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22/02/2009

A lição do Japão: quando os consumidores não gastam

The New York Times
Hiroko Tabuchi
Em Tóquio
Enquanto os americanos preocupados com a recessão estão se adaptando a uma nova frugalidade, o Japão oferece um vislumbre de como o hábito de economizar pode tomar conta de uma sociedade de consumo, surtindo um efeito desastroso.

O mal-estar econômico que afligiu o Japão dos anos 90 até o começo dos 2000 trouxe redução de salários e queda no preço das ações, transformando em sovinas os consumidores que gastavam à revelia e fazendo deles um peso morto na economia do Japão.

Hoje, anos depois da recuperação, mesmo os lares japoneses mais abastados usam a água do banho para lavar roupas, uma forma comum de economizar nas contas domésticas. As vendas de uísque, bebida preferida dos moradores endinheirados de Tóquio durante a bonança dos anos 80, caíram para um quinto do seu ápice. E o país está perdendo o interesse em carros; as vendas caíram pela metade desde 1990.

A família Takigasaki, que mora em Nakano, subúrbio de Tóquio, vai além para economizar um ou dois ienes. Apesar de ter um lar confortável, Hiroko Takigasaki economiza até na compra de verduras e legumes.
Quando ela compra demais em uma semana, compensa voltando à solução econômica de reserva: repolho refogado.

"Dá pra fazer quase tudo com um pouco de repolho, e talvez um pouco de batata", diz Takigasaki, 49, que trabalha meio período numa instituição para pessoas com deficiência.

Seu marido tem um emprego bem remunerado na gigante eletrônica Fujitsu, mas ela diz: "não sei quando o barco vai virar". "Na verdade, precisamos economizar muito, muito mais".

O Japão conseguiu eventualmente superar a Década Perdida que foram os anos 90 graças em parte ao boom das exportações para os Estados Unidos e a China. Mas mesmo com a expansão da economia, os consumidores traumatizados se recusam a gastar. Entre 2001 e 2007, o gasto per capita dos consumidores aumentou apenas 0,2%.

Agora, à medida que as exportações diminuem em meio a um colapso mundial da demanda, a economia do Japão está em queda livre porque não pode depender do consumo doméstico para evitar a desaceleração.

Nos últimos três meses de 2008, a economia do Japão encolheu a uma taxa anualizada de 12,7%, o declínio mais radical desde os choques do petróleo nos anos 70.

"O Japão é tão dependente de exportações que, quando os mercados estrangeiros desaceleram, a economia do Japão entra em colapso", diz Hideo Kumano, economista do Dai-chi Life Research Intitute. "Na superfície, parece que o Japão havia se recuperado de sua Década Perdida dos anos 90. Mas o Japão de fato entrou numa segunda Década Perdida - a do consumo perdido".

Os japoneses tiveram algumas boas razões para conter seus gastos.

Talvez a mais importante seja a redução do salário dos trabalhadores nos últimos anos, mesmo depois que as companhias se recuperaram e fortaleceram seus lucros.

Essa discrepância é resultado de um corte de custos agressivo por parte de exportadores japoneses como a Toyota e a Sony. Assim como as companhias americanas agora, elas tentaram evitar a competição cruel de companhias de economias emergentes como a Coréia do Sul e Taiwan, onde os custos de mão-de-obra são baixos.

Para se tornarem mais competitivas, as companhias cortaram vagas e salários, substituindo boa parte da força de trabalho por empregados temporários que não tinham segurança no emprego nem tantos benefícios.

Trabalhadores não-tradicionais somam mais de um terço da força de trabalho do Japão.

Os jovens estão sentindo os efeitos dessa mudança. Cerca de 48% dos trabalhadores com 24 anos ou menos são temporários. Eles entraram na maioridade com um mercado de trabalho difícil, e tendem a evitar o consumo excessivo.

Esses jovens normalmente não se interessam por carros. Uma pesquisa feita pelo jornal de negócios Nikkei no ano passado descobriu que apenas 25% dos homens japoneses com 20 anos de idade queriam um carro, número que caiu 48% em relação a 2000, contribuindo para a queda nas vendas.

As jovens japonesas parecem até mesmo estar perdendo sua sede outrora insaciável pela moda estrangeira. A Louis Vuitton, por exemplo, divulgou uma queda de 10% em suas vendas no Japão em 2008.

"Não estou interessada em gastar muito", diz Risa Masaki, 20, estudante universitária em Tóquio, onde é vizinha dos Takigasaki. "Eu só quero uma vida humilde".

O envelhecimento da população do Japão não está ajudando o consumo. As empresas esperavam que os nascidos durante o baby boom - a geração que colheu os benefícios do rápido crescimento econômico do pós-guerra japonês - esbanjariam suas poupanças ao chegarem à aposentadoria, o que começou a acontecer em massa em 2007. Mas a previsão não se concretizou na escala que as companhias esperavam.

Os economistas colocam a culpa dessa contenção de gastos numa desconfiança generalizada em relação ao sistema de aposentadoria japonês, que está entrando em colapso sob o peso de uma das sociedades que envelhece mais rapidamente no mundo. Isso poderia servir como um alerta para os Estados Unidos, onde os fundos de pensão foram devastados pela queda das ações, as pensões estão desaparecendo, e a capacidade no longo prazo do sistema de Seguridade Social está sendo questionada.

"A aposentadoria do meu marido sairá daqui a cinco anos, e estou muito preocupada", diz a mãe de Masaki, Naoko, 52. Ela diz que não é um alívio o fato de que seu marido, servidor público, possa esperar uma aposentadoria gorda; os pagamentos de pensão podem cair, e ela também tem dois filhos solteiros com quem se preocupar.

"Quero que ele encontre outro emprego, e trabalhe até quando puder", diz Masaki. "Precisamos nos preparar para o que vier".

Programas de estímulo econômico como o que o presidente Barack Obama assinou na semana passada foram restringidos no Japão pela deflação, a espiral negativa de preços e salários que ocorre quando os consumidores param de gastar - em parte porque esperam que os bens fiquem mais baratos no futuro.

Os economistas dizem que a deflação pode interferir nos 2 trilhões de ienes (US$ 21 bilhões) em dinheiro que o governo japonês está planejando distribuir, porque os consumidores podem guardar o dinheiro extra com a impressão de que valerá mais no futuro do que agora.

O mesmo medo toma conta de muitos economistas e estrategistas políticos dos Estados Unidos.

"A deflação é um risco real que a economia enfrenta", disse Lawrence H. Summers, principal conselheiro econômico de Obama, a repórteres este mês.

Hiromi Kobayashi, 38, dona de casa de Tóquio, começou a costurar roupas de balé para crianças em casa para complementar a renda de seu marido, que trabalha numa distribuidora de filmes. A família não sai de férias há dois anos e ainda tem uma TV de tecnologia CRT.
Kobayashi quer comprar uma de tela plana, mas está se contendo.

"Vou procurar uma pechincha, e esperar até que fique ainda mais barata", diz.

Tradução: Eloise De Vylder

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