UOL Notícias Internacional
 

11/03/2009

No recesso da primavera no México, os festejos se misturam com nova cautela

The New York Times
Marc Lacey
Em Cancún (México)
Poucos pareceram notar os comandos policiais altamente armados que cruzavam o distrito das discotecas de Cancún na outra noite, com máscaras de esqui pretas cobrindo seus rostos apesar do calor tropical.

Nem a adolescente segurando um drinque vermelho potente e que dançava sobre um bar ao ar livre, com suas pernas bambas e seus saltos altos perigosamente próximos da beirada. Nem os três homens jovens, com seus olhos mal abertos, que se apoiavam uns nos outros enquanto cambaleavam pela calçada. Nem o folião na guia da calçada, segurando a cabeça com as mãos e vomitando em suas sandálias e pés.

"Você viu aquilo?" perguntou uma das pessoas que vislumbraram a unidade federal antidrogas passar, uma garota com rosto de bebê vestindo uma camiseta "animal party" sobre seu biquíni.

A guerra sangrenta das drogas que o México está vivenciando pode não ser o maior risco às dezenas de milhares de jovens em recesso de primavera que vem aos balneários do país todo ano, para muita festa regada a álcool. Acidentes de moto, brigas, escorregões e quedas - o resultado do consumo excessivo de bebidas com nomes como macaco louco e banshee de banana - são o que mantêm as ambulâncias estacionadas ao longo da movimentada faixa de hotéis de Cancún.

Mas a explosão da violência das drogas paira ao fundo, mesmo aqui neste aparente paraíso de areias brancas, água azul-turquesa e sol ardente.

Se os estudantes dessem uma olhada nos jornais locais, eles veriam artigos sobre o general reformado do Exército que foi torturado e morto no mês passado na estrada que sai de Cancún. A morte do ex-oficial, Mauro Enrique Tello, que foi contratado para reformar a força policial corrupta de Cancún, levou à detenção do chefe de polícia da cidade, sob suspeita de que possa ter ajudado a proteger os assassinos.

Os responsáveis são supostamente membros dos Zetas, um temido grupo paramilitar com laços com os cartéis das drogas.

O caso mostrou de forma horrível como até mesmo Cancún, o principal destino turístico do México, foi infiltrada pelos cartéis das drogas.

Há, é claro, duas Cancúns: uma faixa artificial de hotéis vistosos e uma cidade dura, cheia de vício. Ainda assim, a disseminação da violência pelo país está preocupando as autoridades do governo mexicano, uma das quais reconheceu recentemente que seu pior pesadelo era os cartéis começarem a visar os turistas, como os terroristas fizeram em locais como Bali.

George J. Tenet, o ex-diretor da agência central de inteligência americana, estava preocupado o bastante a respeito do aumento da violência a ponto de dizer ao seu filho universitário, John Michael, para cancelar sua viagem prevista para Acapulco e escolher outro país para as festividades de primavera, segundo Bill Harlow, o ex-porta-voz de Tenet na CIA.

Uma mensagem de e-mail revelando a decisão da família Tenet tem circulado pela Universidade da Pensilvânia e outras faculdades nas últimas semanas, fazendo alguns estudantes pensarem duas vezes a respeito do México.

"No segundo em que recebi o e-mail, eu pensei em cancelar", disse Ashley Knight-Greenfield, que está em uma vila em Acapulco com 17 outras mulheres da Universidade da Pensilvânia. "Eu fiquei tão assustada, mas também tive dúvidas. Se é verdade, porque todos não sabem a respeito?"

O e-mail exagerava alguns dos fatos, dizendo que Tenet, que deixou a CIA em 2004, tinha consultado o chefe da agência de espionagem mexicana e teria sido informado de que os cartéis ameaçavam fazer mal aos turistas.

Mas a verdade é que esta conversa entre os chefes de espionagem nunca ocorreu, portanto essa ameaça nunca foi informada, disse Harlow. "É verdade que o filho dele estava pensando em ir ao México no recesso de primavera, mas Tenet viu os alertas públicos do Departamento de Estado e o noticiário e acho que provavelmente não era uma boa idéia ir para lá", disse Harlow. "Quanto ao restante, é tudo invenção."

O Departamento de Estado pediu cautela aos americanos que viajarem ao México, particularmente ao norte do país, onde tiroteios têm matado pessoas inocentes e forçado alguns americanos a buscarem abrigo. Algumas universidades foram mais longe, recomendando aos estudantes para não irem.

A Universidade do Arizona, em Tucson, pediu aos seus estudantes que procurassem um país diferente no qual celebrar o recesso de primavera neste ano. Puerto Penasco, uma praia próxima no Golfo da Califórnia, no Estado de Sonora, é o destino mais popular para os estudantes de lá, e o alerta da universidade levou Epifanio Salido, diretor da secretaria de turismo de Sonora, a realizar uma coletiva de imprensa em Tucson, na qual declarou: "Sonora é diferente de Tijuana. Sonora é diferente de Chihuahua".

Tijuana e Ciudad Juarez, no Estado de Chihuahua, foram duas das cidades mais violentas no México no ano passado, à medida que cartéis rivais disputavam território. O turismo em ambas as cidades despencou no ano passado, disseram as autoridades, mas no geral, o número de turistas estrangeiros visitando o México cresceu cerca de 6% em 2008 em comparação a 2007, para 23 milhões de pessoas, em parte em consequências da desvalorização do peso, o que torna o país um bom negócio.

Mesmo assim, especialistas em relações públicas do México estão tão preocupados com a possibilidade do turismo secar que alguns começaram a retirar o nome do país dos materiais promocionais, para que as pessoas possam pensar em Cancún ou em Playa del Carmen como sendo lugares imaculados, sem serem lembradas de que, por acaso, ficam naquele lugar perigoso chamado México.

O aumento da violência - mais de 6 mil assassinatos relacionados às drogas no ano passado, o dobro do número do ano anterior- é visto como uma resposta dos cartéis à decisão do presidente Felipe Calderón de empregar o exército e a polícia federal contra eles. A maioria das vítimas, aponta o governo, é composta dos próprios traficantes ou das autoridades que os caçam.

Enquanto veículos militares se tornam uma visão mais comum nas cidades mexicanas, e os turistas que sabem espanhol podem ler diretamente as mensagens dos chefões das drogas, penduradas ocasionalmente em viadutos em cidades por todo o país, o governo faz objeção às sugestões de que o México se transformou em uma grande cena de crime.

"Eles apontam para nós como se fôssemos Beirute ou a Faixa de Gaza, mas não somos", disse recentemente Miguel Gomez Mont, o chefe da secretária de desenvolvimento do turismo do México.

Knight-Greenfield, a estudante da Universidade da Pensilvânia, concordou, dizendo que a criminalidade comum parecia ser a maior ameaça, não os cartéis. "Nós temos um motorista e vamos direto para a casa noturna, entramos rapidamente e então voltamos direto para casa", ela disse sobre sua estratégia de segurança.

Mas mesmo isso não tornou sua viagem livre de incidentes. Como tantos estudantes preocupados com a segurança estão contratando motoristas para transportá-los em vans, os taxistas em Acapulco começaram a bloquear as ruas, ela disse, em alguns casos removendo à força os passageiros das vans e ordenando que entrem nos táxis.

"Isso foi assustador", ela disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,59
    3,276
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -1,54
    61.673,49
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host