UOL Notícias Internacional
 

01/03/2009

Romênia mostra indiferença quanto à lembrança de seu passado

The New York Times
Michael Kimmelman
Bucareste, Romênia
Qual é o valor da arte?

Em tempos de recessão é fácil confundir custo com valor. Pode-se também dizer que esta é a diferença entre dinheiro e cultura, o preço de alguma coisa e algo que não tem preço.

Ao que parece, os romenos têm uma tendência a confundir os dois desde antes mesmo da revolução que derrubou o ditador comunista do país, Nicolau Ceaucescu, e executou ele e sua mulher, Elena, há quase 20 anos.

Isto explicaria por que os romenos mal piscaram os olhos quando os tribunais daqui determinaram recentemente que as obras de arte que a família Ceausescu possuía deveriam ser restituídas ao único filho sobrevivente de Nicolau, Valentin.

Entre as obras, estão principalmente pinturas romenas, mas também algumas gravuras de Goya. A decisão não foi muito semelhante à dos tribunais alemães que entregaram as obras de arte do Berchtesgaden para parentes de Hitler. Mas chegou perto disso.

Valentin Ceausescu, médico de 60 anos e fala mansa que nunca ajudou a comandar o regime de seu pai, disse que as obras que queria de volta pertenciam a sua própria ex-mulher, Iordana, historiadora da arte e filha de um ex-líder comunista. O pai de Valentin, que não aprovou o casamento, expulsou-a para o Canadá.

Outras obras que foram devolvidas, entretanto, pertenciam ao irmão de Valentin, Nicu, um personagem detestado quando era o herdeiro óbvio do ditador. Ele morreu de cirrose em 1996, aos 45 anos. (A filha de Ceaucescu, Zoe, que também tinha algumas obras, morreu de câncer no pulmão em 2006, aos 57 anos).

No fim das contas, é claro, tudo o que pertencia à família de Ceausescu, um ex-aprendiz de sapateiro num vilarejo de camponeses, foi obtido com os privilégios do poder.

O caso passou por muitas reviravoltas ao longo de sete anos. Valentin argumentou no tribunal que os bens que lhe haviam sido confiscados depois da deposição do pai não eram propriedade do governo - a despeito do fato, argumentado pelo Estado, de que nenhum dos Ceausecu nunca tivesse documentado suas posses adequadamente, da mesma forma que o regime obrigava todos os romenos a fazer.

Uma sobrancelha ou duas podem ter se erguido quando o tribunal por fim concordou com Valentin, pelo menos entre os romenos que ainda se lembravam de como o ditador enriqueceu sua casa, seus familiares e outras pessoas próximas ao confiscar obras de arte e propriedades de inúmeros compatriotas.

Mas a falta de indignação por aqui diz muito sobre a dicotomia dinheiro versus cultura que vive o país. Com a maioria da população vivendo com dificuldade, os romenos admiram muito mais a iniciativa privada do que valorizam qualquer vaga noção de patrimônio artístico.

"Desde a revolução o país só pensa em iniciativa privada", diz Cristian Stanescu, jornalista que cobriu o julgamento para um jornal local, "The Guardian". Ele concorda com o que outros aqui dizem: "Os romenos simpatizam com Valentin porque ele usou o sistema para sua vantagem pessoal. Nossa idéia de cultura agora é fazer dinheiro. Ainda temos muitas necessidades básicas para nos preocuparmos com coisas tão elevadas como a arte e o Estado".

Alin Ciupala, um jovem e ponderado pesquisador de História Romena na Universidade de Bucareste, explica a indiferença de seus compatriotas em relação ao seu patrimônio artístico de outra forma: "Na Romênia de Ceausescu não existia, como na União Soviética ou na Tchecoslováquia, um movimento de contracultura. Não havia uma cultura samizdat [imprensa subversiva soviética]. E, portanto, nunca existiu uma versão de liberalismo cultural, ou de resistência cultural. Os intelectuais eram oportunistas. O instinto de sobrevivência sempre foi bastante desenvolvido nesse país."

"Se o tribunal tivesse concedido grandes castelos ou terras a Valentin, poderia ter provocado uma reação e reduzido a simpatia do público por ele. Mas pinturas e gravuras, obras de arte? Isso não significa muito para a maioria dos romenos".

As obras que o tribunal concordou em entregar a Ceausescu ainda estão guardadas no Museu de Arte Nacional desde que foram confiscadas anos atrás. O lote de pinturas, cerca de 40, tem um valor avaliado de pouco menos de US$ 1 milhão, mas é apenas uma estimativa.

Fora Goya, os autores mais conhecidos das obras devolvidas, Victor Brauner e Theodor Pallady, não são exatamente grandes nomes fora do país. Assim como Valentin Ceausescu e sua mulher, mas por razões bem diferentes, Nicolae e Elena Ceausescu também reuniram trabalhos de artistas romenos, principalmente de pré-modernos e realistas socialistas. Entretanto, na época em que o líder comunista estava cortejando Richard M. Nixon e Charles de Gaulle durante os anos 60, o Estado tolerou oficialmente a arte moderna para satisfazer o Ocidente. Por um breve momento, abriu-se uma janela para os artistas romenos verem o que estava acontecendo nos EUA e na Europa Ocidental.

Mas na época a cultura era apenas uma ferramenta política, e a janela eventualmente fechou. Depois que Ceausescu visitou Pyongyang na Coréia do Norte, decidiu reconstruir sua própria capital. Como resultado, a maior parte do centro histórico de Bucareste foi varrido para dar lugar a projetos grotescos e grandiosos que ainda enfeiam o centro da cidade, e os bajuladores mantinham um verdadeiro exército de artistas aprovados pelo governo ocupados, pintando retratos de Ceausescu e sua mulher, aos milhares. Obras que foram parar nos prédios públicos e nas várias casas do ditador, que adorava ganhar pinturas de si mesmo de aniversário, mostrando o quanto o povo romeno gostava dele. Ceausescu construiu um prédio inteiro para guardar esses retratos.

Recentemente, o Museu Nacional de Arte Contemporânea expôs alguns desses retratos. Mihai Oroveanu, diretor do museu, pendurou-os numa galeria - diagonalmente, para deixar claro que a mostra não era um tributo.

Cenas grandes e coloridas num estilo kitsch-comunista mostravam o ditador e sua mulher sorrindo diante de multidões reverentes de trabalhadores, recebendo flores de soldados femininos de rosto enrubescido, e usando terno branco estilo anos 70 que, assim como o chapéu de inverno que Ceausescu transformou item necessário para todos os comunistas fiéis, tornou-se o ponto alto da moda romena durante algum tempo.

Radu Filipescu, ex-dissidente preso e torturado sob o regime de Ceausescu por distribuir propaganda antigovernista, lembrou-se da vida na Romênia na época. "Os livros mais interessantes que li foram na prisão", disse numa noite recente, dando risada. "Não havia muito mais a fazer". Mas ele também falava sério.

"Hoje os romenos estão totalmente consumidos pela competição e pelo dinheiro", explicou. "É mais fácil para eles guardar memórias boas do passado, quando a vida com certeza não era melhor, mas de certa forma não era tão difícil. Eles não querem se preocupar com Ceausescu nesse momento".

Toda a Europa se confronta com o século passado, em ritmos diferentes.
Uma geração de espanhóis debate a exumação dos túmulos de republicanos mortos durante a ditadura de Francisco Franco, mais de três décadas depois de sua morte; a França e a Polônia ainda não confrontaram totalmente seus papéis dúbios durante a Segunda Guerra Mundial. A Alemanha tem dificuldades em abordar o legado de sua divisão, 20 anos depois da queda do muro.

Aqui, fora Ceausescu e sua mulher, poucos romenos foram processados pelo que aconteceu durante a era Ceausescu. Ninguém passou mais do que poucos anos na prisão.

"É absurdo restituir as obras ao filho do ditador", disse Stejarel Olaru. Ele supervisiona o Instituto para Investigação de Crimes na Romênia, patrocinado pelo governo. "Mas as pessoas não ligam".

Então resta a Valentin Ceausescu, dentre todos, lidar com o passado.
Ele concordou em encontrar-se conosco numa tarde num restaurante quase vazio fora de Bucareste. Nervoso e na defensiva, ele enfatizou que as obras que seus pais tinham em casa foram emprestadas de museus estatais. Os trabalhos que ele lutou para reaver, os únicos com os quais ele se importa de verdade, diz, eram parte de uma coleção particular dele e de sua ex-mulher.

"Eu estava defendendo meu nome", disse. "Essas obras foram parte do meu passado, da minha vida. Algumas foram presentes de um pintor amigo meu".

Se o museu obedecer à ordem do tribunal e devolver as pinturas, o que ele ainda duvida, Ceausescu planeja dar a maior parte das obras para Iordana, ficar com duas ou três para si próprio, mas não pretende vender nenhuma.

A questão nunca foi o lucro, disse o filho do ditador morto. Era justiça.

"Minha reivindicação não era por dinheiro", ele quis deixar claro. "A questão era que deveria haver um julgamento justo".

Tradução: Eloise De Vylder

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