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08/03/2009

Mulheres iraquianas são especialmente vulneráveis às cicatrizes mentais da guerra

The New York Times
Por Alissa J. Rubin
Em Bagdá
Só quando as armas ficam silenciosas é que a extensão dos danos forjados pelo conflito se torna visível.

Só agora, à medida que a segurança melhora no Iraque, o efeito total da violência contra a população vem à tona.

Dois estudos divulgados neste fim de semana, um sobre saúde mental e o outro sobre a situação das mulheres, pintam um retrato sombrio sobre as enormes dificuldades que terão de ser enfrentadas à medida que o país tenta se recuperar de anos de guerra e terrorismo patrocinado pelo Estado sob o governo de Saddam Hussein e dos conflitos sectários e étnicos mais recentes que vieram depois da invasão norte-americana.

No estudo sobre saúde mental, divulgado no sábado, o governo iraquiano e a Organização Mundial da Saúde pesquisaram 4.332 iraquianos acima dos 18 anos em todo o país e descobriram que 17% sofrem de algum tipo de distúrbio mental, com a depressão, fobias, estresse pós-traumático e ansiedade entre os mais comuns.

O senso de desespero era tão forte entre os portadores de problemas de saúde mental, que quase 70% disseram que pensaram em suicídio.
Entretanto, os psiquiatras e psicólogos que fizeram a pesquisa em 2006 e 2007 disseram que ficaram surpresos com o fato de que essas porcentagens não fossem ainda maiores devido aos níveis de violência e trauma, e imaginam que os iraquianos desenvolveram defesas para se proteger.

"A sociedade iraquiana sofreu por quase 50 anos em circunstâncias difíceis, mas gradualmente as pessoas parecem ter se acostumado a suportar experiências duras", disse Abdul al-Monaf al-Jadiry, psiquiatra da Universidade Amã na Jordânia, que supervisionou o estudo feito para a OMS.

"Eles dependem do apoio da fé e também de relações sociais; se uma mulher perde um membro da família, ela encontra outras mulheres para confortá-la", disse.

O estudo descobriu que as mulheres são mais vulneráveis às doenças mentais. Entre os homens, 14% sofriam de problemas de saúde mental, comparado a 19% das mulheres. Descobriu-se que uma proporção maior de mulheres do que de homens sofria de depressão severa, fobias e ansiedade.

Apenas 2% de iraquianos que sofriam de problemas de saúde mental procuraram tratamento, o que é difícil de obter por aqui. O estigma social ligado à doença mental assim como uma escassez de psiquiatras e psicólogos significam que há pouco tratamento disponível.

Com frequência, os doentes mentais mais graves são mantidos em casa sem tratamento, fora das vistas dos vizinhos e outras pessoas, por medo de que circulem rumores maliciosos sobre toda a família. Uma minoria de iraquianos confina seus parentes doentes em um dos poucos hospitais psiquiátricos.

Doenças mais comuns como a depressão normalmente não são tratadas.
Parte dos iraquianos se automedica. Os clientes das farmácias normalmente pedem Valium ou remédios para dormir.

Os altos níveis de estresse e doenças mentais entre mulheres, comuns em muitas sociedades pós-conflito, podem ser ainda mais altos no Iraque por causa da longa duração da guerra, de acordo com um estudo que será divulgado no domingo pelo grupo de pesquisas sem fins lucrativos Oxfam, e pela organização iraquiana sem fins lucrativos Amal, que se concentra em temas ligados às mulheres.

Apesar do recente aumento de estabilidade no Iraque, muitas mulheres viram suas situações piorar durante os dois últimos anos, de acordo com o estudo, que entrevistou 1.700 mulheres em cinco províncias e foi concluído em maio passado.

Mais de três décadas de guerra deixaram viúvas quase 740 mil mulheres e muitas outras sem pai ou irmãos para cuidarem delas, disse Olga Ghazaryan, diretora regional da Oxfam no Oriente Médio.

Mais de três quartos das viúvas não recebem pensões e um terço das mulheres entrevistadas tinha três horas ou menos de eletricidade por dia. É mais difícil obter um cuidado médico de qualidade do que era em
2006 e 2007, disseram.

"Essas viúvas cuidam não só de seus filhos mas frequentemente da família toda, então estão carregando um fardo pesado", disse Ghazaryan. A responsabilidade de conseguir comida para a família e obter eletricidade e água acarreta um grande estresse para as mulheres.

Além disso, diz ela, "muitas dessas mulheres perderam entes queridos e viram o que aconteceu com eles; elas viram membros da família serem mortos na sua frente e isso é um tremendo fardo".

Tradução: Eloise De Vylder


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