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23/02/2009

Prisão iraquiana que foi palco de horrores ganha novo ar

The New York Times
Sam Dagher
Em Bagdá (Iraque)
No último sábado (dia 21), o Ministério da Justiça do Iraque permitiu aos repórteres um acesso raro à prisão de Abu Ghraib, que foi parcialmente reformada pelos iraquianos e agora abriga cerca de 400 prisioneiros depois da chegada de uma nova leva na sexta-feira.

O governo iraquiano avançou com o projeto de reabertura da prisão apesar do estigma de anos de tortura e abuso durante o governo de Saddam Hussein e sob o controle americano. O governo disse que precisa de Abu Ghraib, que agora pode comportar até 15 mil presos, para atenuar a superpopulação de outros centros de detenção. As autoridades planejam manter um total de 3 mil presos aqui numa primeira etapa.

As autoridades estavam ansiosas para divulgar uma nova face de Abu Ghraib, que, segundo enfatizaram, está mais focada na recuperação dos presos. As paredes externas do presídio foram pintadas numa cor creme brilhante e bandeiras iraquianas tremulavam na entrada. A estrada que leva ao portão principal foi recapeada e decorada com postes de iluminação coloridos, plantas e flores.

Grandes placas identificavam o conjunto penitenciário pelo seu novo
nome: Prisão Central de Bagdá. Os carcereiros usavam chapéus e uniformes impecáveis da marinha e estavam parados em formação ao longo do tapete vermelho estendido para a ocasião. O tapete levava aos blocos de celas que formam o chamado "hard site" [algo como "ala segura"] da prisão.

Lá dentro, os corredores cheiravam a tinta fresca nas cores lavanda, creme e azul claro. Enfeites brilhantes de festa pendiam das paredes e vasos com flores de plástico se enfileiravam nos corredores. Slogans em caligrafia árabe ornamentada preenchiam as paredes. "Respeitar a dignidade dos internos é um dos nobres objetivos dos serviços correcionais do Iraque", proclamava um deles.

Não havia presos à vista. Todos os 400 - o total aumentou na sexta-feira depois que 120 foram transferidos de Basra, de acordo com o chefe do departamento de serviços correcionais, Sharif al-Murtadha - haviam sido colocados numa sessão fora das vistas dos repórteres, atrás de um portão de metal fechado, coberto com lençóis azuis e vigiado por guardas.

As celas que haviam sido palco de tortura de presos, abuso e humilhação por parte de soldados americanos e mercenários em 2003 e
2004 foram pintadas com tinta creme brilhante. Números arábicos recém-pintados identificavam as celas individuais, que não tinham nada exceto beliches bem instalados. TVs com telas grandes foram colocadas nos corredores do lado de fora das celas; uma delas mostrava um programa de culinária popular de um canal do governo.

Pôsteres com as palavras "Não à tortura" acima de fotos de corpos cheios de escoriações e cortes estavam colados nas paredes.

"Isso aqui era obscuro, dava para sentir o horror", disse Saad Sultan, oficial do Ministério de Direitos Humanos, enquanto andava pelos mesmos corredores que visitara inúmeras vezes a partir de maio de 2004, depois que o escândalo de abuso americano em Abu Ghraib tornou-se público. "Agora tem mais luz, muito mais luz".

Oficiais iraquianos guiavam os repórteres pelas amenidades da prisão, que incluem uma barbearia, uma biblioteca, um laboratório de computação, uma oficina de costura, uma academia de ginástica e um parquinho para os presos passarem tempo com seus filhos durante os dias de visita. "A maioria dos prisioneiros quer aparar a barba agora", diz Haidar Kadhim, 29, um dos barbeiros.

Mas nem todos estão convencidos da mudança de Abu Ghraib, incluindo muitos dos carcereiros. "Isso aqui me lembra do passado", disse um carcereiro que pediu para não ser identificado porque foi proibido de falar com os repórteres. "Odeio esse lugar. É deprimente".

No norte do Iraque no sábado, um oficial de segurança em Mosul disse que as forças iraquianas prenderam 75 pessoas durante batidas em vários bairros da zona leste da cidade. O oficial disse que pelo menos
25 deles estavam sendo procurados em investigações de terrorismo.

As leis antiterrorismo do Iraque fornecem uma grande margem de manobra para prender e condenar suspeitos de terrorismo. Os críticos dizem que elas prejudicam os esforços de reconciliação e colocam mais pressão sobre os tribunais e prisões, que adotam as mesmas práticas abusivas que existiam sob o governo de Saddam.

Um homem e seu filho foram mortos mais tarde num bombardeio numa rua de Karama, um dos bairros do leste de Mosul, disse um policial.

Tradução: Eloise De Vylder

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