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19/02/2009

Ecstasy conquista uma nova classe de usuários adolescentes no Brasil

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em São Paulo
Os adereços da vida adolescente de classe alta pareciam vir facilmente para Sander Mecca: namoradas, bandas de rock, entrada em casas noturnas badaladas - e um sério vício em ecstasy. Sem a droga, as festas rave de fim de semana não eram as mesmas para Mecca, que disse que às vezes consumia seis pílulas em um espaço de 12 horas.

Então, aos 21 anos, Mecca foi preso em um bar, acusado pela polícia de ser traficante e colocado na prisão por quase dois anos, onde dormia ao lado de criminosos barra-pesada e assistiu outros playboys ricos serem atraídos para a vida do crime organizado.

  • Lalo de Almeida/The New York Times

    Adolescentes de classe média e alta vendem ecstasy para sustentar seus gostos extravagantes no mundo noturno de São Paulo de festas grandes e caras, diz chefe do Denarc

  • Lalo de Almeida/The New York Times

    Quando tinha 21 anos, Sander Mecca foi preso em um bar, acusado pela polícia de ser traficante e colocado na prisão por quase dois anos, onde dormia ao lado de criminosos barra-pesada

Sua história está se tornando mais comum no Brasil, onde o aumento do uso do ecstasy está atraindo uma nova classe de jovens com alta escolaridade para a mira da polícia aqui no maior país da América do Sul.

Esta nova classe de vendedores de drogas difere dos chefões das drogas altamente armados e seus soldados jovens e pobres das favelas, para onde a polícia brasileira envia pequenos exércitos para travar batalhas mortais contra eles. Em vez disso, aqueles acusados de vender ecstasy são geralmente frequentadores de clubes noturnos com formação universitária na crescente cena de dance music eletrônica, uma importação da Europa e dos Estados Unidos que está tomando conta da América do Sul.

Diferenças a parte, o tráfico de drogas no Brasil está cada vez mais sendo satanizado aos olhos da lei - a ponto dos traficantes de drogas agora poderem receber penas de prisão mais duras do que assassinos - e a elite do país não está sendo poupada.

Na semana passada, policiais federais prenderam 55 pessoas, muitas delas no Rio de Janeiro, em uma investigação nacional concentrada nos jovens de classe média-alta que a polícia diz estarem contrabandeando ecstasy, LSD e outras drogas sintéticas da Europa para o Brasil.

Em São Paulo, a polícia se concentrou em raves e casas noturnas, assim como em importantes universidades, com agentes infiltrados e nomes sob medida para manchetes, como Operação Playboy e Operação Dancing. Só a polícia de São Paulo prendeu centenas de universitários em batidas ligadas ao ecstasy nos últimos anos.

Ainda assim, as pílulas continuam chegando do exterior, alimentando imensos concertos ao ar livre e raves que atraem dezenas de milhares de pessoas e duram dias. A polícia federal disse ter apreendido 211 mil pílulas em 2007, 17 vezes mais do que no ano anterior, e outras 132.621 pílulas no ano passado.

A ascensão do ecstasy como droga dos ricos do Brasil abriu ainda mais a porta para policiais corruptos se aproveitarem dos usuários e suas famílias. Agora que o Brasil eliminou as penas de prisão para os usuários de drogas, os enviando para tratamento ou serviço comunitário, os policiais estão obtendo às vezes centenas de milhares de dólares em suborno em troca de não acusarem os pegos com ecstasy de serem traficantes, segundo advogados e três traficantes condenados, atualmente fora da prisão.

"Os consumidores e vendedores de ecstasy vêm de uma camada socioeconômica superior", disse Cristiano Maronna, um advogado criminal de São Paulo. "Do ponto de vista da polícia, a detenção destes indivíduos é mais interessante porque abre a porta para possibilidades de corrupção policial."

O ecstasy, conhecido quimicamente como MDMA, chegou ao Brasil vindo de Amsterdã no início dos anos 90, bem depois de decolar como droga recreativa na Europa nos anos 80, disse Murilo Battisti, um psicólogo de São Paulo que estudou o uso da droga no Brasil.

Agora adolescentes de classe média e alta frequentemente vendem ecstasy para sustentar seus gostos extravagantes aqui no mundo noturno de São Paulo de festas grandes e caras, disse Luiz Carlos Magno, o chefe do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) da Polícia Civil de São Paulo.

Este estilo de vida se intensificou com o boom econômico do Brasil nos últimos anos, que criou centenas de novos milionários e gerou um grande número de casas noturnas caras, que ainda prosperam apesar da crise financeira global.

Os organizadores de festivas de música eletrônica frequentemente rejeitam as sugestões de um elo entre a droga e a música, dizendo que o ecstasy é consumido em toda parte, inclusive em partidas de futebol. Mecca, entretanto, disse que a ligação é inegável.

"O ecstasy e as raves caminham de mãos dadas, e isso não vai parar", disse Mecca, atualmente com 26 anos. "Basta ir a uma rave aqui e verá que ninguém está sóbrio. Todo mundo está louco com ecstasy ou ácido."

A maioria dos vendedores de ecstasy compra suas drogas no exterior, especialmente na Holanda, disse Magno. "Os pais deles têm dinheiro, mas não têm a mínima idéia do que seus filhos estão fazendo", ele disse.

Além disso, a imagem de traficantes empunhando metralhadoras está longe das mentes dos usuários que se veem algemados por vender ecstasy, ou às vezes por compartilhar algumas pílulas com amigos.

"Eles se referem aos traficantes como 'eles', os caras nas favelas", disse Magno.

As leis de entorpecentes no Brasil protegem aqueles que têm formação universitária completa, os colocando em celas especiais. Mas mesmo restando apenas uma nota para a formatura significa ser jogado junto com a população carcerária geral.

Lucas, um carioca de 24 anos, estava no segundo ano da faculdade quando foi pego pela polícia em um aeroporto de São Paulo após trazer skunk, uma forma mais potente de maconha, de Amsterdã. O policial o acusou de ter ecstasy e revistou sua bagagem atrás das pílulas, sem encontrar.

Após uma negociação fracassada entre seu advogado e a polícia - ele disse que ofereceu R$ 30 mil para evitar ser indiciado como traficante - ele foi condenado e sentenciado a cinco anos e meio de prisão. Ele acabou cumprindo dois anos e meio.

"Eu fui tratado como um criminoso barra-pesada e colocado na prisão ao lado de assassinos, sequestradores e outros assim", disse Lucas, que concordou em ser entrevistado desde que seu sobrenome não fosse usado, por temer retaliação da polícia.

Na prisão, ele disse que sofria batidas policiais duas vezes por mês, onde os guardas entravam nas celas e batiam nos presos em busca de drogas, celulares e armas.

Lucas, que cresceu em uma família de classe média-alta do bairro do Leblon, no Rio, reconheceu que vendeu Ecstasy por anos, viajando para Amsterdã, onde ele disse que cada pílula custava apenas 30 centavos de euro em 2005; nas festas em São Paulo, as pílulas podiam chegar a quase 50 vezes esse valor.

Em 2006, o Brasil aumentou a pena mínima para venda de drogas e instituiu uma pena de oito a 20 anos para aqueles que promovem o tráfico de drogas. É uma pena mais dura do que a faixa de seis a 20 anos para a maioria dos homicídios no Brasil, disse Magno.

Como não há quantidade mínima de drogas que constitua tráfico, os policiais corruptos frequentemente solicitam suborno após a prisão de um suspeito e antes de preencherem o boletim de ocorrência, disse Maurides Ribeiro, outro advogado criminal daqui. Como resultado, ele disse, "centenas de pessoas estão na prisão cumprindo pena por tráfico de drogas, apesar de não serem traficantes".

Magno reconheceu que "é possível" que essa corrupção ocorra entre os 35 mil policiais de seu departamento, mas ele disse que a corregedoria ainda não prendeu nenhum policial por corrupção relacionada ao ecstasy.

Os pais frequentemente se mostram ávidos em pagar suborno para evitar que seus filhos sejam indiciados por tráfico. Como Lucas, Mecca disse que também tentou subornar o policial, mas fracassou porque os repórteres que souberam de sua prisão estavam aguardando na cadeia.

A prisão foi um choque. Durante seus dias como playboy, ele morava na casa dos pais e tinha cozinheira e motorista. Na prisão, ele dividia uma cela projetada para três com até 11 presos. Quando os beliches de alvenaria estavam cheios, os presos penduravam redes nas paredes. A violência predominava tanto quanto o resíduo de nicotina revestindo as paredes da prisão. Ele disse que viu presos surrarem outros presos até sujarem suas calças.

Mecca disse que fez uso de seu tempo na prisão para se livrar do vício nas drogas, até um juiz posteriormente mudar a acusação contra ele de tráfico para uso de drogas. Outros tomaram um rumo diferente. Um colega playboy que também foi preso por vender Ecstasy, se juntou a uma gangue na prisão, tomou gosto pela vida marginal e saiu de lá um criminoso, disse Mecca.

"Os playboys acham que como têm dinheiro, eles estão acima da lei e que nada os atingirá", ele disse. "Então continuam fazendo o que bem entendem até acontecer algo sério. A prisão mudou minha vida."

Myrna Domit, em São Paulo, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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