UOL Notícias Internacional
 

09/03/2009

Trégua do Paquistão com o taleban é volátil

The New York Times
Jane Perlez e Pir Zubair Shah
Em Peshawar (Paquistão)
O taleban e o exército paquistanês assinaram uma trégua em fevereiro no vale de Swat, que fica a apenas uma hora ao norte da capital e já foi uma movimentada região turística. Mas longe de estabelecer a paz, o pacto parece ter dado ao taleban total liberdade para expandir seu rígido controle religioso.

Poucos dias depois que o acordo foi assinado, um membro de uma importante família anti-taleban voltou para seu vilarejo nas montanhas depois de receber garantias do governo de que o lugar era seguro. Ele foi imediatamente sequestrado, torturado e assassinado pelo taleban.

Os militantes fizeram bloqueios nas estradas para procurar por quaisquer familiares que ousassem viajar para lá para o enterro. Ninguém foi.

Esta semana, dois soldados paquistaneses que faziam parte de um comboio que escoltava um caminhão-pipa foram mortos a tiros porque não informaram suas ações previamente para o taleban.

Na quarta-feira, o governo provincial assinou um acordo com o líder taleban local responsável por impor a lei islâmica, ou Sharia, na região e por instituir uma série de novas regulações, incluindo a proibição da música, a exigência de que as lojas fechem durante as horas de oração e a instalação de caixas de reclamação para denunciar o comportamento anti-islâmico. Os moradores locais duvidam que as escolas para meninas tenham permissão para reabrir.

Acordos anteriores com os militantes em todas as regiões tribais semiautônomas do Paquistão acabaram criando miniestados que servem como refúgio para os militantes paquistaneses e da Al Qaeda. O governo paquistanês argumentou que a trégua em Swat libertaria o exército do país, reduzindo o sofrimento civil e aplacando a insatisfação popular com o judiciário local.

Centenas de milhares de pessoas que fugiram do país nos últimos seis meses para campos de refugiados em distritos vizinhos ou casas de parentes estão hesitantes, sem saber o que encontrariam se ousassem voltar. "Os militantes não baixaram suas armas", diz o advogado Sher Mohammed, que divide seu tempo entre Swat e Peshawar, a capital da província da Fronteira Noroeste. "Uma vez que você tem o poder nas mãos, é muito difícil abandonar o abuso".

O governo paquistanês assinou o acordo para o cessar-fogo com um velho líder islâmico, Maulana Sufi Muhammad, em 16 de fevereiro, depois que o exército já havia cedido aos guerrilheiros talibãs cerca de 70% de Swat, região de picos nevados e vales férteis.

O governo disse que via a trégua como uma forma de separar os militantes considerados mais acessíveis, como Muhammad, de líderes talibãs linha-dura como seu genro, Maulana Fazlullah, que é um comandante cheio de dinheiro e armas. Fazlullah, apoiado pelo principal grupo taleban do Paquistão e por guerrilheiros da Al Qaeda, liderou uma batalha contra o exército paquistanês em Swat no ano passado.

Os críticos do acordo dizem que ele não atingiu o propósito do governo, e que simplesmente entregou para o Talibã a região de Swat, que era um lugar importante e tolerante.

O exército concordou em retirar-se de uma madrasa [escola islâmica] no vilarejo de Imam Dheri, onde Falullah comandava uma estação de rádio FM antes da ocupação militar no ano passado.

Na quinta-feira, um assessor de Muhammed, Molana Izzat Khan, confirmou que ele selecionaria juízes para os tribunais de Sharia [lei islâmica] a serem inaugurados em 15 de março. O governo provincial insistiu que a lei islâmica atenderá aos pedidos de aceleração da justiça, e não incluirá punições violentas.

Não houve menção ao futuro da educação feminina no acordo na quarta-feira, o que é um mal sinal, dizem os oponentes do taleban. Os militantes atearam fogo em centenas de escolas para meninas em Swat no ano passado, e obrigaram as alunas a ficarem em casa.

O ministro-chefe da província da Fronteira Noroeste, Ameer Haider Hoti, disse durante uma visita a Swat esta semana que as escolas femininas seriam reabertas. Mas o governo provincial está com problemas de orçamento, e especula-se que ele não tenha dinheiro para reconstruir as escolas queimadas.

Além disso, os doadores europeus que haviam angariado fundos para o desenvolvimento em Swat disseram-se hesitantes em ajudar se o Talibã estiver de fato no controle.

Apesar da trégua, a maioria das pessoas continua aterrorizada pelo taleban, diz Mohammad Amad, diretor-executivo de um grupo de ajuda privada, o Eixo de Iniciativa pelo Desenvolvimento e Empoderamento. Os militantes continuam perseguindo qualquer um que apoie o governo e o exército.

Ele citou a morte de um parente, Rahmat Ali, o homem que foi assassinado depois de voltar para casa no vilarejo de Mandal Dag, nas montanhas.

Ali era primo de Pir Samiullah, um líder religioso moderado que partiu para a luta armada contra o taleban com um bando de seguidores por três meses, matando centenas de militantes.

Ali confiava na garantia do governo de que estaria a salvo. "Ele voltou por causa dessas alegações estúpidas do governo", disse Amad. "Ele queria retomar seus negócios". Ele era dono de uma companhia de transportes e planejava vender os veículos, disse Amad.

Ali foi sequestrado e mantido em cativeiro por cinco dias, disse Amad.
Seu corpo foi encontrado em 25 de fevereiro.

"Suas costas estavam sem pele", disse. "Nós tínhamos avisado a ele:
'Você não deve ir, não deve confiar'".

O taleban também anunciou na mesquita local que todas as famílias do vilarejo devem oferecer um jovem para o movimento, disse Amad.

Autoridades locais e provinciais parecem não ter nenhum poder diante do taleban, e muitos continuam exilados em Peshawar.

Algumas autoridades fugiram para a capital Islamabad, e outros foram até para Londres.

Para os que se arriscam a ir para Swat para negociar os acordos com o taleban, os militantes já mostraram quem está no comando.

O oficial de coordenação do distrito, Kushal Khan, foi sequestrado com vários de seus assistentes logo depois de chegar em Swat no fim de semana passado para conversar com os militantes. Eles foram soltos mais tarde.

Em alguns lugares, o taleban estabeleceu novos campos de treinamento, dizem os moradores.

Perto de Mandal Dag, um morador com quem falamos por telefone disse que os militantes estavam usando uma escola do governo nas montanhas como campo de treinamento para prática de tiro. Meninos são ensinados a atingir objetos em movimento atirando em cachorros soltos no campo de tiros.

Uma estação de radio FM que alimentava o terror com eficácia - onde os seguidores de Fazlullah liam os nomes dos ameaçados de decapitação durante a transmissão noturna - continua operando, diz Adnan Khan, empresário em Mingaora, a principal cidade de Swat.

Mas desde o cessar-fogo, o tom tem sido moderado, diz ele, e o tom corrosivo das denúncias dos militantes em relação ao governo e ao exército cessou.

Talvez para mostrar que eles agora estão realmente no controle, os militantes passaram a dar notícia da situação nos vilarejos e a discutir ensinamentos islâmicos, disse Khan.

Tradução: Eloise De Vylder

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