UOL Notícias Internacional
 

03/03/2009

Com economia em crise, a Ucrânia coloca em risco o resto da Europa

The New York Times
Clifford J. Levy*
Em Kiev (Ucrânia)
As siderúrgicas e indústrias químicas, que já foram a mola propulsora da economia da Ucrânia, estão demitindo milhares de trabalhadores. As cidades passam dias sem aquecimento ou água porque não conseguem pagar as suas contas, e o sistema de metrô de Kiev encontra-se ameaçado. Os clientes fazem filas nos bancos, a moeda do país desvaloriza-se e até um calote da dívida por parte do governo parece ser possível.

A Ucrânia, que já foi considerada um símbolo mundial de democracia emergente e de livre mercado que repudiou o autoritarismo, está cambaleando. E o destino desse país representa uma ameaça real para as economias europeias e para as outras ex-repúblicas soviéticas.

Os protestos súbitos e violentos que irromperam em outros países da Europa Oriental parecem iminentes aqui também. Na semana passada, em Kiev, as pessoas falavam da ira crescente devido à crise e do ressentimento em relação a um governo que a população acredita estar mais preocupado com brigas políticas do que com a administração do país.

O cartaz carregado aqui, na semana passada, por Vasily Kirilyuk, um encanador desempregado que acampou na rua com outros manifestantes contrários ao governo, resume a frustração generalizada: "Abaixo todos eles", lia-se no cartaz.

Kirilyuk não hesitou em ir além. "Haverá uma revolta", disse ele. "E as pessoas aderirão porque não aguentam mais".

Kirilyuk, 29, estava na mesma praça central onde, em 2004, uma multidão fez a Revolução Laranja, um acontecimento marcante que alçou ao poder um governo pró-ocidental na Ucrânia. Kirilyuk diz que naquela época foi um simpatizante fervoroso do novo governo, mas afirma que agora ele e algumas dezenas de outros indivíduos que ergueram barracas aqui estão exigindo que os heróis daquela revolução renunciem.

Não é difícil entender por que os líderes mundiais estão cada vez mais preocupados com a insatisfação e a crise financeira na Ucrânia, que possui 46 milhões de habitantes e tem uma localização altamente estratégica. Problemas em um pequeno país como a Letônia ou a Islândia são uma coisa, mas um colapso na Ucrânia seria algo bem mais sério, capaz de acabar com a pouca confiança restante do investidor na Europa Oriental, onde economias anteriormente robustas estão no limite do colapso.

Isso poderia fazer também com que a vizinha Rússia, que possui vínculos étnicos e linguísticos estreitos com o leste e o sul da Ucrânia, tentasse imiscuir-se nas questões do país. Além do mais, o Kremlin seria capaz de apresentar a Ucrânia como um exemplo do que ocorre quando as ex-repúblicas soviéticas seguem um modelo ocidental de democracia de livre mercado.

"A Ucrânia é um fator central para a estabilidade na Europa", afirma Olexiy Haran, professor de políticas comparadas da Universidade Mohyla em Kiev. "O país é um protagonista fundamental colocado entre uma União Europeia em expansão e a Rússia. Recorrendo a um cenário alarmista, se poderia imaginar uma conjuntura ucraniana que a Rússia procurasse explorar a fim de dominar a Ucrânia. Isso criaria uma situação bastante explosiva na fronteira com a União Europeia".

O potencial da Ucrânia para causar problemas para a Europa ficou patente em janeiro último quando os ucranianos envolveram-se em uma disputa com a Rússia a respeito de quanto pagariam a Moscou pelo uso de gás natural. O problema envolveu também o transporte de gás para o resto da Europa. O Kremlin interrompeu o fornecimento de gás por vários dias, e alguns países europeus ficaram sem aquecimento. Em 2006 o Kremlin também deixou de enviar gás à Ucrânia devido ao desentendimento quanto ao preço do produto.

A economia da Ucrânia é dependente das exportações de aço e de produtos químicos, que despencaram, e a crise intensificou-se porque a população está desiludida com o governo.

O presidente Viktor A. Yushchenko, um dos líderes da Revolução Laranja, que atraiu a atenção mundial em 2004 quando a sua face ficou deformada por cicatrizes em um episódio de envenenamento, é atualmente uma figura tão desprezada que uma recente pesquisa de opinião revelou que 57% das pessoas desejam que ele renuncie.

Os seus rivais também perderam popularidade, à medida que a população foi ficando exasperada com vários anos de brigas políticas. Em fevereiro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) recusou-se a liberar a nova parcela de um pacote de ajuda financeiro de US$ 16,4 bilhões à Ucrânia porque o governo recusou-se a firmar um novo acordo que cortaria o seu orçamento.

Naquela mesma época, o ministro das Finanças do país renunciou, alegando que a função tornou-se "refém da política".

Na última sexta-feira, o FMI previu que a economia ucraniana sofrerá neste ano uma redução de 6%, e afirmou que a organização continua trabalhando com o governo da Ucrânia para encontrar uma forma de liberar o restante do dinheiro previsto no pacote.

Uma eleição presidencial está vindo por aí, e provavelmente será realizada em janeiro de 2010, e essa perspectiva está fazendo com que os políticos, especialmente a primeira-ministra Yulia V. Tymoshenko, relutem em apoiar um programa de austeridade econômica que poderia desagradar os eleitores.

Yushchenko e Tymoshenko foram aliados do Ocidente durante a Revolução Laranja, mas passaram a desentender-se profundamente desde então, e, em determinada ocasião, Yushchenko chegou até a afastá-la do cargo. Um terceiro rival, Viktor F. Yanukovich, um ex-primeiro-ministro que chefia um partido de oposição favorável a laços mais estreitos com a Rússia, também deseja ser presidente.

Na sexta-feira, Yushchenko e Tymoshenko fizeram uma reunião pública em uma tentativa de demonstrar que são capazes de trabalhar juntos. Yushchenko disse que deseja "demonstrar a disposição de todas as partes de assumir responsabilidade política por decisões que hoje em dia não são fáceis". Mesmo assim, os dois não anunciaram novas medidas anticrise.

Enquanto isso, por toda Kiev há sinais de que a tensão se acumula.

Na periferia da cidade, havia mais de 200 tratores estacionados na última quinta-feira. Os tratoristas ameaçavam bloquear as estradas caso o governo não os ajudasse com as suas dívidas, que segundo eles foram provocadas em parte pela desvalorização da hryvnia, a moeda ucraniana.

Eles se dispersaram na sexta-feira, mas apenas depois que o governo disse que tentaria atender às suas demandas. Mas os tratoristas advertiram que voltarão em breve caso forem ignorados.

"O governo é o culpado por isso", disse o tratorista Viktor V. Zarichnyuk, 26, que participava da manifestação havia 12 dias. "Queremos que o governo e o banco nacional concordem em fornecer o dinheiro disponibilizado pelo FMI, ou pelo menos parte dele, aos cidadãos comuns".

Em uma agência do Banco Rodovid, do outro lado da cidade, uma multidão revoltada aglomerava-se na manhã da última sexta-feira. O banco, que está quase falindo, só permitia a retirada de no máximo US$ 35 por dia. Por isso, os clientes, alguns deles pensionistas que temem perder as suas poupanças, dirigem-se às agências todos os dias, cada vez com mais raiva, para tentarem retirar o que podem.

"Todos os dias a gente vem aqui, no frio, e faz fila. Isso é um insulto", reclama a engenheira Alevtina A. Antonyuk, 58. "Os dirigentes desse banco são um bando de ladrões".

A reportagem perguntou a Antonyuk quem é o culpado pela situação. Mas, antes que ela pudesse responder, Dmitri I. Havrilkiv, 78, um operador de guindaste aposentado, a interrompeu: "O governo tem que ser substituído", gritou ele. "Eles simplesmente são incapazes de lidar com o problema!"

Tradução: UOL

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