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05/03/2009

Quando vovó não quer ser incomodada

The New York Times
Joanne Kaufman
Para cada Marian Robinson, que se aposentou de seu trabalho de cuidar em tempo integral de suas netas, Malia e Sasha Obama, enquanto seus pais estavam ocupados com outras coisas no ano passado, há uma Judy Connors, que adora seus dois netos, mas não se interessa por jogos, brincadeiras e histórias de ninar.

"Quando escuto a respeito da avó Obama, eu acho que também gostaria de me mudar para a Casa Branca", disse Connors, 67 anos. "Mas eu contrataria alguém para cuidar das crianças."

Sua filha, Catherine Connors, uma escritora de 38 anos em Toronto, está ciente da postura de sua mãe. Sempre que ouve falar de famílias nas quais os avós adoram participar, ela só tem um pensamento: "Minha vida certamente não é assim".

Não é novidade jovens mães ficarem surpresas e magoadas, talvez sem justificativa, com quão pouco suas mães se interessam por cuidar das crianças. Mesmo assim, histórias de avós participativas como as que vêm da Casa Branca podem trazer esses sentimentos à tona - e em ebulição.

"Há alguns pais que provavelmente não têm uma expectativa realista de quanto seus pais se dedicarão aos netos", disse a dra. Gail Saltz, uma psiquiatra de Manhattan. "Mas como os filhos desta geração são o centro de seu universo, é difícil não levar para o lado pessoal a postura -'por que deveria me importar?' - dos avós."

No site Urban Baby, as queixas sobre pais que não se envolvem são um tema recorrente, disse Justine Reese, a gerente sênior de produto do site. Eles também são o tema entre alguns pacientes de Saltz.

"Esta geração pratica uma paternidade onidisponível, onipresente e onifacilitadora em comparação à geração anterior", disse Saltz, que é a especialista em saúde mental do programa "Today". "Eu frequentemente ouço por parte das avós que seus filhos são excessivamente indulgentes com seu tempo e atenção."

De fato, para alguns adultos infantis rancorosos e sem dinheiro, tempo e dinheiro são bens fungíveis. Para eles, a postura pode ser "nos dê dinheiro e entenderemos que seu tempo é limitado", disse Saltz.

Susan Shapiro Barash, que leciona estudos de gênero no Marymount Manhattan College e no Sarah Lawrence College, disse que mulheres com crianças pequenas estão à procura da orientação de suas mães e sogras, mas atualmente elas costumam procurar em vão. (Por algum motivo, elas parecem não nutrir grande expectativa em relação aos seus pais e sogros.)

De modo geral as avós modernas, as chamadas "glam-mas", "sentem que já dedicaram seu tempo", disse Barash. "Elas se dedicaram aos filhos às custas de sua própria liberdade, e não estão à procura de repetir a experiência da maternidade com seus netos."

Em outras palavras, pode ser preciso uma aldeia para criar uma criança, mas atualmente a aldeia está mais habitada por babás do que por avós.

Quanto a Catherine Connors, antes de ela ter sua primeira filha, Emilia, há três anos, "minha mãe me avisou. Ela disse que não estava interessada em servir como babá. Ela disse que viria visitar, mas que não gostava de recém-nascidos."

Fiel à sua palavra, Judy Connors voou de seu lar na Colúmbia Britânica para Toronto uma semana após o nascimento de sua neta. "Estava claro que ela estava entediada", disse sua filha. "Ela ficava sentada na sala de estar enquanto eu tentava descobrir como amamentar. Ela disse: 'Eu não sei por que você simplesmente não dá a mamadeira' e então saiu para a varanda para fumar."

A avó Connors, a diretora aposentada de um programa de tratamento para adolescentes, tinha poucas palavras para dizer em sua defesa. "Eu criei dois filhos que amo muito", ela disse. "Eu fui uma dona-de-casa. Então descobri, ao iniciar minha própria carreira, que havia todo um outro mundo lá fora."

Muitos pais jovens, é claro, se queixam da atenção excessiva dos avós que não deixam nem eles e nem seus filhos em paz. Lorraine R., uma advogada de 49 anos de Teaneck, Nova Jersey, não se coloca nesta categoria.

"Minha sogra pareceu dar apoio quando passamos pela fertilização in vitro", ela disse. Mas após o nascimento dos gêmeos há quatro anos, vovó "não ofereceu nenhuma ajuda", ela disse. "Ela nunca deu banho, preparou uma refeição ou trocou fraldas." (Como outras entrevistadas para este artigo, Lorraine R. pediu que seu sobrenome não fosse citado por temer agravar uma situação familiar já difícil.)

Quando Lorraine R. e seus filhos visitaram o clube de natação de sua sogra, "ela quis mostrar para todos que tinha netos, mas então se sentou o mais distante que podia da piscina infantil", disse Lorraine R. "Ela não tem a menor idéia de como são nossos filhos ou pelo que se interessam."

Nestes tempos econômicos difíceis, posturas como esta podem ter consequências bem mais sérias do que apenas ferir os sentimentos. Se os avós não puderem ou não quiserem cuidar dos netos dos filhos que trabalham, uma creche ou babá pode ser a única opção, e pode ser um fardo financeiro.

"É muito caro aqui, mas permanecemos em Long Island para ficarmos próximos dos meus pais", disse uma consultora de relações públicas de 43 anos que vive em Syosset, Nova York, com seu marido e três filhos, de 7, 9 e 11 anos. "Minha expectativa era de que meus pais nos ajudariam com as crianças."

Isso não aconteceu, ela disse. Seus pais, que têm saúde e são aposentados, vivem a apenas 1,5 quilômetro, mas mantêm distância. "Eu vejo três gerações de famílias em férias ou no Splish Splash", o parque aquático de Long Island, "e fico maravilhada", disse esta mulher. "Eu fico impressionado com o fato de avós estarem ali com seus netos, porque esta não é minha experiência."

Kathy Sachs, uma dona-de-casa de Manhattan, é igualmente descontente com seus sogros, que moram no Meio-Oeste e raramente aparecem para visitar.

Quando sua família visita seus sogros, "eles não levantam um dedo", disse Sachs, 38 anos, que tem um filho no jardim de infância e uma menina bebê. "Eles nunca trocaram uma fralda. Eles não fizeram nenhum esforço para apresentar nossos filhos para as crianças do seu bairro. Eles não planejam nada especial para elas. Minha sogra fica cuidando de suas coisas. É como se meus filhos fossem um programa de TV passando em segundo plano."

Há muitos motivos para os avós escolherem minimizar seu papel. Alguns "podem ficar nervosos em lidar com o recém-nascido, mas não querem admitir", disse Susan Newman, uma psicóloga que escreve livros sobre relacionamentos e paternidade. "Eles podem não se sentir à vontade em levar sua carga preciosa para um treino ou aula."

Ou simplesmente podem ter outras prioridades. "Muitas destas mulheres são viúvas, divorciadas, e podem estar namorando e querem colocar sua vida amorosa à frente dos netos", disse Barash, a professora de estudos de gênero.

Judy Connors disse que seu comportamento distante "não significa que não ame meus netos - apenas que tenho uma vida que não gira em torno deles".

Connors é casada pela terceira vez e disse que seu marido gosta dos filhos da enteada. "Há duas semanas ele me disse: 'Você não acha que é hora de vê-los de novo?'"

"E eu disse: 'Sim... em breve'."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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