UOL Notícias Internacional
 

13/03/2009

Na poderosa Índia, a fome infantil é comum

The New York Times
Somini Sengupta
Em Nova Déli (Índia)
Crianças pequenas, doentes e abatidas são há muito tempo um problema da Índia - "uma vergonha nacional", segundo o primeiro-ministro do país, Manmohan Singh. Mas, mesmo após uma década de crescimento econômico galopante, os índices de desnutrição infantil continuam sendo piores aqui do que em vários países africanos subsaarianos, e representam um paradoxo em uma orgulhosa democracia.

A China, a outra potência econômica asiática, reduziu drasticamente a desnutrição infantil, e hoje em dia apenas 7% das crianças com menos de cinco anos de idade estão abaixo do peso, o que é um indicador crítico da desnutrição. Já na Índia, apesar do crescimento econômico robusto e das boas intenções do governo, este índice é de 42,5%.

A desnutrição torna as crianças vulneráveis a doenças e prejudica o crescimento físico e mental por toda a vida.

As razões desafiam explicações simples. Economistas e especialistas em saúde pública afirmam que os índices persistentes de desnutrição apontam para um descaso central desta democracia para com os pobres. Amartya Sen, o ganhador do Prêmio Nobel de Economia, lamenta que a fome seja uma prioridade política limitada aqui. Os gastos públicos da Índia com saúde continuam baixos, e, em alguns locais, as verbas para o financiamento de programas de nutrição infantil não são utilizadas.

Mas várias democracias praticamente erradicaram a fome. E ignorar completamente as necessidades dos pobres é algo que pressagia perigo político na Índia, e que contribuiu para a derrota de certos partidos políticos na eleição passada. Por ora, os políticos parecem estar mais concentrados na questão geral da desigualdade do que na fome.

Outros especialistas apontam para a eficiência de um Estado autoritário como a China. Na Índia, um Estado indolente, e às vezes corrupto, só aplicou ineficientemente algumas soluções relativamente simples - acrescentar iodo ao sal, por exemplo, ou garantir que todas as crianças sejam vacinadas contra doenças que podem ser prevenidas. Isso para não falar dos progressos quanto a tarefas mais árduas, como a mudança da alimentação infantil e da forma como os alimentos são fornecidos às crianças. Mas à medida que a China tornou-se mais próspera, ela enfrentou os seus problemas na área de saúde, já que o governo sacrificou a rede de previdência social com a adoção de uma economia mais orientada para o mercado.

Embora a Índia administre o maior programa de alimentação infantil do mundo, os especialistas concordam que ele foi elaborado de forma inadequada, pouco tendo contribuído para reduzir o número de crianças doentes nos últimos dez anos.

O programa integrado Serviços para o Desenvolvimento da Criança, no valor de US$ 1,3 bilhão, a principal iniciativa da Índia para o combate à desnutrição, financia uma rede de cantinas que fornecem sopas em favelas urbanas e vilarejos.

Mas a maioria dos especialistas concorda que o fornecimento de nutrição adequada a mulheres grávidas e crianças de menos de dois anos é crucial - e o programa indiano não abordou essa questão de forma adequada. E ele tampouco teve sucesso em modificar suficientemente a alimentação e as práticas de higiene infantil. Muitas mulheres continuam com a saúde precária e são mal alimentadas; elas tendem a dar à luz bebês de peso baixo e a não saber qual a melhor forma de alimentar os filhos.
Uma visita a Jahangirpuri, uma favela nesta que é a mais rica das cidades indianas, revela intensamente a magnitude desse desafio. Pouco após o amanhecer, em uma sala alugada ao longo de uma ruela estreita, uma equipe formada por mulheres preparava panelas enormes de arroz bem temperado e mingau de lentilha.

Purnima Menon, pesquisadora da área de saúde pública do Instituto Internacional de Pesquisas de Políticas Alimentares, ficou aliviada ao ver que a comida que era preparada não consistia apenas de amido; havia até rodelas de cenoura nas panelas. O mingau foi colocado em vasilhames e levado em bicicletas de carga para creches que fornecem tratamento médico e ajudam crianças em situação de risco e suas mães na região.

Mas, em uma das creches - anganwadi no idioma hindi - a professora faltou. Em outra, não havia crianças; somente alguns adultos que perambulavam com tijelas de refeição. Em uma terceira, a funcionária da creche, Brij Bala, disse que 13 crianças e 13 mães lactantes já tinham vindo receber a sua porção de alimentos, e que agora iria encher as tijelas de quem quer que aparecesse. "Eles nos pedem mais comida, e nós temos que dar", confessou Bala. "Caso contrário, eles nos amaldiçoam".

Nenhum dos centros têm uma balança para pesar as crianças e identificar as que são vulneráveis, o que é uma parte fundamental do programa de nutrição.

E o mais importante sob o ponto de vista de Menon é o fato de as creches estarem deixando de atender às necessidades daquelas que correm mais risco: crianças de menos de dois anos, para as quais os centros de alimentação oferecem uma ração seca de farinha e lentilhas moídas, que não contém nenhum dos micronutrientes dos quais essas crianças necessitam.

Em um memorando preparado em fevereiro último, o Ministério de Desenvolvimento das Mulheres e da Criança reconheceu que embora o programa tenha registrado alguns resultados nos últimos 30 anos, "o seu impacto no crescimento e no desenvolvimento físico tem sido muito lento". O relatório recomendou a fortificação dos alimentos com micronutrientes e a educação dos pais para que estes saibam como alimentar melhor os seus bebês.

Um relatório feito no mês passado pelo Programa Mundial de Saúde observou que a Índia continua abrigando mais de um quarto dos famintos do mundo, o que representa 230 milhões de pessoas. O relatório também mencionou o aumento dos casos de anemia entre as mulheres em idade reprodutiva na zona rural de oito Estados da Índia. As mulheres indianas são com frequência as últimas a comer em suas casas e muitas vezes é improvável que se alimentem satisfatoriamente durante a gravidez.

O instituto de Menon, com sede em Washington, classificou recentemente a Índia abaixo de 24 países saariano no seu Índice Global da Fome.

A anemia infantil, um termômetro da desnutrição encontrado no leite das mães lactantes, é três vezes maior na Índia do que na China, segundo um trabalho de pesquisa feito em 2007 pelo instituto.

O último Índice Global da Fome descreveu a fome em Madhya Pradesh, um Estado pobre da Índia Central, como "extremamente alarmante", e colocou a região em uma posição entre o Chade e a Etiópia.

Porém, o mais surpreendente foi a constatação de que índices "graves" de fome persistem em Estados indianos que apresentaram índices desejáveis de crescimento econômico nos últimos anos, incluindo Maharashtra e Gujarat.

Aqui na capital, que possui a maior renda per capita do país, 42,2% das crianças com menos de cinco anos são muito pequenas para a respectiva idade, e 26% delas estão abaixo do peso mínimo recomendado. A poucos quarteirões do parlamento indiano, crianças pequenas e subnutridas pedem dinheiro aos motoristas quando a luz do semáforo fica vermelha.

Em Jahangirpuri, um rato morto pode ser visto no pátio em frente à creche de Bala. As ruas estreitas estão repletas de lodo dos esgotos. A malária e as doenças respiratórias, que podem ser devastadoras para crianças debilitadas e desnutridas, são generalizadas. As mercearias locais vendem pequenos sacos de batatas fritas e refrigerantes, o que mostra que os moradores estão longe de viverem na miséria.

Em uma outra rua, Menon encontrou uma jovem mãe chamada Jannu, uma migrante proveniente da cidade de Lucknow, no norte do país. Jannu disse que está tendo dificuldade para produzir leite suficiente para o bebê que traz nos braços, que tem cerca de seis meses de idade. As fezes esverdeadas e líquidas do bebê escorrem pelos braços da mãe. Jannu diz que o bebê frequentemente tem diarreia, enquanto lava o braço mecanicamente com uma vasilha d'água.

Menon percebe como Jannu é pequena, assim como tantas outras mães de Jahangirpuri. Com 1,57 metro de altura, Menon é muito maior do que ela. Crianças que têm mais ou menos a mesma idade da sua filha são muitas vezes 30 centímetros mais baixas. Ela observa que crianças miúdas são tão comuns aqui que a desnutrição fica muito visível.

"O que vejo é um sistema fracassando", afirma Menon. "Ele está fazendo algo, mas não está resolvendo o problema".

Hari Kumar contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

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