UOL Notícias Internacional
 

27/02/2009

Livro exibe visão pouco lisonjeira de colombiana refém dos guerrilheiros

The New York Times
Simon Romero
Em Caracas, Venezuela
Ingrid Betancourt, a política colombiana aristocrática saudada como heroína no ano passado após suportar anos como refém de guerrilheiros marxistas, é descrita como uma companheira de cativeiro egoísta e arrogante em um livro de memórias de três americanos que trabalhavam para as forças armadas e que foram mantidos nos campos na selva com ela.

"Eu não quero atacá-la, mas a verdade é muito selvagem", disse Keith Stansell, 44 anos, um ex-marine e um dos autores do livro, "Out of Captivity" (fora do cativeiro), que foi lançado na quinta-feira. "Nós fomos muito infectados pelo comportamento dela na selva", ele disse em uma entrevista por telefone de Nova York. "Agora eu só quero me imunizar."

De fato, Stansell e seus co-autores, Thomas Howes e Marc Gonsalves, oferecem um retrato bem diferente de Betancourt no livro de 457 páginas do que a imagem aceita fora da Colômbia, como uma vítima de sequestro sofredora que resistiu nobremente aos seus captores, desde que foi levada em 2002.

Em uma operação ousada em julho passado, comandos colombianos resgataram Betancourt, os três americanos e 11 outros reféns dos braços das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc. A operação de resgate deu grande projeção a Betancourt, uma ex-candidata presidencial na Colômbia que agora está vivendo na França.

O livro dos americanos é principalmente um relato da captura deles pelas Farc e sua sobrevivência em meio a marchas pela selva, uma série de doenças tropicais e serem acorrentados uns aos outros para desencorajar a fuga.

O livro também retrata Betancourt como buscando se colocar no topo da hierarquia dos reféns, acumulando roupas usadas e escrevendo textos alheios, determinando os horários de banho, escondendo informação de um rádio que ela furtou, até mesmo surtando por causa da cor do colchão que recebeu. (Era azul claro).

"Ela mancava tanto com uma perna que ao tentar acender um cigarro, ela mal conseguia manter o fósforo aceso", disse Gonsalves, 36 anos, em uma história no livro sobre o rádio escondido no livro. "Olhando nos olhos, Keith lhe disse que a menos que começasse a compartilhar a informação do rádio com o restante de nós, ele a entregaria."

Betancourt não quis comentar o assunto na quinta-feira, apesar das repetidas tentativas de contatá-la por meio de sua assistente em Paris, seu agente literário e sua mãe, Yolanda Pulecio, também uma proeminente política colombiana.

Em uma entrevista em julho passado em Paris, Betancourt tocou no assunto dos americanos, dizendo: "Eles passaram por condições muito duras, e quando foram colocados no nosso grupo, eles encontraram uma forma de compartilhar com os demais o que achavam que estava acontecendo apenas com eles".

Desde o resgate, boatos de disputas internas entre os reféns surgiram na Colômbia, notadamente entre Betancourt e sua ex-assessora, Clara Rojas, que foi sequestrada com ela em 2002, engravidou no cativeiro e então deu à luz um menino, Emmanuel, em um parto por cesariana realizado pelos rebeldes.

Apesar das duas mulheres agora viverem em liberdade, pessoas ligadas a Rojas, que está escrevendo seu próprio livro sobre o cativeiro, disseram que o relacionamento entre ela e Betancourt continua estremecido.

Outro ex-refém, Luis Eladio Perez, que formou um laço estreito com Betancourt na selva, insinuou sobre a tensão entre os reféns em um livro no ano passado. Perez disse que isso ocorreu por causa da proeminência de Betancourt, uma filha de um diplomata e uma ex-miss.

"Ingrid é uma pessoa que gera muita inveja", escreveu Perez, um ex-legislador colombiano, no seu livro. "Nem mesmo o sequestro removeu este karma, ainda mais por 90% das notícias que ouvíamos sobre o sequestro falarem dela, como se o restante de nós não existisse."

Perez se recusou a comentar na quinta-feira sobre os relatos dos três americanos, cujo avião caiu em território das Farc em 2003, explicando que ainda não tinha lido o relato deles.

Apesar de Stansell oferecer a avaliação mais dura de Betancourt, um de seus companheiros, Gonsalves, tem outra visão dela. No livro, ele descreve a amizade calorosa entre eles, mesmo uma atração um pelo outro, "duas pessoas na selva tentando lidar com uma química precária de sentimentos".

Apesar de Gonsalves descrever no livro um desentendimento posterior com Betancourt em torno de uma correspondência que ela exigiu que ele devolvesse, ele disse que mantém contato com ela até hoje. "Eu não tenho nenhum sentimento negativo em relação a ela", ele disse em uma entrevista por telefone. "Eu posso perdoar muitas coisas menores."

Mas Gonsalves reconheceu que seus companheiros a viam de modo diferente, a certa altura descrevendo Stansell no livro como vendo Betancourt "como se ele tivesse dado uma mordida em uma fruta podre". Stansell se referia a ela como uma "princesa" que "acha que as Farc construíram este castelo apenas para ela. Quanta arrogância".

Parte das acusações contra Betancourt não pode ser confirmada, como a afirmação de um dos rebeldes para Stansell de que ela escreveu uma carta às Farc alegando que ele e os outros americanos eram agentes da CIA. Foi por este motivo, o guerrilheiro teria dito a Stansell, que ela pediu que os americanos fossem separados do acampamento na selva.

Mas comentando novamente sobre suas alegações a respeito do comportamento de Betancourt no cativeiro, Stansell, que vive em Brandenton, Flórida, e voltou a trabalhar na Northrop Grumman, sua empregadora na época de sua captura, disse que confirma tudo aquilo que escreveu no livro.

Mesmo no dia do resgate, Stansell resumiu sua posição a respeito dela com resignação amarga. "Eu posso deixar para trás quase tudo, mas não sei a respeito de Ingrid", ele escreveu. "Perdoar? Sim. Seguir em frente? Sim. Respeitar? Não."

Jenny Carolina Gonzalez, em Bogotá, e Steven Erlanger, em Paris, contribuíram com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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