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23/02/2009

Caem os preços e as vendas de diamantes

The New York Times
Julia Werdigier
Em Londres
Os diamantes podem durar para sempre, mas aparentemente seus compradores são mais efêmeros.

A Tiffany, famosa rede joalheira da Quinta Avenida em Nova York, enfrenta dificuldades mesmo depois de abaixar os preços. Em Botsuana, numa das maiores minas de diamantes do mundo, os efeitos atingem os trabalhadores que entraram em férias coletivas depois do Natal para ajudar a De Beers, a gigante do setor, a se ajustar à queda repentina.

Depois de desfrutar de mais de duas décadas de aumentos de preços quase ininterruptos em meio à alta demanda, o mercado mundial de diamantes está sofrendo junto com outros setores da indústria do luxo. As vendas no varejo caíram até 20% durante os feriados de fim de ano nos Estados Unidos, que é responsável por cerca da metade da demanda mundial de diamantes.

Mas o setor é diferente dos outros negócios de luxo porque é baseado em uma commodity. E essa commodity não está mais só sob o controle exclusivo da De Beers, que conseguia manter os preços altos restringindo o fornecimento.

As esperanças de que o crescimento econômico da Índia e da China preenchesse o rombo na demanda foram destruídas quando a recessão se espalhou pela Ásia, fazendo com que os preços dos diamantes caíssem quase 30% depois de um pico em agosto.

"Todo o setor foi paralisado à medida que foi atingido pela recessão", disse Christine Gordon, analista independente da indústria de diamantes em Londres. "Isso continuará por algum tempo e, enquanto isso, serão necessários cortes na produção".

A De Beers, maior produtora de diamantes do mundo, disse na sexta-feira que as vendas no último trimestre desaceleraram e que 2009 seria um ano "difícil".

A forte demanda por diamantes nos primeiros três trimestres do ano passado ajudaram a De Beers a aumentar suas vendas anuais para US$ 6,89 bilhões. Mas as vendas em novembro e dezembro foram "abaixo das expectativas", disse Gareth Penny, diretor-administrativo do grupo.

Ainda em setembro, a De Beers não conseguia extrair diamantes com a rapidez necessária para suprir a demanda. Mas desde que a crise financeira virou a situação para pior depois da falência do Lehman Brothers em meados de setembro, a De Beers teve que diminuir a produção, reduzindo a semana de trabalho, introduzindo horários mais flexíveis e transferindo trabalhadores da escavação para a manutenção das minas.

A De Beers, da qual a gigante da mineração Anglo American possui 45%, controla cerca de 40% do mercado de diamantes. A companhia disse em janeiro que reduziria a produção de pedras brutas em cerca de 50% até abril.

Por causa da crise financeira, uma unidade da De Beers engavetou recentemente um acordo para adquirir metade de uma mineradora russa; outra subsidiária acabou de encerrar um acordo de produção numa mina da África do Sul.

Outros produtores também estão sofrendo. A Alrosa, mineradora estatal russa, reduziu drasticamente em dezembro sua previsão de lucro anual, alegando uma queda na demanda. E o vendedor de diamantes Fortunoff e seu concorrente menor, Shane, entraram com pedidos de proteção contra a falência.

Mas as sementes dos problemas na indústria de diamantes foram plantadas antes mesmo da crise, à medida que os produtores acumularam um grande estoque e assumiram dívidas excessivas.

A suspensão da produção é resultado principalmente de uma mudança estratégica na De Beers há cerca de dez anos. Quando Cecil Rhodes, o aventureiro empresário de origem britânica, fundou a De Beers no século 19, a companhia estabeleceu um controle estrito do mercado de diamantes e manteve os preços numa curva de ascensão constante comprando o excesso de produção.

O sistema funcionou maravilhosamente durante décadas, mas se tornou insustentável à medida que a concorrência de mineradoras menores aumentou e a demanda por outros bens de luxo substituiu o apetite dos consumidores pelas pedras preciosas. A De Beers mudou sua estratégia e começou a vender diamantes brutos em dez leilões anuais, mas ainda estava encalhada com uma pilha de cerca de US$ 4 bilhões em diamantes.

As perspectivas para o futuro são desesperançosas no momento. Chaim Even-Zohar, gerente da Tacy, uma firma de consultoria para o setor em Israel, disse que espera que a demanda por diamantes brutos diminua no mínimo 60% este ano, levando a uma redução ainda maior nos preços, de cerca de 25%.

As quedas recentes nos preços persuadiram Angola e outros países cujas economias dependem fortemente do setor a considerarem comprar diamantes para mantê-los fora do mercado. De fato, a Rússia já comprou alguns produtos da Alrosa.

Em Botsuana, onde a gigante da mineração Debswana é uma parceria entre a De Beers e o governo, os políticos alertaram sobre os efeitos devastadores que o fechamento de uma mina ou a liquidação de bens poderia ter para a economia do país, para projetos sociais e de desenvolvimento, uma vez que os diamantes respondem por cerca de dois terços de suas exportações.

O setor de US$ 20 bilhões enfrenta dívidas corporativas que inflaram para cerca de US$ 22 bilhões em 2008. A relutância dos bancos em emprestar dinheiro coincide com uma queda no valor dos diamantes que as companhias usam como garantia nos empréstimos.

As perspectivas imediatas para o setor podem parecer ruins, mas alguns analistas dizem que uma vez que a suspensão da produção surta efeito, os preços irão se recuperar. Sem novas descobertas de minas, Even-Zohar espera que o mundo fique sem diamantes novos em vinte anos.

Quando a demanda se recuperar, qualquer falta de diamantes no mercado fará com que os preços subam e isso reavivará a mineração. "Os princípios a longo prazo parecem bons", disse Even-Zohar. "Mas enquanto isso, os países e suas populações irão sofrer".

Tradução: Eloise De Vylder

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