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10/03/2009

Assassinatos na Guiné-Bissau podem sinalizar um novo tempo

The New York Times
Lydia Polgreen
Em Bissau, Guiné-Bissau
Logo após o pôr-do-sol, o general se levantou de sua mangueira favorita. Ao subir para seu escritório, no segundo andar, uma bomba por controle remoto explodiu sob a escada, transformando a lateral do prédio em uma pilha de escombros.

Seu adversário, o presidente, morreu menos de 12 horas depois, após homens altamente armados dispararem uma granada propelida por foguete na porta da frente de sua casa. Eles atiraram e cortaram com facão até a morte o homem que governou este minúsculo país do Oeste da África por 23 dos seus 35 anos de existência, deixando para trás jorros de sangue, um facão enferrujado e cápsulas de balas usadas.

Em quase qualquer outro lugar no mundo, a morte de um presidente eleito democraticamente e do chefe das forças armadas seria recebida com horror. Mas nesta ex-colônia portuguesa, os assassinatos brutais do presidente João Bernardo Vieira e do general Batista Tagme Na Waie foram recebidas não apenas com serenidade, mas também com otimismo.

"Ambos vão tarde", disse Armando Mango, um advogado em Bissau. "Nós fomos reféns deles por tempo demais."

Até mesmo forasteiros, acostumados a se preocuparem com as perspectivas perpetuamente sombrias do país, tiveram que concordar.

"Eu sei que parece loucura", disse um diplomata ocidental daqui, falando sob a condição de anonimato por não estar autorizado a falar publicamente. "Mas esta pode ser a melhor chance de estabilidade que a Guiné-Bissau tem em muito tempo."

Os eventos que se desenrolaram aqui na semana passada são tão improváveis que poderiam facilmente ter sido copiados de um thriller barato de espionagem. Alguns sussurraram que os chefões da cocaína sul-americanos, que transformaram a Guiné-Bissau em um paraíso do narcotráfico, ordenaram os assassinatos.

Outros especularam que a luta de décadas entre os dois homens mais poderosos do país acabou consumindo a ambos. Eles inicialmente foram companheiros na luta pela independência de Portugal, então aliados desconfortáveis e, no final, rivais pelo poder neste país empobrecido e propenso ao conflito.

Vieira, que era universalmente conhecido pelo seu nome de guerra, Nino, e Tagme Na Waie dominaram cada capítulo da história do país, uma crônica de miséria tão absurda e aguda que é quase uma caricatura do Estado africano pós-colonial.

A Guiné-Bissau declarou sua independência em 1973, após uma guerra feroz de guerrilha que deixou o país devastado, então sofreu em meio a experiências desastrosas com a ditadura militar de inclinação marxista sob Vieira. Ocorreram tentativas de golpe e repressão brutal. Nos anos 90, ocorreram tentativas de democracia, então uma guerra civil e ruína. Eleições sucessivas em 2005 devolveram Vieira ao poder, mas uma eleição livre não impediu o declínio.

O narcotráfico é o novo flagelo do país. Segundo autoridades da ONU, até US$ 1 bilhão por ano em cocaína passa pelo país a caminho da Europa. Tanto Vieira quanto Tagme Na Waie eram suspeitos de envolvimento no narcotráfico, segundo diplomatas e analistas na região, uma alegação que aqueles que os apoiavam negavam veementemente.

Mas mesmo antes da chegada dos narcotraficantes, a rivalidade entre os dois homens já mantinha desestabilizada há décadas a política da Guiné-Bissau.

"É bem simples", disse Jan Van Maanen, um empresário holandês que também serve como cônsul honorário da Holanda e Reino Unido em Bissau. "Nino não gostava de Tagme, e Tagme odiava Nino."

Este ódio mútuo tinha raízes pessoais e tribais. Tagme Na Waie era da tribo Balante, que domina o exército. Vieira veio da menos importante tribo Papel. O general alegava que o governo de Vieira já o tinha torturado com choques elétricos em seus testículos. Vieira suspeitava que o general estivesse minando seu poder e ameaçando seu governo.

Oficialmente, há duas comissões investigando os assassinatos, mas ninguém espera que eles sejam solucionados. A casa de Vieira foi saqueada após sua morte. Dois pedaços avariados de equipamento elétrico, suspeitos de serem componentes da bomba que matou o general, estão em um saco plástico preto no quartel-general militar.

Os parentes do general e soldados disseram que Vieira ordenou sua morte, mas outros argumentam que a relativa sofisticação do assassinato aponta para uma conexão estrangeira. Autoridades do governo disseram que um grupo de soldados enfurecidos com a morte de Tagme Na Waie matou o presidente.

A rivalidade entre os homens era tão autocontida quanto aguda. Não demorou muito para a vida voltar ao que se passa por normalidade em um país onde uma em cinco crianças não vive até seu quinto aniversário.

As bandeiras foram baixadas a meio pau, mas as lojas reabriram rapidamente. Poucas pessoas queriam ou podiam lamentar dois homens que passaram muito além da expectativa média de vida do país, de 45,8 anos.

"Nós apenas sobrevivemos", disse João Pereira, que engraxa sapatos em frente a um dos poucos hotéis da cidade. "Não importa quem está no poder, nossa vida permanece a mesma."

Bissau é uma cidade quase fora do tempo, um local onde o progresso parou há décadas. Ruínas graciosas do reinado colonial português margeiam as ruas esburacadas, escurecendo lentamente sob o forte calor tropical.

Ervas daninhas brotam das janelas do Palácio Presidencial, alimentadas pelo sol e chuva que penetram pelo teto que ruiu. O prédio foi danificado na guerra civil do país, que terminou em 1999, e o país é pobre demais para consertá-lo.

A minúscula economia do país se baseia em cajus e peixes, e dois terços de sua população vive na penúria. O governo está perpetuamente sem dinheiro. Os funcionários públicos passam meses sem receber salário. Os adolescentes ficam estagnados na escola, porque os professores frequentemente estão em greve.

Os vizinhos da Guiné-Bissau dizem que se preocupam com a possibilidade do Oeste da África mergulhar em uma nova era de instabilidade e conflito. Os líderes regionais expressaram ultraje em relação aos assassinatos, que pareciam parte do golpe que se seguiu à morte do presidente do país vizinho, a Guiné. Um ataque anfíbio em um terceiro país, a Guiné Equatorial, visando derrubar seu governo, recentemente fracassou.

Mas na Guiné-Bissau, ocorreu uma estranha inversão do padrão. O país parece mais estável após os assassinatos. Os militares não tomaram o poder. O presidente da Assembléia Nacional, Raimundo Pereira, foi empossado presidente, como exigido pela Constituição. O governo está preparando novas eleições.

Permanece o temor de que os militares possam intervir, ou que o novo governo seja ainda mais vulnerável à corrupção. Zamora Induta, um porta-voz das poderosas forças armadas do país, disse que os militares permaneceriam de fora da transição.

É difícil imaginar como a vida na Guiné-Bissau poderia piorar, disse Mango, o advogado.

"Era uma briga entre dois homens grandes", ele disse. "Agora que estão mortos, talvez o país possa finalmente ter uma chance de recomeçar."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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