UOL Notícias Internacional
 

23/02/2009

Dinheiro para idiotas

The New York Times
David Brooks
Colunista do The New York Times
Nosso sistema moral e econômico é baseado na responsabilidade individual. É baseado na ideia de que as pessoas têm de arcar com as consequências de suas decisões. Isso as torna mais cuidadosas ao tomar decisões. E isso significa que a sociedade tende à justiça - na medida do possível, as pessoas recebem aquilo que merecem.

Nos últimos meses, discutimos muito tudo isso. Os governos de Bush e Obama estão recompensando a leviandade e a irresponsabilidade. A ajuda financeira presenteia os banqueiros que assumiram riscos insanos. A ajuda à indústria automobilística subsidia companhias e sindicatos que há algumas décadas tomaram decisões que levaram o setor ao chão.

O pacote de estímulo oferece dezenas de bilhões de dólares para Estados que esbanjaram dinheiro durante os anos de prosperidade. O plano imobiliário de Obama obrigará as pessoas que compraram casas modestas a pagarem pelos empréstimos de outras que compraram casas que não podiam pagar. Quase certamente obrigará as pessoas que foram honestas em seus formulários de empréstimo a pagar pelas que foram desonestas.

Essas injustiças estão alimentando a revolta em todo o país, vigorosamente expressa por Rick Santelli na CNBC na manhã de quinta-feira (dia 19). "O governo está promovendo o mau comportamento",
Santelli gritava enquanto operadores de mercado de Chicago o aplaudiam. "O presidente... deveria criar um site? para as pessoas votarem... para saber se elas querem pagar os empréstimos dos falidos".

Bem, em alguns casos, talvez até queiramos. Isto é porque, essencialmente, o negócio do governo não é o Juízo Final, certificando-se de que todos cumpram penitência por seus pecados. Em épocas como esta, o negócio do governo é principalmente estabilizar o sistema econômico como um todo.

Deixe-me explicar de outra forma: os psicólogos têm um ditado que fala que quando um casal chega para fazer terapia, há três pacientes na sala - o marido, a mulher e o próprio casamento. O casamento é a história viva de todas as coisas que aconteceram entre marido e mulher. Uma vez que os padrões são determinados, o próprio casamento começa a dar forma ao comportamento dos indivíduos. Apesar de existir espaço entre eles, o casamento tem uma influência própria.

Da mesma forma, uma economia tem uma cultura econômica. A partir de bilhões de decisões individuais, surge uma paisagem econômica comum, que molda e influencia as decisões de todos.

Nesse momento, a paisagem econômica parece aquele filme sobre a ponte de Tacoma Narrows que você deve ter assistido na aula de ciências. Ela começou a balançar um pouco com o vento e as oscilações foram aumentando até que a coisa toda parecia estar viva e o piso ficou parecendo a superfície de um líquido.

Há alguns anos, a cultura econômica global começou a balançar. O governo permitiu às pessoas comprarem casas acima de seu poder aquisitivo. O Fed [banco central norte-americano] oferecia dinheiro fácil. Os chineses se embriagavam com rios de capital. O frívolo balanço para cima produziu uma descida desastrosa.

Essas oscilações são o verdadeiro prejuízo moral. A responsabilidade individual não significa muito numa economia como esta. Todos nós conhecemos pessoas que foram demitidas sem ter cometido nenhum erro.
Os responsáveis foram punidos junto com os perdulários.

Faz sentido para o governo intervir para tentar reduzir a oscilação.
Faz sentido para o governo tentar restaurar alguma ordem comum. E a triste realidade é que nessas circunstâncias o governo é obrigado a gastar dinheiro exatamente nos setores que balançam descontroladamente - imobiliário, financeiro, etc. Ele tem de ajudar a estabilizar as pessoas que agiram como idiotas.

Na verdade, fazer isso é uma tarefa quase impossível. Olhando para as ajudas financeiras aos setores automobilístico, imobiliário e financeiro, podemos ter uma ideia de como as cabeças propulsoras em torno de Obama funcionam. Eles tentam elaborar programas corajosos, mas sem gigantescas intervenções no mercado como aconteceria, por exemplo, com nacionalizações. Estão equilibrando tantas pressões, de todos os lados, que com frequência saem com esquemas tecnocráticos mirabolantes, que alteram os incentivos de várias maneiras, em pequena e média escala. Alguns economistas argumentam que os planos não são muito eficazes, outros dizem que não são claros (estimativas para o plano imobiliário vão de US$ 75 bilhões até mais de US$ 275 bilhões).
Pessoalmente, odeio a ideia de que dez caras sentados na Casa Branca estejam tentando redesenhar grandes fatias da economia dos EUA em blocos de papel.

Mas pelo menos eles parecem motivados por um espírito de moderação e controle. Parece que estão tentando manter o maior número de estruturas do mercado no lugar, para que as coisas possam voltar ao normal de uma forma relativamente tranquila.

E parece que eles entendem o quadro completo. A economia do país não é só a soma de seus indivíduos. É um contexto entrelaçado compartilhado por todos nós. Para estabilizar essa paisagem comum, às vezes é preciso jogar dinheiro para aqueles que foram tolos ou perdulários. Os idiotas gananciosos podem ser idiotas gananciosos, mas são nossos compatriotas. E de certa forma, estamos todos juntos nisso. Se a vida deles não se estabilizar, tampouco as nossas irão.

Tradução: Eloise De Vylder

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