UOL Notícias Internacional
 

25/02/2009

Em Israel, judeus e árabes cantam juntos, mas é ouvido o coro político

The New York Times
Ethan Bronner
Em Tel Aviv (Israel)
Achinoam Nini, uma cantora e ativista da paz, há muito provoca controvérsia aqui. Conhecida no exterior por seu nome artístico, Noa, ela já gravou com artistas árabes, se recusou a se apresentar na Cisjordânia ocupada, condenou os assentamentos israelenses ali e cancelou concertos por causa de ameaças de bomba da extrema direita.

Mas ultimamente é a esquerda que está furiosa com Nini. Escolhida por Israel para representar o país no Festival da Canção Eurovision - que neste ano será realizado em maio em Moscou, com uma audiência esperada na televisão de 100 milhões de espectadores - Nini pediu se podia levar consigo sua atual colaboradora artística, a cantora árabe israelense Mira Awad.

O comitê de seleção gostou da ideia de ter tanto uma árabe quanto uma judia na competição pela primeira vez. Mas por coincidir com a guerra de Israel em Gaza e com a ascensão de Avigdor Lieberman, o político ultranacionalista que ameaça os árabes israelenses com um juramento de lealdade, a escolha do comitê foi rotulada por muitos na esquerda e na comunidade árabe como um esforço para embelezar uma situação horrível.

Uma petição começou a circular exigindo que a dupla se retirasse da disputa, dizendo que estavam dando a falsa impressão de coexistência em Israel e tentando proteger o país das críticas que merece. Ela acrescentou: "Cada tijolo no muro desta falsa imagem permite que o exército israelense despeje mais 10 toneladas de explosivos e mais bombas de fósforo".

Nem Nini, 39 anos, nem Awad, 33 anos, se deixaram abalar. Mas como se consideram defensoras da paz, elas ficaram um tanto surpresas. O movimento antiguerra, elas dizem, parece ter se transformado em uma força de apologia ao Hamas. Isto, juntamente com a guinada política para a direita em Israel, significa que apesar das duas estarem sendo enviadas para representar esta sociedade mista e complexa, elas também se sentem abandonadas por ela.

"Eu estou muito preocupada com a inclinação aos extremos tanto no lado israelense quanto no palestino", disse Awad, enquanto ela, Nini e o colaborador artístico delas, o guitarrista Gil Dor, faziam uma pausa no ensaio para discutir a controvérsia. "Esta não é a minha visão de um Estado palestino, um Estado de extremistas religiosos no qual as pessoas das quais eles não gostam são baleadas nas pernas. E então a eleição israelense premiou a direita."

Os três estão preparando quatro canções, dentre as quais uma será escolhida por um painel e um público votante em uma apresentação na televisão, no início de março. Todas as quatro canções foram compostas em partes iguais de hebreu, árabe e inglês, e todas buscam reconhecer a dificuldade inerente na coexistência, em vez de celebrar um Kumbaya mítico.

"E quando choro, eu choro por todos nós, minha dor não tem nome", diz a letra de uma das canções. "Para onde podemos ir daqui? Irmã, tem sido uma longa noite", diz outra.

Awad é um dos 1,5 milhões de cidadãos árabes entre os mais de 7 milhões de habitantes de Israel. Há mais 4 milhões de árabes palestinos na Cisjordânia e Gaza que não possuem Estado próprio.

As duas mulheres já colaboram há quase oito anos. No auge da segunda intifada, há seis anos, elas gravaram uma versão de "We Can Work It Out" dos Beatles, que se transformou em um sucesso internacional.

Awad, filha de um médico árabe da Galiléia e de uma mãe búlgara, mora em Tel Aviv. Ela é mais conhecida em Israel como a atriz que aparece em uma popular comédia da TV, além de atuar ultimamente em uma forte peça teatral a respeito do conflito entre israelenses e palestinos, em cartaz no Cameri Theater, em Tel Aviv.

Mas é Nini que conta com uma verdadeira reputação internacional. Ela já vendeu mais de um milhão de álbuns e conta com um forte público na Europa, especialmente na Espanha, Itália e França, onde se apresenta com frequência. Ela tem uma voz cristalina acompanhada por vocais de apoio judeus iemenitas que dão à sua música uma rica qualidade étnica. Após ter passado sua infância em Nova York, ela fala inglês de forma impecável e combina vários instrumentos e ritmos para produzir música de vários estilos.

"Eu carrego uma bandeira multicultural, rompendo barreiras entre religiões", ela disse. "E também estou envolvida em outras coisas - eu sou uma embaixadora da boa-vontade da ONU. Então me sinto como algo fusion, como Barack Obama."

Nini, apesar de admirada em Israel, é mais popular no exterior. Sua música, diferente daquela da maioria dos astros pop, é menos uma reflexão da sensibilidade de seu próprio país e mais um esforço de expressar algo universal - um motivo para o painel ter achado que ela poderia conquistar a quarta vitória de Israel no Eurovision em três décadas. Os dois principais programas humorísticos de Israel a retratam como mais interessada na Itália do que em Israel, assim como explorando Awad para atender seu interesse próprio.

Awad, de origem interracial, também é uma estranha em sua própria terra, uma cantora e atriz árabe cristã em um país dominado por judeus e muçulmanos.

Isso explica em parte o laço entre elas, dizem as duas mulheres, e também pode explicar a ambivalência com que a escolha delas foi recebida.

Mas o cenário político recente também pesou. Durante a guerra, Nini postou uma carta em seu blog condenando os radicais islâmicos do Hamas e pedindo aos seus "irmãos palestinos" que se unam para eliminar o que chamou de monstro horrível do Hamas. Isto foi amplamente interpretado como um endosso à guerra de Israel em Gaza, apesar de ela ter dito que não.

"O que escrevi foi baseado no que meus amigos palestinos em Gaza me contaram, de que são ameaçados pelo Hamas", ela disse.

Ambas as cantoras e seu colaborador, Dor, disseram que passam muitas horas discutindo o significado de uma nação democrática judaica, o conflito entre israelenses e palestinos e como fazer sua parte para melhorar as coisas.

"Todo mundo é responsável por acrescentar algo em prol da paz e da coexistência", disse Nini. "A nossa contribuição é a música. Nós temos uma amizade real. É claro que discutimos. Mas a beleza é que oferecemos um exemplo de como poderia ser a coexistência."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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