UOL Notícias Internacional
 

04/03/2009

Com os rebeldes neutralizados, Congo vive momento de calma

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Em Bukima (Congo)
Os olhos de Jean-Marie Serundori brilham quando ele vê o seu velho e enorme amigo Kabirizi. A guerra, a expulsão de suas casas e os rebeldes sanguinários separaram os dois.

Mas, pela primeira vez em vários anos, esta parte de um parque nacional congolês muito apreciado está livre de rebeldes. Os guardas florestais do governo, como Serundori, controlam totalmente a situação - por ora. E Kabirizi, um gorila de costas prateadas que pesa 230 quilogramas, e que tem uma cabeça tão grande quanto o bloco de um motor, parece estar prosperando no seu reino de folhas.

  • Vanessa Vick/The New York Times

    Filhotes de gorilas vivem na tranquilidade das montanhas

  • Vanessa Vick/The New York Times

    Parque onde vivem os gorilas foi, por uma época, campo de batalha

  • Vanessa Vick/The New York Times

    Filhote de gorila se pendura em um galho no parque nacional

"Haa mmm", diz Serundori, emitindo um som especial, semelhante à saudação de um gorila, que miraculosamente detém Kabirizi no meio de uma investida. "Haa mmmm".

Se os ameaçados gorilas das montanhas são uma indicação, as perspectivas podem estar finalmente melhorando no leste do Congo. Nas últimas semanas, o Congo e o seu vizinho desproporcionalmente poderoso, Ruanda, uniram forças para limpar esta área dos rebeldes que encontravam-se no centro de uma violenta guerra travada indiretamente entre as duas nações.

A inimizade entre Congo e Ruanda tem sido um dos fatores mais persistentes desta carnificina. A guerra custou milhões de vidas nos últimos dez anos. Mas se esses dois países continuarem cooperando entre si, isso poderia representar um passo significativo rumo ao fim de uma das guerras mais embaraçosas da África.

"Esta notícia, de que ouve uma melhora séria nas relações, é realmente muito boa", diz Koen Vlassenroot, professor da Universidade Ghent, na Bélgica, que é especialista na situação do leste do Congo. "Mas tudo isso ainda está bastante confuso".

Vlassenroot e outros indivíduos vinculados ao Congo estão advertindo que todos esses anos de intrometimentos em assuntos vizinhos e intrigas tão densas quanto a selva congolesa fazem com que seja extremamente difícil afirmar se o novo relacionamento entre Ruanda e Congo é uma mudança genuína e duradoura, ou se trata-se simplesmente de mais uma manobra.

A operação militar conjunta teve uma dose de sucesso, pelo menos segundo os padrões tristemente baixos do leste do Congo. Os dois exércitos, que já foram inimigos, lutaram lado a lado sem massacrarem-se mutuamente. Eles mataram dezenas de rebeldes, incluindo alguns comandantes, e exerceram pressão sobre várias centenas para que deixassem a selva. Os militares prenderam Laurent Nkunda, o líder rebelde congolês e ex-general cujas táticas brutais e ambições do tamanho do Congo ameaçaram jogar a região inteira de volta à guerra.

Mas pelo menos 100 moradores das aldeias também foram mortos, ou no fogo cruzado, ou fugindo dos rebeldes sedentos de vingança. E poderá haver mais derramamento de sangue pela frente. Nos últimos anos, a maior parte do Congo retirou-se vagarosamente da guerra. Apesar do que diziam as manchetes, grandes áreas do país estão em paz. Mas foi esta região bastante montanhosa ao longo da fronteira Congo-Ruanda que continuou sendo um campo verdejante para as matanças, enquanto Ruanda apoiava uma força rebelde e o Congo sustentava a outra.

A violência que se seguiu devorou tantos recursos políticos e militares do Congo que o chamado "leste selvagem" passou a ser considerado um peso irremediável amarrado ao pescoço do país inteiro.

Atualmente, as montanhas estão tranquilas, o que permitiu que os guardas florestais voltassem ao Parque Nacional Virunga, que abriga 200 dos cerca de 700 gorilas das montanhas que restam no planeta. Milhares de aldeões que moram em volta do parque voltaram dos campos para refugiados para as suas casas, em uma outra demonstração inicial de confiança.

LOCALIZAÇÃO

"Os negócios estão melhorando", afirma Bahati Banyele, que conserta rádios em uma pequena cidade chamada Kibumba, que foi evacuada durante os combates do outono passado. Mas ninguém ainda está comemorando.

As pessoas daqui lembram-se muito bem do tratado de paz Cidade do Sol, firmado na África do Sul em 2002, que deveria controlar as milícias saqueadora, mas que não controlou.

Eles recordam-se das eleições democráticas em 2006, que custaram mais de US$ 500 milhões e geraram esperanças, mas que não acabaram com a guerra.

Um dos principais pontos de incerteza neste momento é o presidente do Congo, Joseph Kabila, que ficou em posição desvantajosa ao convidar os ruandeses para conversar, na esperança de que isso pudesse romper o impasse entre os dois países.

Vários ex-aliados de Kabila no congresso em Kinshasa, a capital do Congo, o estão acusando agora de traição. Eles estão exigindo investigações.

De fato, o seu precário poder poderá diminuir ainda mais caso o governo ruandês não tenha cortado de fato os vínculos com os rebeldes, conforma muita gente suspeita aqui.

A presença de tropas ruandesas no leste do Congo deixa muitos congoleses nervosos. O pequeno país vizinho já invadiu o Congo duas vezes, em 1996 e em 1998, sob a alegação de que estava protegendo as suas fronteiras, embora grupos de direitos humanos tenham acusado as tropas ruandesas de pilharem as ricas reservas minerais congolesas e de massacrarem civis.
Serundori, o guarda florestal, que tem 50 anos de idade, diz que tropas apoiadas por Ruanda mataram a sua mulher em 1997. Ela padecia de uma doença mental e não fugiu quando as tropas entraram na aldeia.

A vida dele, assim como a de muitos moradores desta região, ficou restringida pelo conflito. Ele começou a trabalhar como guarda florestal em 1989, quando o Congo não era um país funcional, padecia de uma corrupção famosa, mas era relativamente estável.

"Havia muitos turistas que desejavam ver os gorilas", conta ele. "Às vezes era preciso esperar uma semana inteira".

Mas, em 1994, tudo mudou. Mais de um milhão de refugiados do genocídio de Ruanda entraram no leste do Congo, e a região explodiu imediatamente devido às mesmas tensões étnicas e relativas à posse de terra que fragmentaram Ruanda. A guerra congolesa arrastou para si meia dúzia de outros países africanos, ansiosos por ajustar contas e explorar o estanho, a madeira, os diamantes e o ouro do Congo.

O parque dos gorilas transformou-se em um campo de batalha. E em um paraíso para os caçadores ilegais. Grupos de militantes usaram as suas armas automáticas contra hipopótamos, chimpanzés, gazelas, elefantes e gorilas.

Alguns dos guardas florestais envolveram-se em diversas atividades ilegais, a mais recente envolvendo a produção de carvão, que é feito ilegalmente a partir das árvores de madeira de lei que desaparecem rapidamente no parque.

Serundori diz que nunca sentiu-se tentado, apesar de ganhar apenas US$ 35 por mês.

"A minha cultura é respeitar a floresta", afirma. Ele chega até a chamar os gorilas de seus "primos".
Em outubro do ano passado, os combates se intensificaram. Os rebeldes apoiados por Ruanda e liderados por Nkunda esmagaram as tropas governamentais e invadiram bases do exército e o quartel dos guardas florestais. Serundori e centenas de outros guardas ficaram instantaneamente sem ter onde morar. Em novembro, ele viu-se encalhado com os dez filhos em um campo de barracas de lonas plásticas nas quais as baratas atacavam o seu estoque cada vez mais escasso de alimentos.

Mas após a prisão de Nkunda, feita de surpresa em janeiro deste ano, muitos outros rebeldes concordaram em ingressar nas forças do governo. Atualmente o único sinal daquele que já foi um formidável exército rebelde no Parque Nacional Virunga é uma trilha de latas metálicas.

Porém, uma nova batalha está sendo travada na selva. A família do gorila Kabirizi está tentando conter os avanços da família do gorila Humba, e às vezes dá para ouvir os gritos e urros a quilômetros de distância.

"O motivo é sempre o mesmo", explica Serundori. "Território e mulheres".

Tradução: UOL

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