeçar de novo".

Majeed Babar contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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