UOL Notícias Internacional
 

13/03/2009

Canções para um animal imaginário perturbam censores de internet chineses

The New York Times
Michael Wines
Em Pequim
Desde sua primeira aparição não anunciada na internet da China, em janeiro, a alpaca se tornou um fenômeno.

Uma canção infantil no YouTube sobre o animal já atraiu quase 1,4 milhão de espectadores. Um desenho da alpaca já recebeu um quarto de milhão de espectadores adicionais. Um documentário sobre seus hábitos atraiu 180 mil adicionais. As lojas estão vendendo alpacas de brinquedo. Os intelectuais chineses estão escrevendo tratados a respeito da importância social da alpaca. A história da luta da alpaca contra o maligno caranguejo de água doce se espalhou por toda a comunidade online chinesa.

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Nada mal para uma criatura mítica cujo nome, em chinês, soa como um palavrão especialmente obsceno, o que é exatamente o problema.

A alpaca é um exemplo de algo que, no sistema autoritário da China, é considerado comportamento subversivo. Concebido como um protesto travesso contra a censura, o animal de nome sujo não apenas fez os censores do governo parecerem ridículos.

Ele também colocou em dúvida a capacidade da China de conter o fluxo de informação na internet - um projeto no qual o governo chinês já gastou riquezas incontáveis e escreveu inúmeros programas de algoritmos para eliminar o pensamento divergente da maior cibercomunidade do mundo.

Os computadores do governo vasculham constantemente o ciberespaço chinês, caçando palavras e frases que os censores consideram incitadoras ou sediciosas. Quando encontram uma, o blog ou sala de bate-papo ofensor pode ser bloqueado em minutos.

Xiao Qiang, um professor adjunto de jornalismo da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que supervisiona um projeto que monitora os sites de Internet da China, disse por um e-mail que a alpaca "se tornou um ícone da resistência à censura".

"A expressão e os vídeos podem parecer uma resposta juvenil a uma regra injusta", ele escreveu. "Mas o fato de um vasta população online ter se juntado ao coro, de eruditos sérios a funcionários de escritório urbanos politicamente apáticos, mostra quão forte é esta expressão."

Wang Xiaofeng, um jornalista e blogueiro de Pequim, disse em uma entrevista que o animalzinho ilustra muito bem a futilidade da censura. "Quando as pessoas têm emoções ou sentimentos que querem expressar, elas precisam de um espaço ou canal", ele disse. "É como o fluxo da água - se você bloquear em uma direção, ela flui em outras ou transborda. É preciso haver um escoamento."

A população online da China sempre conviveu com a censura, mas a supervisão aumentou acentuadamente em dezembro, após um movimento pró-democracia liderado por intelectuais altamente respeitados, a Carta 08, ter divulgado uma petição online pedindo pelo fim do monopólio do poder pelo Partido Comunista.

Logo depois, os censores do governo deram início a uma campanha ostensiva contra a pornografia e outras formas de desvio na internet. Em meados de fevereiro, o esforço do governo já tinha fechado mais de 1.900 sites e 250 blogs - não apenas os abertamente pornográficos, mas também fóruns de discussão online, grupos de mensagens instantâneas e até mesmo mensagens de texto para celulares nas quais assuntos políticos e outros sensíveis eram abordados.

Entre os sites mais proeminentes que foram fechados estava o bullog.com, um fórum altamente lido no qual blogueiros liberais escreviam em detalhe sobre a Carta 08. O China Digital Times, um site da Universidade da Califórnia liderado por Xiao, que monitora a internet chinesa, a chamou de a "repressão mais severa em anos".

Foi tendo isso como fundo que a alpaca e vários companheiros míticos apareceram no início de janeiro no Baidu, um portal de internet chinês. Os nomes das criaturas, da forma como são escritos em chinês, eram inocentes. Mas na língua falada, eles ganham um duplo sentido indiscutivelmente sujo.

Logo, apesar da alpaca soar como um palavrão bem obsceno em chinês, seus caracteres escritos chineses são completamente diferentes, e seu significado -entendido literalmente - é benigno. Dessa forma o animal não apenas driblou os computadores dos censores, como também evitou a proibição pelo governo do chamado comportamento ofensivo.

Como retratada online, a alpaca parece inicialmente bem inocente.

A alpaca vive em um deserto cujo nome lembra outro palavrão. Os animais são "corajosos, tenazes e superam o ambiente difícil", diz a canção no YouTube sobre eles.

Mas eles enfrentam um problema: os "caranguejos de água doce" invasores, que estão devorando sua relva. Na língua falada chinesa, "caranguejo de água doce" soa muito como "harmonia", que no ciberespaço da China se tornou sinônimo de censura. Os blogueiros censurados frequentemente dizem que suas postagens foram "harmonizadas" - um termo extraído diretamente das exortações regulares do presidente Hu Jintao para os cidadãos chineses criarem uma sociedade harmoniosa.

No final, diz a canção, as alpacas são vitoriosas: "Elas derrotam os caranguejos de água doce para proteger suas terras; os caranguejos de água doce desaparecem para sempre do deserto Ma Le".

O vídeo online das alpacas acompanhando alegremente uma canção ao estilo Disney cantada por um coro de crianças rapidamente se torna chocante - e então hilariante para muitos chineses - ao ficar claro que a canção infantil está repleta de linguagem obscena.

Para os intelectuais chineses, a mensagem da canção é claramente subversiva, uma lição de que os cidadãos podem ridicularizar as autoridades mesmo quando parecem seguir as regras. "O tom é de: eu sei que vocês não me permitem dizer certas coisas. Veja, eu estou cooperando, não estou?" disse a professora e crítica social Cui Weiping, da Academia de Cinema de Pequim, em seu blog. "Eu estou cantando uma canção infantil bonitinha - eu sou uma alpaca! Apesar de estar sendo ouvida em todo o mundo, vocês não podem dizer que violei a lei."

Em um ensaio intitulado "Eu sou uma alpaca", Cui comparou a campanha antiobscenidade à campanha "contra a poluição espiritual" da China em 1983, outra cruzada contra a pornografia cuja meta maior era esmagar os críticos do partido influenciados pelo Ocidente.

Outro blogueiro importante, o sociólogo Guo Yuhua, da Universidade Tsinghua, chamou a alpaca de "arma dos fracos" - o título de um livro do cientista político de Yale, James Scott, descrevendo como os camponeses sem poder resistiram aos regimes ditatoriais.

É claro, o governo poderia decidir apagar todas as referências na internet da "alpaca", uma tarefa simples para o software de censura. Mas apesar dos cibercidadãos chineses serem fracos, eles também são inteligentes.

O blogueiro Uln, de Xangai, já teve uma idéia. Escrevendo de forma irônica -ou talvez não- ele sugeriu recentemente que os defensores online da democracia parem de se referir à Carta 08 pelo nome, escolhendo um apelido diferente. "Wang", talvez. Wang é um sobrenome onipresente, de forma que separar os Wangs subversivos dos inofensivos poderia derreter os circuitos até mesmo do computador mais poderoso dos censores.

Yang Xiyun e Zhang Jing contribuíram com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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