UOL Notícias Internacional
 

22/02/2009

Preocupações com a economia crescem em meio à seca na Argentina

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Buenos Aires
As vacas estão morrendo aos milhares sob o sol escaldante, e as colheitas são perdidas antes mesmo que as sementes germinem.

A pior seca da Argentina em mais de 50 anos amplia as chances do país de sofrer outra crise econômica, e o prejuízo do setor agropecuário complicará a situação do governo para pagar os mais de US$ 18 bilhões da dívida externa este ano, dizem os economistas.

A apenas oito meses das eleições para o Congresso, a seca também está esquentando o clima político entre o casal presidencial do país, a presidente Cristina Fernandes de Kirchner e Nestor Kirchner, o ex-presidente. Enquanto isso, a Argentina se esforça para conter a inflação de dois dígitos e o crescente desemprego.

Cristina declarou no final do mês passado um "estado de emergência agrícola" e disse que o governo daria a alguns grandes e pequenos proprietários a abstenção de um ano do pagamento de impostos provinciais sobre a produção agropecuária afetada pela seca.

Mas uma onda de oposição tomou conta de partes do país, especialmente das áreas rurais que ajudaram a conduzi-la ao poder em 2007. Os fazendeiros, ainda agitados pela batalha em relação às taxas de exportação no ano passado, ameaçam fazer ainda mais greves a não ser que o governo reduza os tributos aos valores antigos.

Nestor Kirchner, que no ano passado chamou os fazendeiros de "golpistas", tentou acalmar as tensões. "Aos que insistem no confronto, pedimos humildade", disse ele este mês.

Depois que o diálogo entre o governo e as associações de fazendeiros naufragou, os produtores disseram na sexta-feira que interromperiam as vendas de grãos e carne até terça.

Por mais que os Kirchner tentem evitar, as eleições serão um referendo nacional para sua decrescente popularidade e ambições de continuar no poder depois de 2011.

Apesar de Cristina Kirchner ser presidente, poucos duvidam que seu marido, líder do partido peronista, é o estrategista político-chefe do casal e desempenha um forte papel guiando a economia nos bastidores.

Nestor Kirchner tem se reunido com governadores das províncias e considerado concorrer ao Congresso na província de Buenos Aires para ancorar o poder político do casal. Ele está buscando alianças com peronistas que representam uma ameaça competitiva aos Kirchner, diz E.
Federico Thomsen, economista que comanda uma firma de consultoria em Buenos Aires.

Mas na terça-feira, Carlos Reutemann, senador e ex-governador da província de Santa Fé, lançou um golpe contra essa estratégia ao anunciar que estava deixando o bloco governista da Frente Vitoriosa por causa de desavenças pessoais e políticas com o governo.

Os Kirchner foram especialmente afetados pela seca - que já dura cinco meses e também causa destruição no Uruguai, Paraguai e partes do sul do Brasil - porque a situação econômica argentina já era mais precária do que a de vizinhos como o Brasil e o Chile.

A Argentina não só tem dívidas altas, como também guardou menos reservas durante o recente boom das commodities. Isso deu ao governo menos flexibilidade para lançar medidas de estímulo econômico.

Ainda assim, os preços das safras não caíram tão severamente como os do petróleo e do cobre, dos quais outros países sul-americanos, incluindo a Venezuela e o Chile, dependem para seu crescimento econômico.

"A Argentina poderia ter dito que saiu da crise quase sem arranhões", disse Thomsen. "Mas daí veio a seca para complicar as coisas".

Os economistas preveem que a produção geral da agricultura argentina e da indústria pecuária caia pelo menos 15% nesta temporada em relação ao ano passado, e que os lucros estatais provenientes do setor sofram queda de mais de US$ 5,5 bilhões. A seca foi especialmente devastadora para as plantações de trigo e milho e os rebanhos de gado.

Os fazendeiros argentinos perderam cerca de 1,5 milhões de cabeças de gado, diz Ernesto Ambrosetti, economista-chefe do Instituto de Estudos Econômicos da Sociedade Rural Argentina.

O Departamento de Agricultura dos EUA baixou a estimativa da colheita de milho argentina para 13,5 toneladas, 35% a menos do que o departamento havia estimado no ano passado. O produto agrícola de exportação mais importante da Argentina, a soja, até agora não foi tão afetado porque os fazendeiros conseguiram adiar um pouco o plantio em alguns campos na esperança de que o solo finalmente fique úmido o suficiente. Neste mês, choveu até agora mais do que a média de janeiro, e isso está fortalecendo as esperanças.

Um outro problema é que o estoque de dólares do país está caindo à medida que aumenta a demanda e a fuga de capital continua, diz Daniel Kerner, analista do Grupo Eurásia, uma consultoria de riscos.

Isso poderia aumentar a pressão sobre o governo para usar as reservas do Banco Central ou desvalorizar severamente sua taxa de câmbio. No ano passado, os argentinos retiraram cerca de US$ 25 bilhões do país, disse Kerner.

Apesar de a maioria dos economistas acreditar que o governo conseguirá evitar mais um terrível calote de suas dívidas, impedir uma grande desvalorização da moeda, o peso, será uma coisa mais delicada.

Por enquanto, o governo Kirchner parece estar comprometido com a desvalorização gradual do peso para não alimentar o pânico generalizado.

Com o dinheiro que o governo confiscou dos fundos de pensão privados e outros instrumentos, poderá cortar um rombo financeiro de US$ 10 bilhões para um valor mais administrável de US$ 2 bilhões este ano, diz Esteban Medrano, conselheiro econômico da consultoria LatinSource.

Medrano disse que uma queda drástica na produção poderia ser compensada pelos milhões de toneladas de grãos que os fazendeiros estocaram no ano passado quando estavam brigando com o governo.

Tradução: Eloise De Vylder

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