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27/02/2009

Descoberta de vala comum mostra que alemães também foram vítimas na 2ª Guerra

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Malbork, Polônia
A lama úmida se desprende facilmente do longo fêmur que se projeta de uma parede de terra da trincheira, ao leve toque da ponta da pá. Além da vala comum repleta dos esqueletos de cerca de 2 mil pessoas, supostamente alemães que morreram nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, se encontra a fortaleza de tijolos vermelhos dos Cavaleiros Teutônicos, que já foi um dos maiores marcos da Alemanha até o país ser forçado a ceder o território para a Polônia após a guerra.

Antes disso, Malbork era a cidade alemã de Mariemburgo, e as autoridades acreditam que os homens, mulheres e crianças enterrados juntos aqui eram habitantes da cidade, juntamente com refugiados do leste, como de Koenigsberg, atualmente Kaliningrado, que fugiam da devastação do contra-ataque soviético, que posteriormente levaria à captura de Berlim. Várias dezenas de crânios possuem buracos de bala, o que levou à especulação de um massacre quando os primeiros corpos foram encontrados em outubro passado, enquanto a conversa agora se concentra em frio, fome e acima de tudo tifo, que assolava na época.

  • Piotr Malecki/The New York Times

    Cerca de duas duas mil pessoas teriam sido enterradas na vala comum da cidade de Malbork

  • Piotr Malecki/The New York Times

    Descoberta da vala veio à tona por acidente, quando equipes de construção preparavam o terreno para levantar um hotel de luxo

  • Piotr Malecki/The New York Times

    É improvável que a identidade exata das vítimas venha a ser conhecida, mas arqueólogo diz que todos seriam alemães

A Europa conta com uma abundância de valas comuns, um reflexo da escala extraordinária da violência do século passado. Mas por todo o continente o público está mais acostumado aos alemães como perpetradores do que vítimas, e talvez em nenhum outro lugar isto seja mais verdadeiro do que na própria Alemanha.

Mas há sinais nos antigos territórios alemães, como Malbork, de que uma conscientização do sofrimento humano, em particular dos civis, está começando a ganhar força, equilibrando um pouco o antigo rancor de culpa coletiva em relação aos agressores alemães, que começaram a guerra.

"Nós não podemos ficar indiferentes ao que aconteceu aqui", disse Radoslaw Gajc, 30 anos, nascido em Malbork e o funcionário público responsável pela remoção dos corpos. "Claramente é muito importante, e estamos tratamos disto com muita seriedade e respeito", ele disse, acrescentando que ultimamente vem estudando as etapas finais da guerra.

"É algo que realmente despertou muito interesse no público polonês, e mesmo muita compaixão pelas pessoas que morreram", disse Fritz Kirchmeier, porta-voz da Comissão Alemã de Sepulturas de Guerra, que viajou com um colega para Malbork para discutir com as autoridades municipais, na quinta-feira (26), os planos para mover os corpos para um cemitério existente ou a construção de um cemitério na cidade. Em novembro, a autoridade alemã de sepulturas de guerra começou a enterrar os soldados alemães mortos na Segunda Guerra Mundial em um cemitério na cidade de Cheb, na República Tcheca.

Kirchmeier, que há 16 anos faz parte do grupo que cuida dos túmulos de cerca de 2 milhões de mortos na guerra em mais de 800 cemitérios, chama a compaixão local de um novo fenômeno. "Para nós, é um desdobramento que vemos de forma positiva, e um que ainda não era possível há apenas 10 anos", disse.

Isto não quer dizer que a questão do sofrimento alemão não continue sendo um assunto politicamente delicado. Os governos alemão e polonês estão novamente envolvidos em uma disputa em torno dos planos para uma exposição permanente a respeito do destino dos alemães que foram expulsos de seus lares. A disputa é considerada importante o bastante para um porta-voz da chanceler alemã, Angela Merkel, ter dito que ela provavelmente discutirá o assunto com o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, quando se encontrarem em Hamburgo.

Após a Segunda Guerra Mundial, mais de 12 milhões de pessoas de etnia alemã, e segundo algumas estimativas até 16,5 milhões, foram deslocadas por toda a Europa central e oriental, e mais de 2 milhões teriam morrido no processo frequentemente violento. A vala comum daqui foi noticiada pela imprensa alemã, mas do modo contido habitual, porque as discussões sobre o sofrimento alemão provocam fortes respostas entre as vítimas da agressão de Hitler e um sabor de revanchismo para um público sensível ao emaranhado complexo de lembrança e culpa.

"Tudo depende desta noção de culpa universal, de que as atrocidades de Hitler foram tão grandes que nada pode ser dito em defesa dos alemães", disse Giles MacDonogh, um historiador britânico e autor do livro "After the Reich" (2007), que detalhou o sofrimento da população alemã durante a ocupação do pós-guerra pelos aliados. "Ainda há este sentimento de que não é intelectualmente respeitável, não é socialmente respeitável, se estender nestes assuntos."

A vala comum em Malbork veio à tona por acidente, quando equipes de construção preparavam o terreno para levantar um hotel de luxo. A construção faz parte de um plano maior de desenvolvimento da área, incluindo a construção de uma nova fonte moderna, completa com música e luzes, que faz com que os operários quebrem as ruas do centro, a uma curta distância da vala comum.

De fato, os corpos não estavam escondidos em uma floresta ou campo agrícola distante da cidade, mas bem no seu centro histórico, bem em frente a uma das maiores atrações turísticas da Polônia. Inicialmente os operários encontraram apenas aproximadamente 70 esqueletos, que foram enterrados em um cemitério local. Então uma tempestade arrastou um volume maior do solo, revelando vários ossos adicionais, incluindo outro crânio. Uma busca sistemática pelos restos mortais teve início, que ainda prossegue e até esta semana já encontrou mais de 1.900 corpos.

Como os mortos foram enterrados nus - com apenas dois pares de óculos sendo os únicos objetos pessoais encontrados entre todos os corpos na vala - é improvável que a identidade exata das vítimas venha a ser conhecida. Mas o arqueólogo local encarregado do sítio, Zbigniew Sawicki, disse em uma entrevista que quase com certeza a maioria dos corpos era de alemães.

A maioria das vítimas parece ser civil, não soldados, ele disse, e havia poucos poloneses vivendo na área durante a guerra; eles vieram depois, a maioria à procura de novos lares por ter sido expulsa de suas terras naquele que era o leste da Polônia antes da guerra, e que agora é o oeste da Ucrânia. "As pessoas aqui têm a mesma história, a mesma experiência de deslocamento, de serem expulsas de sua terra natal", disse Piotr Szwedowski, uma autoridade municipal.

Sentado em um carro, com os limpadores de pára-brisa removendo a mistura de neve e chuva que caía no local da vala comum, Szwedowski, 43 anos, que tem avó alemã, disse que há uma coisa da qual sempre tenta se recordar.

"Nós esquecemos que por trás de cada um deles havia uma pessoa", ele disse, "uma pessoa com corpo e alma".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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