UOL Notícias Internacional
 

12/03/2009

Famílias de classe média dos EUA perdem casa e vão morar em motel

The New York Times
Erik Eckholm
Em Costa Mesa (EUA)
Greg Hayworth, 44, graduou-se pela Universidade de Syracuse e fez uma boa vida em seu Estado natal da Califórnia, financiando hipotecas e vendendo imóveis. Aí, esse negócio desmoronou e, no início do ano passado, o banco requisitou a casa que sua família estava alugando, forçando sua evicção.

Agora os Hayworth e seus três filhos representam uma nova face dos sem-teto no condado Orange: antes de classe média, agora eles vivem de semana a semana em um quarto de motel apertado.

  • Monica Almeida/The New York Times

    Johnny Garza segura seu filho enquanto entra em quarto de motel onde vive, em Costa Mesa

  • Monica Almeida/The New York Times

    Garza serve o almoço no quarto de motel onde vive com a família

"Devo aos meus filhos sair daqui", disse Hayworth, lembrando-se da noite em que viram um vizinho do motel arrastar uma mulher seminua para fora, batendo nela.

Com o aprofundamento da recessão, trabalhadores antigos que perderam seus empregos estão enfrentando o terror e o estigma de não terem casa pela primeira vez, inclusive muitos que tiveram moradia por anos. Alguns aparecem nos abrigos e nas ruas, mas outros, como os Hayworth, são sem-teto não detectados -que moram em apartamentos com outras pessoas, em garagens ou em motéis, não são contabilizados nos dados federais e freqüentemente recebem pouca ajuda pública.

Os Hayworth tentaram ficar com parentes, mas terminaram no Costa Mesa Motor Inn em setembro, uma das mais de 1.000 famílias que se estima estarem morando em motéis só no condado Orange. Eles estão entre poucos sortudos: uma agência caridade paga parte dos US$ 800 (cerca de R$ 1.600) enquanto Hayworth tenta reinventar sua carreira.

A família, que inclui uma filha de 15 anos, compartilha um único cômodo e dorme em duas camas. A maior parte das suas posses está armazenada, e eles comem em dois turnos, em três pratos emprestados -tudo o que um armário lotado consegue manter. Sua mulher tem problemas de saúde e, como muitas outras famílias, eles não conseguem juntar dinheiro suficiente para fazer o depósito de segurança e arcar com os outros custos adiantados necessários para alugarem um novo lugar.

Existem centenas de famílias em motéis em Denver, ao longo da Route 1 na Eastern Seabord, e em outras cidades, de Chattanooga, Tennessee, até Portland, Oregon. Mas são especialmente prevalecentes no condado Orange, que tem alto custo de aluguel, falta de moradias públicas e excesso de motéis antigos que antes abrigavam os visitantes da Disneylândia.

"Os motéis se tornaram a moradia de baixa renda no condado Orange", disse Wally Gonzáles, diretor do Projeto Dignidade, um de dezenas grupos de pequenas caridades e de igreja que emergiram para assistir às famílias, usualmente ajudando algumas dúzias e dependendo de doações de alimentos, roupas e brinquedos.

No passado, as famílias em motéis eram aquelas em dificuldade crônica. Em 1998, uma reportagem sobre as crianças negligenciadas em motéis levou à criação de forças tarefas na prefeitura e a promessas de ajuda. Entretanto, nos últimos meses, escolas, igrejas e obras de caridade informam que uma espécie diferente de família está aparecendo.

"As pessoas pedindo ajuda são de uma variedade demográfica mais alta do que vimos no passado, famílias de classe média", disse Terry Lowe, diretor de serviços comunitários em Anaheim, Califórnia. Os motéis vão desde os com carpetes rasgados e moradores alcoólatras ou viciados até lugares novos com playgrounds e quitinetes. Com nomes como Covered Wagon Motel e El Dorado Inn, eles parecem como qualquer outra parada modesta de interior. Ao entrar, contudo, essa noção muda imediatamente.

À noite, o cheiro de molho de macarrão cozido em pratos quentes atravessa as portas semicerradas; de manhã, as crianças saem para pegar o ônibus escolar. Famílias de três, seis ou mais são espremidas em um cômodo, uma criança fazendo o dever de casa na cama, enquanto a outra assiste à televisão. As crianças se revezam para dormir no chão. Algumas famílias, como os Malpica, em um motel em Anaheim, usaram o armário para o berço.

A família Garza mudou-se para o Costa Mesa Inn em agosto, após o marido, Johnny, perder o emprego na Target, e a mulher, Tamara, perder o emprego na Petco. Eles foram despejados do apartamento que alugavam de dois quartos. Sua filha de 9 anos agora divide a cama com dois irmãos mais moços; brinquedos e livros escolares ficam empilhados no chão. O bebê do casal, nascido em abril, dorme em um pequeno berço. Os programas federais e municipais de ajuda para aluguéis atingem apenas uma pequena fração das famílias em necessidade, disse Bob Cerince, coordenador de sem-teto e moradores de motel em Anaheim, que estima as famílias em mais de 1.000.

O pacote de estímulo do presidente Barack Obama talvez dê esperança a mais pessoas e detenha o aumento projetado de famílias que podem acabar em motéis e abrigos, disse Nan Roman, presidente da Aliança Nacional para Pôr Fim à Falta de Moradia em Washington. O pacote dedica US$ 1,5 bilhão (em torno de R$ 3 bilhões) para prevenção dos sem-teto, inclusive ajuda com aluguel e depósito de garantia. As escolas fizeram esforços especiais para ajudar as crianças de famílias desalojadas a permanecerem em sala de aula e algumas enviam o serviço social para conectar as famílias com serviços de aconselhamento e ajuda alimentar.

Wendy Dalling, assessora dos sem-teto em um dos sete distritos escolares de Anaheim, disse que, nos últimos três meses, ficou sabendo de 38 novas famílias sem moradia, elevando o total em seu distrito para 376. Cerca de 48 dessas famílias estão morando em motéis; o resto está em abrigos ou alugando um quarto ou uma garagem, fica com parentes ou mora em carros, disse Dalling. Ao mesmo tempo, com a crise de orçamento da Califórnia, alguns assistentes sociais estão sendo demitidos.

Das famílias que moram em motéis, muitas têm ao menos um dos pais trabalhando e pagam US$ 800 a US$ 1.200 por um quarto. Ainda assim, os que têm emprego ficam presos à vida de motel por anos pela falta de crédito e pela dificuldade de juntar a quantia para o depósito de segurança para garantir o aluguel de um apartamento.

Paris Andre Navarro, 47, sabe como é difícil voltar. Ela e seu marido costumavam ter bons empregos e um apartamento em Garden Grove, perto de Anaheim. Mas eles passaram os três últimos anos com sua filha de 11 anos no El Dorado Inn.

Eles perderam o chão quando os problemas de saúde do marido o forçaram a deixar seu emprego como técnico de computação e o trabalho de Navarro como assistente de enfermagem terminou. Eles foram despejados e se mudaram para o motel, e ela começou a trabalhar à noite na Target.

No ano passado, quando o marido de Navarro começou em um emprego de telemarketing, eles acharam que talvez conseguissem escapar. Essa esperança evaporou-se quando as horas dela na Target foram cortadas ao meio. Com o aluguel semanal de US$ 241, um pagamento de carro de US$ 380 e os gastos essenciais, eles não conseguem economizar.

"Agora estamos vivendo de salário em salário", disse Navarro.

Sua filha, Crystal, tenta parecer forte. "O que mais sinto falta é de ter um bicho de estimação", disse ela. O motel não permite animais, então ela teve que dar seu gato e seus filhotes.

Greg Hayworth, cuja família passou seis meses deprimentes no Costa Mesa Inn, tentou trabalhar com vendas, mas teve dificuldades em encontrar um emprego duradouro. Paul Leon, enfermeiro que formou a Fundação Illumination para ajudar as famílias em motéis, prometeu ajudar com um depósito de segurança quando os Hayworth puderem se mudar.

A filha adolescente dos Hayworth teve dificuldades com a falta de privacidade. Ela tem vergonha demais para levar amigos para casa e não se sente à vontade para se vestir na frente dos irmãos, que têm 10 e 11 anos. Há pouco tempo, colegas na escola zombaram dela por morar no motel.

"Prometi à minha filha que estaríamos fora daqui no aniversário dela", disse Hayworth. "Mas isso foi na semana passada e ainda estamos aqui."

"Realmente fiquei mal noutro dia", acrescentou. "Meu filho chegou em casa e perguntou: 'Somos sem-teto?' Não soube o que responder."

Tradução: Deborah Weinberg

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