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08/03/2009

Irmão de Karzai é dono de império empresarial no Afeganistão

The New York Times
James Risen
Cabul, Afeganistão
Há oito anos, Mahmoud Karzai administrava uma série de restaurantes modestos em São Francisco, Boston e Baltimore. Hoje, Karzai, que imigrou como garçom e se transformou em dono de restaurantes, é um dos empresários mais prósperos do Afeganistão.

Irmão mais velho de Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, Mahmoud Karzai tem grandes investimentos na única fabricante de cimento do país, no principal banco, na construtora mais ambiciosa, em sua própria distribuidora da Toyota e em quatro minas de carvão.

Ele e um sócio comandam a câmara de comércio nacional do Afeganistão - que tem muito mais influência no país do que a norte-americana nos EUA - o que permite que ele consiga bons negócios e atraia investidores estrangeiros. Para executivos com problemas com o governo afegão, ele é o homem a ser procurado. Um importante crítico afegão o descreve como o "fazedor de ministros", com influência sobre a contratação e demissão de altos cargos.

Karzai defende sem pudores a acumulação de dinheiro no país que seu irmão governa, e atribui seu sucesso ao fato de ter grandes ambições e assumir negócios que outros consideram muito arriscados. "Invisto em projetos que demandam trabalho de verdade", disse ele numa entrevista.
"Estou apaixonado pela idéia de que o Afeganistão pode se tornar uma Cingapura, uma Hong Kong".

Todavia, Karzai certamente explorou suas conexões, tanto em Washington quanto em Cabul, para construir seu império. Ele coletou milhões em empréstimos do governo americano para empreendimentos imobiliários em Kandahar e Cabul, capitalizou uma amizade com o ex-deputado Jack Kemp, republicano de Nova York, para ser apresentado a autoridades dos EUA e executivos internacionais, e, segundo seus rivais, beneficiou-se de transações antiéticas com o governo afegão.

A rápida ascensão de Karzai gerou ressentimentos e suspeitas entre muitos afegãos, que ficaram cada vez mais descontentes com o governo do irmão dele e sua aparente tolerância em relação a negociações internas, favorecimento nos negócios, propinas e outras atividades moralmente questionáveis. Os especialistas alertam que a corrupção desenfreada alimenta a insurgência talibã e ameaça o apoio dos EUA ao presidente Karzai, que busca a reeleição este ano.

Apesar de Mahmoud Karzai não ter sido acusado de nenhum crime, ele se tornou um constrangimento político por conta das críticas que dizem que sua ascensão foi facilitada injustamente.

"Se seu irmão não fosse presidente, será que ele teria conseguido juntar tanta riqueza, e conseguido tantos negócios?", pergunta Daoud Sultanzoy, membro do parlamento que pressionou por investigações nas atividades empresariais da família Karzai. "Uma das razões pela qual o povo não confia no governo é porque as pessoas que estão no poder abusam desse poder para vantagens pessoais".

Humayun Hamidzada, porta-voz do presidente Karzai, negou que o presidente tenha mostrado algum favoritismo pelo irmão. "O presidente não permite que ninguém use seu nome para conseguir contratos ou negócios através dele", disse.

Mahmoud Karzai igualmente rejeita as acusações de que explorou seus laços familiares. "Há muita inveja e informações falsas a meu respeito", disse em entrevista. "Todas as críticas de que consigo negócios especiais por causa do meu irmão são totalmente equivocadas e mentirosas".

O próprio presidente Karzai reclamou que os negócios de Mahmoud Karzai são politicamente constrangedores, dizem pessoas que o conhecem, mas que não tentou controlar Mahmoud ou seus outros irmãos.

Um deles, Qayum Karzai, dono de um restaurante afegão em Baltimore, atuou até recentemente no parlamento afegão, apesar de outros parlamentares reclamarem que ele quase nunca aparecia. Ele disse numa entrevista que agora é um intermediário informal entre o presidente Karzai, a Arábia Saudita e o Talibã.

Outro irmão, Ahmed Wali Karzai, chefe do conselho provincial de Kandahar, foi acusado de tráfico de narcóticos por autoridades do afegãs e norte-americanas, frustradas com o fato de o presidente não ter tomado nenhuma atitude contra ele.

"O presidente Karzai era visto inicialmente como um homem honesto, mas não temos um histórico de permitir que os irmãos de um líder acumulem tanta riqueza", diz Saad Mohseni, dono de um canal independente de televisão em Cabul. "Seus irmãos não permitem que o presidente pense objetivamente no que é melhor para o Afeganistão".

Mahmoud Karzai, que é cidadão dos EUA, manteve sua casa em Maryland, mas viaja o tempo todo para Cabul de um retiro multimilionário em Dubai que pertence a seu sócio. Em sua terra natal, Karzai, 54, fala com facilidade em pashto [língua falada no Afeganistão] para empresários de Kandahari vestidos com roupas tradicionais e em inglês fluente para os ocidentais usando terno.

Políticos e empresários compartilham rumores e fofocas sobre ele.
Mahmoud diz que está sempre buscando oportunidades, enquanto os rivais reclamam que ele tenta excluí-los ou entrar em seus negócios.

"Os empresários chegam para mim e reclamam que Mahmoud sempre quer uma porcentagem de seus negócios", lembra-se Zalmay Khalilzad, ex-embaixador dos EUA no Afeganistão. Quando perguntou a Karzai sobre essas reclamações, este último negou, disse Khalizad numa entrevista.

Karzai disse em entrevista que escolheu os negócios que ele acreditava que fossem beneficiar o Afeganistão. Ele insiste que não ficou rico aqui, porque fez muitos empréstimos. Mas apesar de não fornecerem nenhuma prova, muitos empresários e políticos afegãos o descrevem como um dos homens mais ricos do país.

Para seus críticos, Karzai oferece uma defesa incomum: mesmo se quisesse, não conseguiria obter vantagens do governo, porque o irmão é incompetente.

"Ele nunca toma uma decisão", disse Karzai sobre o presidente. "Ele só fala de política. Se você falar sobre economia, ele não se interessa.
Ele não é um homem de resolver problemas".

Karzai criticou a corrupção no governo e reclamou que a má administração econômica do irmão tornou difícil fazer dinheiro. Ele disse que agiu como um canal para a comunidade empresarial porque a burocracia não reagia.

"As pessoas estão buscando um canal de comunicações, então elas dizem:
'Esse cara é irmão do presidente, ele provavelmente fala com ele'", disse Karzai. "Elas ficam frustradas e então dizem 'Vamos direto ao topo'".

Outros empresários e líderes políticos zombam das críticas dele ao presidente, dizendo que a intenção é disfarçar as relações estreitas entre os irmãos.

Isso é "100% encenação", diz o general Hadi Khalid, que foi demitido do cargo de ministro do Interior no ano passado por se opor a uma negociação envolvendo o sócio de Mahmoud Karzai, Sher Khan Farnood.

Karzai se mudou rapidamente para o Afeganistão depois da invasão americana em 2001 para reivindicar seu espaço na economia pós-guerra. Em Maryland, ele começou a discutir com outros empresários afegão-americanos sobre a melhor forma de ajudar a recuperar a economia afegã, no mesmo momento em que o governo Bush começava a fornecer ajuda, disseram líderes empresariais. Não demorou para que ele levasse um pequeno grupo a formar uma nova Câmara de Comércio afegã, recebendo US$ 6 milhões da Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA.

Numa eleição no ano passado, financiada com mais de US$ 500 mil da agência americana, Karzai foi escolhido o vice-presidente da câmara, e Farnood tornou-se presidente. Oponentes dizem que a votação foi manipulada para assegurar que os dois homens vencessem, mas Karzai nega as acusações.

Karzai conseguiu outra ajuda de Washington, graças a seus amigos importantes. Depois dos atentados de 11 de setembro, ele fez questão de conhecer republicanos conservadores, incluindo Kemp.

Numa entrevista, Kemp disse que apresentou Karzai a autoridades da Overseas Private Investment Corp. (Opic), órgão federal que fornece financiamento para empreendimentos americanos no exterior.

Kemp disse que quis incentivar os investimentos no Afeganistão, acrescentando que não se beneficiou com os negócios de Karzai. "Imagino que ele tenha dito meu nome em Cabul e Kandahar, mas asseguro que eu não tenho participação ou interesse em seus negócios", disse.

De acordo com funcionários da Opic, duas companhias ligadas a Karzai receberam empréstimos de mais de US$ 5 milhões para financiar a construtora dele em Kandahar e um grande complexo de apartamentos em Cabul.

O projeto de Kandahar, um plano ambicioso de construir um condomínio residencial que Karzai batizou de Aynomina ("um lugar para viver") - rapidamente levantou protestos. A propriedade de 10 mil acres na cidade de Kandahar pertencia ao Exército afegão, mas as autoridades de Kandahar transferiram-na para Karzai praticamente de graça.

Karzai disse que as autoridades municipais queriam que ele ficasse com a terra para que os militares poderosos não as confiscassem. O governador de Kandahar, disse ele, concordou que o Estado recebesse o dinheiro de cada lote quando a construtora de Karzai vendesse as casas já construídas.

Mas nenhum acordo foi feito com o Exército. Em 2005, as tropas afegãs invadiram as obras, atirando para todos os lados.

O brigadeiro general Shahtory Habibullah, que supervisiona as propriedades do Ministério de Defesa, disse que a companhia de Karzai nunca pagou nada ao Exército. A disputa continua quente. "A máfia dos terrenos tomou minha terra", disse o general em entrevista. "Quando eu for à propriedade, vou pedir para reavê-la".

Karzai diz que construiu mais de 200 casas, com 60 ou mais em construção, que fizeram sucesso entre a classe média emergente afegã. "Temos modelos de três quartos à venda por US$ 20 mil", disse. "Essa casa - não conseguimos acompanhar a demanda".

Karzai assumiu seu empreendimento mais arriscado quando ele e outros investidores tomaram o controle da única fabricante de cimento do Afeganistão. O direito de operar a fábrica foi colocado em leilão pelo Ministério de Minas, e Karzai e seus sócios ganharam por terem sido os únicos concorrentes a aparecerem com US$ 25 milhões em dinheiro. Karzai disse que as regras do leilão exigiam isso.

Mas o parlamentar Sultanzoy diz que a exigência de dinheiro foi uma determinação de último minuto criada para beneficiar Karzai. "Eles trouxeram o dinheiro e colocaram na mesa em frente do ministro e depois levaram embora", disse Sultanzoy.

O grupo não fez um nenhum pagamento antecipado. Em vez disso, paga aluguel e divide royalties com o governo, diz Karzai.

Karzai teve acesso ao financiamento necessário para seus projetos através do Banco de Cabul, o maior banco comercial do Afeganistão, do qual ele é membro do conselho. Farnood, que é fundador do banco, ajudou Karzai a se tornar um investidor autorizando um empréstimo para comprar ações do banco, disse Karzai.

Ele também é dono majoritário da única distribuidora da Toyota no Afeganistão, em parte graças a Kemp, que antes era membro do conselho de diversidade da Toyota nos EUA e apresentou Karzai aos executivos da companhia.

Khalilzad, que negou os rumores de que ele planeja concorrer com o presidente Karzai nas próximas eleições, lembra-se de que uma vez o presidente confidenciou que ele estava irritado com a negociação da Toyota e perguntou-se em voz alta se deveria tentar impedi-la. Ele acha que o presidente falou com o embaixador japonês sobre o assunto, mas sem nenhum resultado.

Ashraf Ghani, ex-ministro das finanças afegão que tem considerado concorrer à presidência este ano, disse que quando o presidente Karzai pediu a ele para juntar-se ao governo, ele ficou preocupado com a possibilidade de negociações favorecendo a família de Karzai.

"Isso vai ser um negócio familiar?", Ghani lembra-se de ter perguntado. "Ele disse que de jeito nenhum. Mas foi o que aconteceu".

Tradução: Eloise De Vylder

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