UOL Notícias Internacional
 

19/02/2009

Armados apenas de determinação, camponeses do Congo defendem-se de exército rebelde

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Faradje (Congo)
Tanzi Bakonzi, 15, que tem apenas 1,22 m de altura, está de patrulha. Ele está em frente a um mercado de legumes e verduras queimado, portando um facão enferrujado e usando esmalte azul nas unhas dos pés. Para ele não importa que o seu inimigo seja o Exército de Resistência do Senhor, um dos mais brutais grupos rebeldes do planeta. E não importa também que o Exército de Resistência do Senhor possua metralhadoras, morteiros e adore esmagar crânios, incluindo aqueles de várias centenas de pessoas que recentemente foram massacradas nesta área.

"Eu vou cortá-los", garante Tanzi.

Um combate terrivelmente desigual pode estar tomando forma nesta região isolada e coberta de vegetação cerrada no nordeste do Congo. Milhares de rapazes ainda na adolescência e os pais deles estão se armando com facões, estilingues, machados e espingardas chumbeiras rudimentares, e perambulando pela selva para enfrentar um bando de assassinos experientes.

Eles tocam tambores para enviar sinais de alerta. À noite, fazem patrulhas por turnos. Vários membros destas que são chamadas de forças de auto-defesa já foram assassinados. E, no passado recente do Congo, a criação de milícias locais só provocou mais derramamento de sangue e abusos.

Mas, aqui, o povo sente que não tem escolha.

"Esta é a nossa terra", diz Etienne Dalafada, um dos auto-proclamados líderes de milícia.

Dalafada e os seus camaradas disseram ter sido abandonados pelo Exército Nacional Congolês e pelas tropas de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Congo, que não conseguiram impedir que o Exército de Resistência do Senhor massacrasse recentemente quase mil civis.

Os rebeldes são originalmente de Uganda, mas ocultam-se há vários anos em um parque nacional próximo a Faradje. Em meados de dezembro do ano passado, o exército ugandense, auxiliado por uma equipe de assessores militares norte-americanos e milhares de soldados congoleses, tentou esmagar os rebeldes. Em vez disso, a maioria dos combatentes escapou e descarregou a sua fúria sobre os camponeses das imediações.

Faradje, uma cidade que dá a impressão de ficar no fim do mundo e que tem cerca de 25 mil habitantes, parece estar atravessando meio inconscientemente uma nova e violenta realidade. As ruas de terra batida nas quais as pessoas vendiam mandioca e cigarros estão, uma a uma, ficando desertas. As poucas crianças do local ficam nas suas choupanas. Os rebeldes golpearam até a morte o único médico de Faradje. Eles saquearam o posto de polícia e o mercado, mataram cerca de 150 pessoas e sequestraram mais de 200, em sua maioria jovens.

Até o momento, Mary Yebiye Siro foi uma das únicas a escapar. Ela diz ter 22 anos de idade, mas aparenta mais ter 16, com a sua face lisa e os lábios trêmulos. Siro conta a sua história sentada na soleira da porta de uma escola de telhas vermelhas velhas, uma construção que indica que Faradje já teve dias melhores. Esta área ficava em uma região agrícola, onde belgas, gregos e libaneses comercializavam café e algodão transportados através deste enorme país por meio de uma rede de rios e barcas. Em algumas cidades, ainda é possível ver os nomes dos antigos comerciantes gregos gravados em casas abandonadas que começam a ser engolidas, lenta e inexoravelmente, pela selva.

"Eles me levaram no Natal", conta Yebiye. Várias dezenas de moradores da vila espremem-se à sua volta. A sua história foi um dos primeiros relatos narrado por uma testemunha ocular ouvidos em Faradje sobre o exército rebelde.

Ela diz que os rebeldes usam tranças nos cabelos e tem um olhar furioso. Eles acreditam em bruxaria e untam o corpo em óleo de palmeira. Os combatentes marcham em círculos aparentemente intermináveis, muitas vezes em meio ao capim-elefante que chega à altura da cabeça, sem entretanto jamais se perderem. Às vezes, eles gostam de dançar.

"Os rebeldes comiam maconha e ligavam os seus rádios a todo volume no meio da selva", conta ela. "Quem não dançasse com eles, morria".

São histórias como essa que levaram os camponeses e outros civis a organizar missões pouco disciplinadas de busca e destruição. Mas, em meados de janeiro, em uma vila próxima, a estratégia não funcionou muito bem. Os camponeses cruzaram com um bando de combatentes rebeldes. Os rebeldes mataram quatro deles e fugiram.

Grupos de direitos humanos dizem que a ofensiva contra os rebeldes foi mal planejada porque as vilas deveriam estar protegidas por soldados de verdade, e não por garotos armados com ferramentas agrícolas. Autoridades militares reconhecem que a ofensiva não surtiu o efeito pretendido. Mas muitas afirmam que o ataque enfraqueceu os rebeldes, destruiu a sua base de apoio e colocou-os em fuga em um terreno no qual não há margem para erros.

"A natureza vai devorá-los", afirma o tenente-coronel Jean-Paul Dietrich, porta-voz da missão da ONU no Congo.

Talvez. Mas Yebiye descreve os combatentes rebeldes como pessoas que sentem-se à vontade no mato, sobrevivendo com pouca comida e com água suja. Segundo ela, os combatentes possuem muitos telefones e rádios. Segundo alguns relatos, houve casos recentes de rebeldes capturados com equipamentos para visão noturna.

Certa noite, no final de janeiro, os homens que a sequestraram pararam perto de uma vila. Os combatentes, que falam uma língua diferente da dela, fizeram gestos para Yebiye, ordenando que ela esperasse. Aparentemente, eles estavam caçando mais crianças. No decorrer dos seus 20 anos de brutalidades, o Exército de Resistência do Senhor ficou famoso por várias coisas. Mas o rapto de crianças para transformá-las em vigias, escravas sexuais e máquinas de matar parece ser a principal forma de crueldade praticada pelo grupo - embora atualmente as crianças pareçam estar envolvidas em todas as partes deste conflito.

Yebiye conta que ouviu vozes falando lingala, o idioma local. Ela olhou à sua volta, não viu nenhum rebelde e correu para um grupo de choupanas. Ela não se lembra de quem a abrigou. Yebiye acabou sendo levada para um campo do exército congolês, de onde foi transportada de volta para Faradje.

Quando ela termina a narrativa, uma mulher surge correndo, vinda dos campos de cultivo. Chorando, ela dá um abraço apertado em Yebiye e diz: "Achei que ela nunca mais fosse retornar".

A julgar pelo silêncio pesado que cai sobre a multidão, parece que todos achavam o mesmo.

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host