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23/02/2009

Batata frita ajuda no combate à mudança climática

The New York Times
Elisabeth Rosenthal
Em Nuneaton (Inglaterra)
Como tem feito com frequência durante os últimos 18 meses, Andy Roost dirigiu seu Peugeot azul 205 a diesel para uma fazenda, onde as placas apontavam para "ovos" numa direção e "óleo" na outra.

Ele abriu a tampa de combustível enquanto conversava despreocupadamente e Colin Friedlos, o proprietário, colocava três grandes jarras de óleo de cozinha - tingidas de verde para indicar o benefício ambiental - dentro do tanque de gasolina do Peugeout.

Friedlos administra uma das centenas de pequenas fábricas britânicas que processam, e com frequência vendem para motoristas particulares, óleo de cozinha usado, que pode ser jogado diretamente no motor de carros a diesel não-modificados, desde Ford a Mercedes.

No ano passado, quando o preço do petróleo bruto atingiu US$ 147 por barril, várias grandes companhias da Europa e dos Estados Unidos foram incentivadas a implantar fábricas para coletar e refinar óleo de cozinha usado e transformá-lo em biodiesel.

A recessão global e a queda drástica no preço do petróleo destruíram muitas dessas refinarias. Mas fábricas menores e mais simples, como a de Friedlos, continuaram funcionando para preencher a demanda com seu produto direto-ao-tanque, atarefadas com as ofertas de óleo gratuitas dos restaurantes.

Agora, as latas estão empilhadas na fazenda. Alguns empresários daqui oferecem abastecimento em quintais e celeiros dos subúrbios. Outros - como John Nicholson, fundador de uma pequena companhia em Wales -, entregam de porta em porta jarras de combustível verde a centenas de consumidores, como fazem os leiteiros.

O óleo de cozinha usado tem chamado cada vez mais atenção nos últimos anos como uma alternativa limpa e mais barata aos combustíveis fósseis para veículos. Em muitos países, incluindo os Estados Unidos, o óleo é coletado por companhias e transformado num tipo de diesel. Algumas cidades usam o combustível em ônibus ou vans municipais especialmente modificados. E vez ou outra um ambientalista experimenta filtrar o óleo em casa e usá-lo como combustível.

Aqui, entretanto, o modelo direto-ao-tanque está ganhando mais popularidade, atraindo pessoas como Roost, que fez uma parada no caminho para o trabalho, vestido de terno. O óleo, diz ele, é "bom para o ambiente e é mais barato que o diesel, mesmo que agora os preços tenham caído". Ele custa US$ 4,88 por galão (3,78 litros), cerca de 10% a menos do que o custo atual do diesel - e cerca de um terço a menos do que o preço do diesel durante a alta do ano passado.

O óleo de cozinha usado nunca acabará com a necessidade de postos de abastecimento, e tampouco reverterá, sozinho, a mudança climática, dizem os especialistas em transportes.

"É impossível consumir batatas fritas suficientes" para fornecer biodiesel para todos os carros do ocidente, disse Peder Jensen, especialista em transportes para a Agência Européia de Meio Ambiente.

No máximo, disse, o óleo de cozinha pode substituir uma pequena porcentagem do consumo de diesel. Mas segundo ele, essa é uma das pequenas atitudes que, somadas, podem produzir um efeito importante na redução de emissões de gases de efeito estufa.

Jensen disse que o combustível de óleo de cozinha é "viável" para os motores a diesel - Rudolf Diesel previu que seu motor, patenteado nos anos 80, pudesse funcionar assim - e "do ponto de vista ambiental, foi uma boa ideia pegar esse resíduo e transformá-lo em algo útil".

As principais barreiras para o uso generalizado de óleo de cozinha, disse Jensen, são "estruturais", como a falta de parâmetros para processar o combustível e para adaptar e manter os veículos que funcionam com ele.

Stuart Johnson, gerente de engenharia e meio ambiente da Volkswagen da América, disse que colocar óleo vegetal cru em carros é uma "má ideia". "Nós não recomendamos", disse. Segundo ele, a qualidade variável do combustível de óleo de cozinha significa que ele "pode conter impurezas e ser muito viscoso", especialmente para motores mais novos e mais complexos, com sistemas de injeção.

Nada disso parece preocupar Nicholson, o empresário britânico. Ele disse que a primeira vez que colocou óleo vegetal de sua cozinha no carro da família foi há oito anos, quando os postos de gasolina estavam sem combustível por conta de uma crise. Sua mulher, que é enfermeira, precisava chegar ao trabalho.

Durante os anos seguintes, ele experimentou diferentes técnicas e inaugurou a Bio-Power (UK), uma associação que presta assistência para pequenos produtores como ele.

"As pessoas dizem: 'Não tenho escolha a não ser ir para um posto normal, e eles vendem apenas combustível fóssil'", disse Nicholson. "É preciso pensar diferente. Isso desafia o status quo".

Segundo ele, muitos veículos a diesel, principalmente os modelos antigos, andam bem com óleo de cozinha e não precisam de adaptações.
Ele diz que teve sorte que o carro de sua mulher era "tolerante".

Mas Jensen disse que é mais seguro adaptar os carros para o óleo de cozinha, um ajuste que pode ser feito por US$ 300 e envolve colocar um pequeno aquecedor para pré-aquecer o combustível para que ele fique mais fluido e instalar mangueiras de injeção um pouco mais largas.

Milhares de kits foram vendidos na Europa e nos Estados Unidos, apesar de ser ilegal vender carros adaptados nos EUA.

Mas Jensen alertou que os motoristas que usam combustível de óleo de cozinha assumem o risco de perder a garantia do veículo.

O óleo vegetal é mais limpo do que a gasolina ou o diesel, produzindo praticamente nada de dióxido de carbono, o principal gás relacionado à mudança climática, e bem menos partículas de poluição prejudiciais à saúde humana. Mas se o óleo de cozinha não for adequadamente filtrado ou preparado para o uso nos carros, estudos mostram que ele também pode produzir altos níveis de outro químico, o NOx, principal componente das nuvens de poluição.

Uma resolução da União Européia estipula que todos os combustíveis nas bombas deverão conter 5,75% de biocombustível até 2010, encorajando muitas grandes corporações a entrarem no mercado.

Na Escócia, por exemplo, a Argent Oil montou a maior fábrica do setor, capaz de coletar, por ano, 150 milhões de quilos de óleo de cozinha usado para produzir 204 milhões de litros de biodiesel.

O movimento tampouco está limitado à Europa. Cidades do Texas e outros Estados fundaram companhias como a Biodiesel Industries, para coletar o óleo local e transformá-lo em biodiesel para os veículos municipais.

Autoridades de Westchester County, Nova York, anunciaram recentemente que coletariam óleo de cozinha de restaurantes para uma frota de veículos modificados, incluindo uma van que viajaria para as escolas para ensinar aos alunos sobre biocombustível.

Produtores como Friedlos tiraram vantagem do processo simples de destilação e poucos gastos. Em vez de ser refinado com químicos explosivos em grandes fábricas, o óleo é simplesmente filtrado e misturado com um aditivo para torná-lo menos viscoso e mais fácil de ser queimado. E os custos de transporte são mínimos.

O óleo de cozinha usado é um resíduo problemático, que tende a entupir canos se for jogado pelo ralo, formando estalactites grandes e viscosas nos esgotos, e matando plantas e animais quando chega aos lagos e rios. No Reino Unido, o óleo de cozinha não pode ser enviado para os aterros sanitários. O óleo já foi usado para produzir ração animal, mas isso não é mais permitido por causa de preocupações com a doença da vaca louca.

Há dois anos, no abastado bairro de Leatherhead, em Londres, Chris Leveritt começou a filtrar o óleo de seu restaurante, a Trattoria Vecchia, para usar no carro da família. Agora ele está criando uma pequena fábrica para produzir 600 litros por dia em seu quintal. O parceiro de Leveritt, distribuidor de vinhos, coleta jarras de óleo usadas quando entrega vinhos para dezenas de restaurantes de Londres e redondezas.

Em Wales, Nicholson entrega óleo de cozinha para o National Trust, a Sociedade Real para Proteção dos Pássaros, e cerca de outros 300 clientes, que preferem o óleo porque não contém combustível fóssil.

Mas muitos motoristas ainda hesitam, diz Leveritt. "Há muita resistência", diz ele, "em relação a colocar em seu precioso carro uma coisa que você produziu na pia da cozinha".

Tradução: Eloise De Vylder

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