UOL Notícias Internacional
 

28/02/2009

Uma capital têxtil da China é atingida pela recessão global

The New York Times
David Barboza*
Em Shaoxing (China)
Esta era uma cidade construída pela globalização.

Há não muito tempo, 20 mil fábricas têxteis e de vestuário atuavam aqui, lotadas com operários costurando e bordando por seis, às vezes sete dias por semana para produzir os produtos vendidos por grandes empresas de varejo americanas como Gap e Wal-Mart.

Agora, a demanda está em queda nos Estados Unidos, e assim Shaoxing, uma cidade litorânea que é um dos maiores centros têxteis do mundo, caiu vítima da recessão mundial.

As fábricas daqui estão fechando. Alguns chefes fugiram da cidade, deixando milhares de trabalhadores desamparados. E outros proprietários estão preocupados com o crescente endividamento e a perspectiva de falência.

Qian Jin, um especialista do setor, disse que as empresas têxteis chinesas estão repentinamente em "uma luta pela sobrevivência". Um alerta de Pequim em dezembro passado também foi preocupante: até dois terços das empresas têxteis e de vestuário do país poderiam falir.

"Nós vimos as encomendas caírem em um terço nos últimos meses", disse Yang Baolin, presidente da Siris Knitting Company, que opera uma fábrica em Shaoxing com cerca de 1.800 funcionários. "Todos os exportadores estão em dificuldades."

E os problemas na indústria têxtil são apenas o início. A economia antes vigorosa da China está experimentando sua mais forte desaceleração em três décadas. Até 20 milhões de trabalhadores migrantes já estariam desempregados. E com manifestações devido ao fechamento de fábricas já ocorrendo em várias cidades costeiras, cresce a preocupação em Pequim com a inquietação social e política.

O governo já anunciou um pacote de estímulo econômico de US$ 586 bilhões para ajudar a manter as fábricas funcionando. Algumas empresas estatais estão recebendo ordens de não demitirem trabalhadores. Montadoras de automóveis, construtoras de navios e fabricantes de eletrônicos foram escolhidos para receberem ajuda do governo.

Mas poucos setores são tão cruciais para a economia da China quanto a indústria têxtil e de vestuário de US$ 450 bilhões -prova do prodígio comercial global da China e símbolo de seu modelo de desenvolvimento, que é baseado em exportações de baixo custo.

No ano passado, a indústria foi responsável por US$ 153 bilhões dos US$ 300 bilhões de superávit comercial da China, muito mais do que qualquer outro setor, que atualmente emprega mais de 20 milhões de trabalhadores, a maioria trabalhadores migrantes das províncias mais pobres do país.

Por estes motivos, Pequim tem dado atenção às dificuldades do setor.

"Esta indústria absorve muita mão-de-obra, o que é importante para a estabilidade social", disse Sun Ruizhe, vice-presidente do Conselho Nacional Têxtil e de Vestuário da China.

Especialistas dizem que o que acontecer em cidades como Shaoxing poderia ser um barômetro para o comércio da China e uma janela para suas condições sociais.

Shaoxing, a cerca de 160 quilômetros de Xangai, ascendeu nos anos 80, à medida que suas plantações de arroz se transformaram em pequenas empresas que produziam fibras químicas como nylon e tecidos tingidos para grandes nomes do varejo.

Logo, centenas e então milhares de fábricas têxteis ganharam vida. A população da cidade cresceu para 4 milhões, à medida que centenas de milhares de trabalhadores migrantes de várias províncias da China vinham para cá para viver nos dormitórios das empresas e trabalhar longas horas.

Hoje, nenhuma cidade na China tem uma concentração tão grande de produtores de tecidos e vestuário, disseram representantes do setor. As vendas no imenso mercado de produtos têxteis da cidade, um amplo shopping que atrai 100 mil visitantes por dia, chegaram a US$ 9 bilhões no ano passado, segundo o governo local.

Com o boom vieram novas estradas, concessionárias da BMW e Lexus, vilas à beira do lago e residências de luxo, com nomes como "Global New York", "Victoria Gardens" e "Money King Tower".

"Esta cidade tem milionários demais", disse Zhang Guowei, o gerente geral de 37 anos da Tiansheng Holdings, uma das maiores produtoras de lã de Shaoxing.

A experiência de Zhang é uma história típica de pobreza à riqueza em Shaoxing. Há 20 anos ele era um mecânico, ganhando cerca de US$ 4 por mês. Agora ele dirige um Mercedes, fala sobre enviar sua filha para cursar uma faculdade no exterior e se gaba do tremendo crescimento de um complexo fabril aqui, que conta com 3 mil funcionários, um dormitório para os operários, um cinema e quadras de tênis e basquete.

A Tiansheng importa lã da Nova Zelândia, a converte em fio, lava, tinge e corta em peças que posteriormente serão usadas para produzir casacos, calças e outras peças de vestuário. Os funcionários da empresa ganham cerca de US$ 1 por hora ou menos.

Até mesmo Zhang diz estar passando por dificuldades, mas espera que sua empresa sobreviva com a ajuda do governo.

Já em 2007, a alta do petróleo começou a pressionar uma alta do custo das fibras químicas que são usadas para produzir as roupas de nylon.

O aumento do preço do carvão tornou a operação da fábrica mais cara. E quando a moeda da China, o yuan, sofreu forte valorização frente ao dólar no início de 2008, as fábricas se queixaram de serem pagas pelas exportações em uma moeda cada vez mais fraca.

Para aumentar os problemas, uma nova lei trabalhista e forte disputa pelos trabalhadores migrantes fortes provocaram um aumento salarial de mais de 30% nos últimos dois anos.

Além disso, os compradores americanos e europeus de tecidos e vestuário passaram a esperar preços mais baixos a cada ano.

"Eles estabelecem um preço mais barato e dizem: 'É pegar ou largar'", disse Yang Lairong, gerente geral da Jinchan Home Textile and Garment Company, que produz cortinas e outros produtos têxteis para o lar para o Wal-Mart e J.C. Penney. "Nós estamos realmente sendo espremidos."

Preocupada com a desaceleração nas fábricas, Pequim respondeu com uma série de medidas que visam apoiar os produtores de têxteis -incentivos fiscais, restituições, empréstimos a juros baixos por bancos estatais aos donos das fábricas e redução da taxa de água, entre outras.

Em outubro passado, Pequim até mesmo enviou uma de suas principais autoridades para Shaoxing para pedir aos líderes locais que enfrentem a desaceleração.

"Nós devemos enfrentar corajosamente as dificuldades atuais", disse o primeiro-ministro Wen Jiabao em um discurso na época, durante uma visita às fábricas da cidade.

Mas de lá para cá a situação piorou. O chefe do Jianglong Group, uma das maiores fábricas de tingimento de Shaoxing, fugiu em novembro, deixando para trás 4 mil trabalhadores e mais de US$ 200 milhões em dívidas.

Os credores imploraram por ajuda do governo e os trabalhadores realizaram manifestações.

Alguns representantes do setor disseram que a indústria têxtil da China continuará prosperando, particularmente devido a cidades como Shaoxing -os chamados centros têxteis que dominam uma ponta específica do setor ao se especializarem e competirem ferozmente nos preços.

"Nós estamos confiantes de que a China ainda tem a vantagem", disse Qian, o especialista do setor em Pequim. "Nós temos cidades especializadas em calçados, meias e outros itens. Shaoxing é especializada em tecidos de fibras químicas e também em tingimento. Os países do Sudeste Asiático não possuem uma cadeia integrada completa, de forma que não podem competir conosco."

Mas muitos especialistas preveem que milhares de fábricas poderão fechar na desaceleração, desferindo um duro golpe a uma cidade acostumada à prosperidade.

Shen Ye, o proprietário da Jinyu Textile Import and Export Company, cujas encomendas caíram até 80%, disse que algumas fábricas em dificuldades estão desesperadas, mas com medo de pedir falência. "Se uma fábrica pede falência, ela precisa pagar os impostos ao governo, os salários aos empregados ou o dinheiro devido ao banco", ele disse. "O que sobrar vai para os credores privados. E quanto pode sobrar? Nada! Para não apanharem até a morte, eles precisam fugir."

* Xie Qing contribuiu com pesquisa em Xangai.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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