UOL Notícias Internacional
 

23/02/2009

Prisão de espião choca libaneses por décadas de subversão

The New York Times
Robert F. Worth
Maraj (Líbano)
Por 25 anos, Ali al-Jarrah conseguiu viver de ambos os lados do conflito mais violento de sua região. Para os amigos e vizinhos, ele era um defensor ferrenho da causa palestina, um homem de família afável, de cabelos brancos, que trabalhava como administrador de uma escola próxima.

Para Israel, ele parece ter sido um espião importante, enviando relatórios e tirando fotos clandestinas de grupos palestinos e do Hezbollah desde 1983.

Agora ele está numa cela de prisão no Líbano, acusado pelas autoridades de trair seu país em prol de um Estado inimigo. Meses depois de sua prisão, seus amigos e antigos colegas continuam em choque com a extensão de sua falsidade: as viagens ao exterior cuidadosamente disfarçadas, o dinheiro sem explicação, a segunda mulher em segredo.

Os investigadores libaneses dizem que ele confessou sua carreira de espionagem, espetacular em termos de abrangência e longevidade, um verdadeiro romance de John Le Carre na vida real. Especula-se que muitos agentes de inteligência atuem em meio ao caos civil do Líbano, mas a prisão de Jarrah lançou uma luz rara sobre um mundo de espionagem e subversão que normalmente é mantido em segredo.

A primeira mulher de Jarrah sustenta que ele foi torturado e é inocente; os pedidos para entrevistá-lo foram negados.

De sua casa no vilarejo Bekaa Valley, Jarrah, 50, viajava com frequência para a Síria e para o sul do Líbano, onde fotografava estradas e comboios que poderiam ser usados para transportar armas para o grupo militante xiita Hezbollah, dizem os investigadores. Ele falava com os responsáveis pela operação de espionagem por telefone via satélite, recebendo indicações de lugares para receber dinheiro, câmeras e aparatos de escuta. Ocasionalmente, sob o pretexto de uma viagem de negócios, ele ia para a Bélgica e a Itália, recebia um passaporte israelense, e voava para Israel, onde fazia longos relatos de inteligência, dizem os investigadores.

No começo da guerra entre Israel e o Hezbollah em 2006, os oficiais israelenses chamaram Jarrah para assegurá-lo de que seu vilarejo seria poupado e que ele deveria ficar em casa, disseram os investigadores.

Ele foi por fim preso em julho passado pelo Hezbollah, que hoje talvez tenha o maior aparato de inteligência do país. Ele foi entregue para os militares libaneses - junto com seu irmão Yusuf, que é acusado de ajudá-lo na espionagem - e espera pelo julgamento por um tribunal militar.

Vários oficiais e ex-autoridades militares concordaram em fornecer detalhes sobre o caso sob condição de anonimato, dizendo que não estavam autorizados a falar sobre o assunto antes do início do julgamento. Seus relatos condizem com os detalhes fornecidos por parentes e ex-colegas de Jarrah.

Este não é o primeiro contato da família com a notoriedade. Um dos primos de Jarrah, Ziad al-Jarrah, estava entre os 19 sequestradores que realizaram os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, apesar de os homens terem 20 anos de idade de diferença e aparentemente não se conhecerem bem.

Mark Regev, assessor de imprensa do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, recusou-se a discutir a situação de Jarrah, dizendo: "Não é nosso costume falar sobre alegações desse tipo nesse caso ou em qualquer outro".

Os moradores do vilarejo parecem não acreditar que um homem que conheceram a vida inteira possa ter recebido dinheiro para prestar serviços de espionagem para um país que veem com um misto de ódio e aversão.

Muitos defenderam sua inocência. Mas Raja Mosleh, médico palestino que foi seu colega durante anos numa escola e clínica de saúde próximas daqui, não.

"Nunca suspeitei dele antes", disse Mosleh. "Mas agora, depois de conectar todos os fatos, acho que ele é 100% culpado".

"Ele costumava falar da causa palestina todo o tempo, como apoiava a causa, como apoiava o povo, ele gostava de todo mundo - esse filho de um cão", acrescentou Mosleh, num tom revoltado.

Jarrah com frequência pedia dinheiro emprestado para comprar cigarros, aparentemente posando como um homem de recursos limitados. Os investigadores disseram que ele recebeu mais de US$ 300 mil de Israel por seu trabalho.

Apenas recentemente ele começou a gastar de forma que levantou suspeitas. Cerca de seis anos atrás, dizem os vizinhos, ele construiu uma vila de três andares, com telhado de terracota, que é de longe a maior residência desse modesto vilarejo de casas térreas de concreto.
Do lado de fora há um arco e um pesado portão de ferro, e esses dias havia um pastor alemão fazendo a guarda.

Mosleh perguntou a ele de onde vinha o dinheiro, e Jarrah disse que recebia ajuda de uma irmã que mora no Brasil. É uma desculpa natural no Líbano, onde grande parte da população recebe remessas de dinheiro de parentes que vivem no exterior.

Jarrah também tinha uma segunda mulher em segredo, de acordo com os investigadores e seus ex-colegas. Diferente de sua primeira mulher, Maryam Shmouri al-Jarrah, que vivia em relativa abundância com seus cinco filhos em Maraj, a segunda mulher vivia num apartamento barato na cidade de Masnaa, próxima à fronteira da Síria. Isso aparentemente permitia a Jarrah viajar para perto da fronteira sob o disfarce de um trabalhador local comum.

Jarrah disse que foi recrutado em 1983 - um ano depois que Israel começou uma grande invasão ao Líbano - por oficiais israelenses que o haviam prendido, de acordo com os investigadores. Ofereceram a ele pagamentos regulares em troca de informações sobre militantes palestinos e movimentos de tropas sírias, disseram.

Depois que Israel retirou-se do Líbano em 2000, milhares de libaneses da zona ocupada no sul foram julgados e condenados - principalmente a penas curtas de prisão - por colaborarem com Israel.

Longe da fronteira, uma classe diferente de colaboradores, enraizada em suas comunidades, persistiu. Poucos foram pegos e condenados.

Os motivos de Jarrah continuam sendo um mistério. Ele disse que tentou parar, mas os israelenses não o deixaram, disseram os investigadores.

Tudo chegou ao fim no verão passado. Ele saiu em viagem para a Síria em julho, e quando voltou disse que havia sido preso brevemente pela polícia síria, contou sua mulher. Ele parecia muito inquieto, estava diferente, disse ela.

Ele saiu de casa aquela noite, dizendo que ia viajar para Beirute, e nunca mais voltou, disse a senhora Jarrah. Apenas três meses depois ela recebeu um telefonema do exército libanês dizendo que tinham tomado custódia de seu marido.

Poucas semanas atrás, permitiram que ela o visse, disse. Ele estava com uma aparência péssima, exausto, ela contou.

As forças de segurança do Líbano divulgaram uma foto de Jarrah, tirada antes de sua prisão. Nela, ele aparece contra um pano de fundo azul e branco, vestido com uma camisa preta formal, e sustentando um sorriso enigmático.

Tradução: Eloise De Vylder

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