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27/02/2009

Orçamento de Obama é uma grande aposta

The New York Times
John Harwood
Em Washington (EUA)
O orçamento do presidente Barack Obama - independentemente do que mais a medida seja - é uma aposta política de primeira ordem.

Na sua ambição de colocar a sua própria marca no liberalismo e de deslocar a política doméstica para a esquerda, Obama apostou alto.

A nação parece estar ansiando por liderança, e a situação política dele é forte. Em uma era na qual os contribuintes e os mercados estão se defrontando com números ruins na casa dos trilhões de dólares, os preços de algumas de suas iniciativas não parecem tão exagerados e, de qualquer forma, a boa política econômica exige que as porteiras fiscais permaneçam abertas por algum tempo. A fúria populista poderia fazer com que a argumentação republicana contrária à cobrança de impostos dos ricos se tornasse menos poderosa.

Relação entre Obama e Congresso
dos EUA tem tropeços e acordos

Mas Obama enfrenta vários obstáculos. Ele está pedindo ao Congresso que debruce-se sobre um conjunto amplo de questões complicadas de uma só vez, após anos durantes os quais os parlamentares tiveram dificuldade em lidar diretamente com quase todas essas questões. O próprio partido dele continua escaldado pela última vez em que seguiu um novo presidente democrata em uma rota de aumento de impostos e de engenharia social ambiciosa. Os grupos de interesse, embora demonizados pela Casa Branca, não saíram de Washington e já estão se mobilizando para batalhas que poderão ter grandes vencedores e perdedores.

"Assim como Ronald Reagan e Franklin Delano Roosevelt antes dele, Obama conta com a vantagem da crise", afirma o deputado Tom Cole, republicano pelo Estado de Oklahoma. "A política do país está mudando profunda e rapidamente, como ocorreu em 1932 e em 1980. No entanto, se ele estiver equivocado, e eu acredito que está, os democratas pagarão um enorme preço político".

Determinar se Obama exagera na dose ou se terá sucesso em colocar a nação em uma rota drasticamente diferente é algo que dependerá bastante daquelas mesmas habilidades políticas que o conduziram à presidência.

Traduzir a visão enraizada no seu orçamento em um projeto legislativo que possa assinar, transformando-o em lei, exigirá a montagem de coalizões no Congresso baseadas em cada questão específica, e em manter o seu próprio partido unido enquanto desgasta os republicanos aqui e ali. Para manter a pressão sobre o Congresso, ele terá que manter a opinião pública a seu favor durante aquela que poderá ser uma recessão longa e profunda, e no decorrer da aplicação de medidas necessárias, mas impopulares, como a alocação de mais centenas de bilhões de dólares do contribuinte para o resgate de bancos.

"A crise econômica destruiu a credibilidade das premissas que dominavam o debate público desde o final da década de 1970", afirma William Galston, que foi assessor de políticas da Casa Branca durante o governo do presidente Bill Clinton. "Isso não significa que Obama tenha convencido a todos quanto à sua alternativa. Quer dizer apenas que ele conta com uma abertura para defender as suas propostas".

Essas premissas políticas da era Reagan emergiram em grande parte de um fenômeno conhecido como estagflação, no qual a inflação alta e o crescimento lento durante a década de setenta prejudicaram o aumento do padrão de vida que as famílias norte-americanas vinham desfrutando desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com os maiores índices de impostos na época na faixa dos 70%, o movimento conservador liderado por Reagan prevaleceu ao persuadir os eleitores das classes média e alta de que estes seriam beneficiados por reduções de impostos, das regulações e dos gastos governamentais com programas sociais.

Clinton contestou essas premissas durante a década de 1990, promovendo uma combinação de aumentos de impostos, redução do déficit e "investimentos" em serviços de saúde e outras prioridades que prenunciaram a abordagem de Obama. Mas a intensidade da guinada política do país rumo aos mercados e para longe do governo prejudicou a sua agenda. Os parlamentares republicanos bloquearam os seus gastos de "estímulo" e assumiram controle sobre o Congresso um ano após Clinton ter feito pressões pela aprovação dos aumentos de impostos, e em breve ele declarou: "A era do grande governo acabou".

Agora Obama está argumentando que uma era de domínio republicano gerou um conjunto de problemas econômicos e sociais que exigem um governo mais ativo, capaz de restaurar a justiça no modelo norte-americano de capitalismo democrático.

Cidadãos norte-americanos apavorados têm visto as suas poupanças de aposentadoria declinarem juntamente com o índice médio industrial Dow Jones, o que tem gerado apetite pelo auxílio governamental, em vez dos caprichos do mercado. Eles enfureceram-se com aqueles que consideram responsáveis pelo problema, sobremaneira as corporações e os executivos que as administram e que recebem salários fabulosos.

"A população está pronta para uma nova onda de ativismo e para pagar por esta onda, em parte, com o aumento dos impostos daqueles que poderiam ser chamados de ricos que não fazem por merecer a riqueza", afirma Will Marshall, assessor político da ala centrista e pró-empresarial do Partido Democrata.

Tony Fabrizio, analista de pesquisas republicano, diz: "Se a batalha consistir em afirmar, 'Você poderá ter serviços de saúde gratuitos caso possamos cobrar mais impostos dos ricos que ganham mais de US$ 250 mil por ano', a maioria dos cidadãos dirá, 'Onde é que eu assino para receber esses benefícios gratuitos?'".

Porém, o mesmo eleitorado também passou a se convencer de que grande parte dos gastos do governo é um desperdício. Além do mais, os ataques aos aumentos de impostos desejados pelos democratas, ataques estes que mostraram-se tão eficientes para Reagan e, a seguir, para os parlamentares republicanos sob a liderança de Newt Gingrich no início do governo Clinton, não perderam a sua potência. "Este é um território perigoso no qual pode se dar um passo longe demais", adverte Mark Mellman, um especialista democrata em pesquisas de opinião.

Os republicanos começaram a vasculhar o orçamento de Obama em busca de munição para convencer os eleitores da classe média de que eles sairão perdendo.

O assessor de Obama, David Axelrod, previu que o presidente seria protegido dos efeitos políticos colaterais pela sua decisão de direcionar os aumentos de impostos para os mais afluentes; de concentrar-se em prioridades há muito negligenciadas como energia, educação e serviço de saúde; e de monitorar atentamente a eficácia dos programas de governo.

Ao ser questionado a respeito das acusações dos oponentes, que criticam a política de "taxar e gastar", Axelrod retrucou: "Não se deve ficar preso a uma estrutura antiga".

Uma nova estrutura encontra-se no formato do eleitorado da era Obama. Por motivos que em muitos casos não estão relacionados à economia, como questões sociais ou a Guerra do Iraque, muitos desses contribuintes afluentes que o presidente democrata deseja que financiem a sua agenda entram no debate como seus apoiadores políticos, e não como adversários.

Na eleição de novembro do ano passado, as pesquisas de boca de urna revelaram que Obama derrotou por 52% a 46% dos votos o seu oponente republicano, o senador John McCain, do Arizona, no grupo formado pelos eleitores com renda anual superior a US$ 200 mil.

Tradução: UOL

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