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02/03/2009

A busca para mapear a planta da cidade perdida na Venezuela

The New York Times
Simon Romero
Em Cubagua, Venezuela
Os primeiros seres vivos a receberem o visitante nesta ilha deserta são os cães. Mais de uma dúzia perambula pelas ruínas de Nueva Cádiz, como se sinalizassem que a cidade que floresceu aqui há cinco séculos, no início da conquista espanhola, agora pertencesse a eles.

Em meio aos uivos, uma placa descorada ao lado de uma pilha de lixo descreve brevemente a ascensão e queda de Nueva Cádiz, um centro escravista em 1515 e do primeiro boom frenético de commodities na América Latina, no caso as pérolas. Em 1541, diz a placa, "o esgotamento das ostras colocou um fim à cidade".

O mesmo ocorreu em Cubagua. Antes do conquistador Hernán Cortés ter saqueado as riquezas do império asteca do México, a Espanha estabeleceu um próspero posto avançado aqui, em uma das ilhas mais desoladas das Antilhas Menores, que é tão seca que água precisa ser importada do continente e das ilhas próximas (como ocorria com Nueva Cádiz).

Os espanhóis enviavam os escravos para cá e matavam os grupos étnicos caribenhos, como os lucaios trazidos das Bahamas como pescadores de pérolas. Os espanhóis abriram avenidas e construíram uma imponente cidade de pedra calcária, visando servir como base para conquista do restante da América do Sul. Então, repentinamente, ela foi abandonada.

Nueva Cádiz agora está praticamente esquecida, mesmo na Venezuela. Estudiosos ocasionalmente aparecem para um vislumbre do início da conquista espanhola, e arqueólogos às vezes obtêm permissão para escavar aqui. Apesar disso, as ruínas em Cubagua, que podem estar entre os sítios arqueológicos pós-colombianos mais importantes nas Américas, são de uma cidade perdida -na prática, mesmo que não nominalmente.

"Até hoje eu não entendo por que alguém construiria uma cidade aqui", disse Enrique Suárez, um pescador de 60 anos que vive em uma casa, feita de madeira trazida pelo mar e folhas-de-flandres descartadas, à beira das ruínas.

Vulneráveis aos elementos e aos saqueadores do continente, as muralhas da cidade agora não chegam a um metro de altura. Um marco histórico de concreto, erguido no início dos anos 90, está depredado por vândalos.

Toda a população de Cubagua chega atualmente a menos de 100 pessoas, todos pescadores como Suárez e suas famílias. Eles vivem do que pescam, no caso de Suárez, em uma recente manhã, de uma arraia que ele estava secando ao sol escaldante. Posteriormente ele disse que prepararia a arraia com sal e alho.

Para diversão, ele cria galos de briga e alimenta cães selvagens. Além de seu pequeno barco, seu único laço com o continente parecia ser uma bandeira vermelha em seu telhado, com as letras PSUV -a sigla do partido socialista do presidente Hugo Chávez e um símbolo da revolução que ainda não chegou a Cubagua.

"Nós estamos vivendo em solidão quase completa aqui", disse Suárez, "é dessa forma que gostamos".

Os arqueólogos ocasionalmente perturbam esta tranquilidade. No ano passado, uma equipe liderada por um venezuelano, Jorge Armand, desembarcou aqui e encontrou moitas e lixo cobrindo as ruínas. Os pescadores estavam usando as ruínas de Nueva Cádiz como um toalete a céu aberto, disse Armand.

"Aqui estava uma cidade construída pelos espanhóis para durar cinco séculos, e hoje mal se encontra nas margens de nossa consciência", disse Armand. "Paradoxalmente, graças a este abandono, as ruínas foram mais ou menos preservadas."

Antes de Chávez chegar ao poder há uma década, empreendedores imobiliários planejavam construir um dos maiores complexos turísticos do Caribe em Cubagua, com 8 mil quartos de hotel, dois aquários, um sistema rodoviário, dois campos de golfe com 18 buracos e uma usina de dessalinização para fornecer água potável. Mas a oposição de ambientalistas e historiadores impediu o projeto.

Há cerca de dois anos, o governo Chávez apresentou seu próprio plano para desenvolvimento de Cubagua, que tem cerca de 25 quilômetros quadrados. Ele pede por um pequeno porto, um museu, uma escola e um posto de saúde, além dos pescadores serem treinados para que possam trabalhar em cooperativas de turismo.

Mas o dinheiro para o projeto desapareceu do Instituto do Patrimônio Cultural, segundo notícias publicadas em Caracas. Armand pediu em janeiro por uma investigação federal das acusações de suborno que cercam o projeto.

A espera pela justiça na Venezuela pode levar anos, décadas, talvez até mais. Enquanto isso, Cubagua ainda atrai algum viajante ocasional, como Peter Muilenburg, que escreveu um relato nos anos 90 do lugar da ilha na história caribenha, descrevendo sua "anarquia, ganância e riqueza".

Stephen G. Bloom, um americano que está publicando uma história das pérolas neste ano, intitulada "Tears of Mermaids" (lágrimas de sereias), viajou para Cubagua em 2008.

"Havia um punhado de cães selvagens guardando algo de importância histórica de incrível valor", disse Bloom. "Eu considerei isso imensamente triste."

Arqueólogos e historiadores econômicos também veem uma parábola para a atual Venezuela rica em petróleo. Nueva Cádiz explodiu como um epicentro no Novo Mundo para exploração de um commodity, e caiu tão logo a população de ostras, em suas águas infestadas de tubarões-martelo, desapareceu após apenas poucas décadas.

"Será que outras áreas na Venezuela parecerão Cubagua quando a indústria do petróleo desaparecer?" perguntou Armand, o arqueólogo.

Os céticos rebatem que é cedo demais até mesmo para fazer tal pergunta. A Venezuela, afinal, possui algumas das maiores reservas de petróleo fora do Oriente Médio.

Mas mesmo tamanha abundância poderá não impedir que os complexos projetos de petróleo algum dia se tornem obsoletos. A concorrência de novas tecnologias de energia está avançando. Mudanças abruptas na economia global afetam diferentes setores. Como um ex-ministro do petróleo saudita colocou certa vez, a Idade da Pedra não acabou porque as pedras se esgotaram.

A evolução da indústria das pérolas aponta para um possível resultado. Até hoje, os pescadores de Cubagua ainda encontram pérolas minúsculas em ostras. Mas mesmo que estas pedras lembrem as gemas antes cobiçadas pela realeza européia, elas não valem quase nada em comparação às enormes pérolas cultivadas atualmente na Ásia.

"A carne da ostra atualmente vale mais do que sua pérola", disse Cornelio Marcano, um pescador de 37 anos que vive em Cubagua. "Afinal, o que é mais importante?", ele perguntou. "Uma pérola ou comida para encher o estômago?"

Tradução: George El Khouri Andolfato

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