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02/03/2009

U2 quer ser a próxima grande novidade

The New York Times
Jon Pareles
Em Londres
No palco do Earl's Court Exhibition Center, foi feito um ensaio glamuroso para o Brit Awards desse ano, o equivalente britânico do Grammy. Apesar de o U2 não estar entre os nomeados, tocaria na abertura do show de 19 de fevereiro: uma apresentação ao vivo da música "Get On Your Boots" de seu novo disco, "No Line on the Horizon" (Interscope). O U2 já havia tocado a mesma música no começo do mês, no Grammy Awards.

Depois do ensaio, os quatro membros da banda foram para uma área suja de carga e descarga, atrás do auditório, para uma sessão de fotos. O fotógrafo fez com que eles descessem uma rampa; Bono, que frequentemente se diz um "method actor" [técnica de atuar que internaliza emoções], queria saber como eles deveriam andar. Uma pequena conversa foi suficiente para decidir. A banda começou então a andar de um jeito orgulhoso e arrogante quando Bono anunciou: "Vamos formar uma gang na cidade!"

Não era exatamente uma piada. O U2 entrou na quarta década de uma carreira que começou em 1978, quando seus membros eram adolescentes e colegas de escola em Dublin; agora eles estão chegando nos 50 anos de idade. E o U2 pode muito bem ser a última das megabandas: roqueiros veteranos, internacionalmente conhecidos, cujos discos, desde "Boy" em 1980 até "How to Dismantle an Atomic Bomb" em 2004, venderam milhões de cópias em todo o mundo.

Numa era em que as vendas de CDs caíram vertiginosamente, o rádio privilegia o hip-hop e o pop adolescente, os discos estão ameaçados pelo modo randômico dos MP3 players e a velha ideia de ver o rock no topo das paradas parece cada vez mais uma miragem, o U2 ainda, sem nenhum constrangimento, quer lançar um sucesso de vendas.

"Como é que ainda é possível marcar a consciência pop com uma melodia?", disse Bono mais tarde, em frente a uma caneca de Guinness no restaurante do famoso hotel Claridge's. "Essa é na verdade a primeira tarefa de um compositor".

Uma conversa com Bono é uma aventura de livre-associação. Entre os pensamentos sobre o disco ele elabora digressões fascinantes, casual porém cuidadosamente colocadas, e em off. Ele deu uma demonstração à plena voz de vogais de ópera italiana e do estilo de Frank Sinatra - chamando a atenção ao redor - e refletiu sobre a arquitetura de catedrais; ele descreveu encontros com candidatos presidenciais e planos para suas futuras colunas na página editorial do The New York Times. Falou afetuosamente de seus colegas de banda como pessoas que ainda está tentando entender, sobre músicas serem explosões do acaso e sobre o que ele quer nos shows: "spastic elastic energy" [algo como "energia elástica espasmódica"].

Desde o início, na aurora do punk rock, o U2 fez música em grande escala. O som característico do começo da banda - o ardente tenor irlandês de Bono sobre os acordes de guitarra abertos e ecoantes de The Edge ao fundo, unidos às batidas com jeito de marchas de hinos de Larry Mullen Jr. na bateria e Adam Clayton no baixo - era apropriado para ressoar em grandes espaços enquanto Bono cantava sobre desejos sem limites: românticos, sociais, espirituais.

Uma vez que a banda chegou ao circuito dos grandes palcos e estádios nos anos 80, ficou por lá. Não houve mudanças na formação, rompimentos, reuniões e nenhum apelo à nostalgia.

"As pessoas não sabem o que virá em seguida", disse Bono. "Nossos fãs não têm certeza. Será que vamos envergonhá-los? Talvez. Vamos inspirá-los? Talvez. Eles não sabem. Isso é muito importante, porque quando você se torna um amigo confiável e confortável, não sei se sobra espaço para o rock n' roll".

Bono acrescentou: "É muito difícil ser relevante, então há muita coisa em jogo para nós nesse disco. Sei que a qualidade do trabalho está lá, mas será aceita? De verdade, não sei. E estou genuinamente curioso. Acho que ele pode ter um começo irregular".

As estações de rádio dos Estados Unidos receberam "Get On Your Boots"
sem muito entusiasmo; seus riffs de guitarra de tom indefinido não cabem nas listas de mais tocadas cheias de Taylor Swift, Britney Spears e Beyoncé. O U2 enfrenta a concorrência de bandas mais jovens inspiradas por sua própria música. No Brit Awards, outras bandas que tocaram - Coldplay, Kings of Leon, e até a banda de garotos já crescidos Take That - não puderam evitar soar como imitações de U2.

Naquela noite, Coldplay e os Killers dividiram o palco do Shepherd's Bush Empire, com capacidade para 2.000 pessoas, em benefício da organização War Child International. Para o grande final, Bono juntou-se a Coldplay, Gary Barlow do Take That, e Brandon Flowers do Killers, para cantar a música "All These Things That I've Done", do Killers. Nos bastidores, Flowers estava maravilhado de ver Bono cantando sua música: "Eu tentei escrever uma 'Where the Streets Have No Name', então é uma verdadeira honra".

Ainda que outras bandas garimpem o catálogo do U2, a banda desafia seu passado. Depois de dois discos de um rock direto e comparativamente dominado pelas guitarras, "No Line on the Horizon", o 12º disco de estúdio do U2, toma tangentes experimentais novas e redefine a banda mais uma vez. O álbum, que será lançado na terça-feira, está cheio de ritmos cruzados, guitarras sobrepostas e correntes eletrônicas subjacentes em músicas que a banda escreveu com seus produtores de longa data, Brian Eno e Daniel Lanois.

Não é um desvio tão diferente quanto o disco "Achtung Baby", de 1991, em que o U2 reinventou-se depois da seriedade dos anos 80, com ironia e batidas eletrônicas. Mas "No Line on the Horizon", resultado de um processo cheio de reviravoltas que durou dois anos, apresenta uma banda ainda inquieta e apaixonada, que chuta as fórmulas para longe.

Em canções sobre o verdadeiro amor, conexões globais, transcendência e tecnologia, a música vai em direção a extremos. "Get On Your Boots", com 149 batidas por minuto, é a música mais rápida que o U2 já fez, enquanto "Cedars of Lebanon", que fecha o disco, é uma meditação sombria sobre a guerra, separação e inimizade. O álbum inclui prováveis refrões para serem cantados nos shows em faixas como "Magnificent", "Unknown Caller" e "I'll Go Crazy if I Don't Do Crazy Tonight", mas também inclui os padrões ricocheteantes de "Fez - Being Born" e a grandiosa "White as Snow", que baseou sua melodia no hino de Advento "Veni, Veni Emmanuel".

(Clayton disse que "White as Snow" foi criada como se fosse os últimos pensamentos de um afegão morto por uma bomba improvisada; seus quatro minutos são o tempo que uma vítima de explosão leva para morrer.)

"Get On Your Boots", diz Bono, é uma coleção quase jornalística de imagens de quando levou sua família para um parque de diversões no sul da França às vésperas da guerra do Iraque, com aviões zunindo sobre as cabeças. Um verso proclama: "Não quero falar sobre guerras entre nações/Não agora".

Essa frase, assim como algumas alusões em "White as Snow" e "Cedars of Lebanon", fornece o que Bono descreve como "visão periférica": um reconhecimento do mundo turbulento além dos pensamentos subjetivos das letras. "É o elefante na sala, a ausência dessa coisa, que quase que atrai a atenção para isso", disse. "Ela nunca nos tira do pessoal ou dos psicodramas que estão acontecendo, mas está lá".

Um tema que persiste através das músicas, diz Bono, "é a capacidade de se render, de esquecer de si mesmo, seja pela divagação ou celebração. E a jornada do artista com certeza é uma jornada para além do autocentramento". Ele fez uma pausa e sorriu constrangido. "A fama é basicamente autocentrada".

Bono ganhou fama no meio político. Por um lado entusiasta da política, por outro showman carismático, ele trabalha em causas como o fim da pobreza extrema na África. Apesar de já ter sido chamado sarcasticamente de São Bono, ele se esforça para não ser muito obcecado. "Edge está sempre sussurrando no meu ouvido: 'Você é um artista. É assim que você lida com as coisas. Se você começar a se comportar de um jeito correto e muito sério, e fizer um trabalho sério, será horrível'", diz.

"Sinto que como artista meu trabalho é tentar compreender as forças que estão moldando o mundo que nossas músicas ocupam", acrescenta Bono. "E talvez, se tiver oportunidade, tentar moldá-lo também. Isso é o que a banda não entendia. Eles achavam que a publicidade natural que receberíamos por ousarmos jogar com os grandes, filosoficamente e de outras maneiras, espantaria nosso público. Mas na verdade nosso público se sente muito mais forte".

The Edge sugeriu que, para Bono, ser um roqueiro é como tirar férias de seus esforços políticos. "Acho que é o que ele quer", diz. "Não há fim para o outro lado. A luta continua. Com o U2 é assim, há coisas que podem ser ditas; bem, nós fizemos isso. Lançamos um disco. Lançamos um show".

Fazer o novo disco foi um trabalho "árduo", disse Mullen. "Tem que haver uma maneira mais simples", continuou, "mas nós não entendemos o que é simples ou fácil".

Primeiro, o U2 decidiu gravar com Rick Rubin, que produziu Dixie Chicks, Johnny Cash e Metallica. Rubin é reconhecido por fazer com que as bandas voltem ao básico, e em vez de supervisionar as habituais sessões livres do U2 em estúdio, ele pediu para a banda levar músicas acabadas para gravar. Duas músicas feitas com Rubin estão em "U218 Singles", uma antologia de 2006.

Mas o grupo engavetou o resto das sessões com Rubin e começou de novo com uma estratégia contrária. Bono havia sido convidado para o Festival de Música Sacra ecumênico anual em Fez, Marrocos. Ele convidou os outros membros da banda para acompanhá-lo e talvez gravar alguma coisa durante a estadia de duas semanas. Para sua surpresa, todos concordaram, assim como Eno e Lanois.

Eles alugaram uma casa e montaram o equipamento no jardim a céu aberto e começaram a tocar sem prazo nem objetivo. "Isso estava bem longe da volta ao básico", disse Edge. "Foi como explorar as fronteiras". Apesar de sugestões de ritmos de transe e vocais árabes aparecerem ocasionalmente, o U2 evitou o que os integrantes da banda chamam de "turismo musical".

A banda mergulhou nas gravações. Os fundamentos instrumentais de três músicas - "No Line on the Horizon", "Moment of Surrender" e "Unknown Caller" - emergiram praticamente completos em poucas horas. Ainda assim, depois dessas duas semanas prolíficas, a gravação se estendeu por dois anos: em Dublin, no sul da França e em Londres. Steve Lillywhite, que produziu os primeiros álbuns do U2, e Will.i.am do Black Eyed Peas ajudaram a formatar e terminar as músicas.

O prazo que teria permitido ao U2 lançar o disco antes da lucrativa temporada de Natal chegou e passou, mas a banda não estava satisfeita com a música até novembro. O U2 espera lançar outro disco em seguida, que segundo os integrantes terá um tom mais meditativo e religioso, antes do final do ano.

Construir a música foi um processo decididamente intuitivo: uma colagem de impulsos momentâneos e faíscas colaborativas. As letras de Bono irrompem em declarações de amor, esboços de personagens e autorreprovação irônica: "Cuidado com homens pequenos de grandes idéias".

The Edge, depois de fazer um documentário sobre guitarra com Jimmy Page do Led Zeppelin e Jack White do White Stripes, chamado "It Might Get Loud", decidiu tentar escrever o tipo de riffs de guitarra exagerados que há tempos vinha evitando. Eno trouxe repetições e texturas que se tornaram sementes de músicas e induziram a banda às harmonias vocais. Em todo o disco, os pontos fortes do U2 - melodias que lembram hinos, superestruturas de guitarra - são preservados e revitalizados, usados de novas formas à medida que as músicas alcançam a dualidade que define o U2: uma intimidade que tenta abarcar o universo.

Com o lançamento do disco, a intuição deu lugar ao cálculo.

"No Line on the Horizon" começa sua turnê mundial em julho. O U2 pretende se apresentar com o palco no meio dos estádios, oferecendo lugares mais baratos para os fãs atrás e bem na frente do palco, esperando atrair um público novo, mais jovem.

Como o U2 não pode mais depender da exposição no rádio e na MTV, agendou grandes momentos na televisão. Três dias depois do "grammy britânico", a banda terminou um show no Echo Awards na Alemanha. Esta semana, deve aparecer no "Late Show With David Letterman". Essas são prerrogativas de uma banda com prestígio, mas também são sinais de que o U2 não está tomando nada como garantido.

O grupo representa uma última esperança para o setor cada vez mais desesperado das gravadoras: uma perspectiva de lucro. No ano passado o U2 assinou um contrato de 12 anos com a promotora de shows Live Nation, que tem os direitos mundiais da turnê da banda, de merchandising e branding. Diferente de Madonna e Jay-Z, cujos acordos com a Live Nation incluem novas gravações, o U2 manteve seus contratos de gravação e distribuição com a Universal Music, que absorveu os antigos selos do U2, Island e Interscope. O agente da banda, Paul McGuinness, disse por e-mail que o U2 está comprometido com a Universal "por mais vários discos", recusando-se a especificar o número.

"Minha intuição diz para ficar com as gravadoras. Eles têm que vender os seus discos ou vender os downloads, qualquer que seja o formato. Para isso, antes de mais nada, eles precisam amar e entender a música, e nesse momento não vejo nenhum outro grupo que possa competir com as gravadoras nessa frente", explicou The Edge.

Bono falou de forma mais vaga. "Estou interessado nas vendas", disse.
"A desculpa para a grandeza é que as músicas pedem para ser ouvidas quando são boas. E sem o clima uma grande banda de rock, você não consegue que suas músicas sejam ouvidas".

Quando o ensaio do Brit Awards começou, o U2 usou sua passagem de som para tocar "Whole Lotta Love" do Led Zeppelin, com todo o barulho de uma clássica banda de cover. "Casamentos, funerais, bar mitzvahs", anunciou Bono depois. "Estamos disponíveis para trabalhar. U2." Eloise De Vylder

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