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14/03/2009

Fazendeiros lideram movimento pela criação de duas Califórnias

The New York Times
Maria Wollan
Em Visalia, Califórnia (EUA)
Durante os seus quase 90 anos de fazenda, Virgil Rogers enfrentou todo os tipos de problemas do setor agropecuário, das vacas com cólicas à oscilação dos preços do leite e às secas, tanto as passadas quanto a presente.

Mas, segundo Rogers, a sua mais recente fonte de aborrecimento são alguns outros californianos.

Gary Kazanjian/The New York Times 
Maze (esq.), um dos líderes do movimento secessionista, aborda o fazendeiro John Mitchell


"Aqueles tipos de Hollywood não fazem ideia do que está se passando aqui nas fazendas", reclama Rogers, um pecuarista aposentado do setor de laticínios em Visalia, localidade que faz parte do Condado de Tulare, na região de Central Valley, onde o número de vacas é bem maior do que o de pessoas.

Por isso, nas últimas semanas, Rogers, cujo envolvimento anterior com a política limitava-se à doação de um cheque a um candidato favorito - tornou-se subitamente um líder de um movimento secessionista que tem por objetivo dividir o Estado da Califórnia em duas partes.

Mas embora o projeto não seja novo - a ideia de duas Califórnias já foi levantada dezenas de vezes - as motivações e o trabalho de divisão geográfica são.

Frustrados por aquilo que chamam de eleitores urbanos desinformados ditando uma política agropecuária equivocada, Rogers e outros membros do movimento propuseram a separação de 13 condados do litoral do Estado, de forma que os 45 restantes, a maioria no interior, formassem a Califórnia "real".

O motivo, segundo eles, é que a população desses condados litorâneos, que incluem São Francisco e Los Angeles, simplesmente não entende como é a vida nas áreas que não são atingidas pelas brisas marinhas.

"Eles acham que os peixes são mais importantes do que as pessoas, que os porcos são maltratados e que as galinhas deveriam ser criadas soltas", diz Rogers, que conta ter se deslocado em 1940 de Oklahoma para Visalia para escapar do Dust Bowl, trazendo consigo a mulher e o filho bebê. "O povo da cidade simplesmente não sabe quanto trabalho é necessário para que se tenha comida na mesa".

A gota d'água para pessoas como Rogers foi a Proposta 2, uma medida plebiscitária em novembro do ano passado que proibiu o confinamento rígido de galinhas poedeiras, novilhos e porcos. Embora muitos ativistas do setor de alimentos e políticos do Estados tenham saudado a votação com prova do crescente interesse dos consumidores pelo local onde a comida é produzida, a aprovação da proposta enfureceu os fazendeiros e os seus aliados, que agora desejam submeter a votação a proposta de secessão, talvez já em 2012.

"Precisamos nos perguntar se existe uma maneira melhor de governar este Estado", diz o ex-membro republicano da Assembleia Estadual da Califórnia, Bill Maze, presidente e fundador do grupo sem fins lucrativos Citizens for Saving California Farming Industries (Cidadãos Pela Salvação das Indústrias Agropecuárias da Califórnia), que está liderando as iniciativas secessionistas.

Rogers, que é co-fundador da organização, é presidente do comitê diretor.

Quando decidiu lutar pela separação dos condados, Maze conta que se certificou de que, nos seus planos, os grandes condados suburbanos e de tendência conservadora a leste de Los Angeles ficassem do seu lado da fronteira, garantindo-lhe uma maioria da população. Ele pretende passar os próximos anos falando aos moradores dessas áreas sobre os benefícios da secessão.

"Desde que a Califórnia tornou-se um Estado, em 1850, houve mais de 200 tentativas sérias de dividir o Estado", afirma Kevin Starr, um professor de história da Universidade do Sul da Califórnia que já foi bibliotecário estadual.

Agitadores do norte da Califórnia e do sul do Oregon vêm tentando criar um Estado, que eles chamariam de Jefferson, desde 1941. Em 1993, a Assembleia da Califórnia aprovou uma proposta no sentido de dividir o Estado em três partes, embora o plano tivesse sido derrotado mais tarde no Senado Federal. Segundo a Constituição dos Estados Unidos, qualquer plano deste tipo precisa da aprovação congressual.

"Essas tentativas de divisão indicam 'disjunções culturais', 'divisão democrata-republicana' e 'ansiedades secessionistas' na Califórnia", afirma Starr.

O clima pró-secessão também foi amplificado por uma série de anos de dificuldades em cidades do Central Valley, como Visalia, que fica 64 quilômetros a sudeste de Fresno. O coração agropecuário da Califórnia é um centro da crise imobiliária, e os condados da região apresentam alguns dos maiores índices de desemprego do país. Além disso, uma seca tem deixado os fazendeiros desesperados por água.

Alguns fazendeiros também suspeitam da orientação política em Sacramento, a capital do Estado. Em janeiro deste ano, o Comitê de Agricultura do Senado Estadual foi rebatizado de Comitê de Alimentos e Agricultura, o que indicou uma abordagem da política agrícola mais ampla e mais orientada para o consumidor. O presidente do comitê, o senador Dean Florez, democrata por Fresno, acredita que a tentativa de secessão representa tensões maiores entre os consumidores e os produtores de alimentos.

"Em vez de dividir a Califórnia, venham sentar-se à mesa com os consumidores", diz Florez. "A indústria agropecuária parece estar dizendo, 'Vocês comerão o que for colocado à sua frente', e esta é uma visão muito equivocada a respeito dos consumidores. Se os consumidores estão mudando as suas preferências, a indústria precisa acompanhar essa mudança".

Os ativistas do setor de alimentos e dos direitos dos animais concordam com Florez. "É injusto afirmar que os consumidores não se preocupam com os fazendeiros", afirma Rebecca Spector, do Centro de Segurança Alimentar. "Com o aumento da incidência de doenças transmitidas por alimentos, todos os consumidores, tanto urbanos quanto rurais, têm o direito de exigir que a comida seja produzida de forma segura e saudável".

Os secessionistas têm um caminho árduo pela frente. O grupo arrecadou apenas cerca de US$ 12 mil, uma quantia ínfima em um Estado no qual as campanhas plebiscitárias custam milhões de dólares. Mesmo assim, desde que o grupo lançou o se website, o www.downsizeca.org, em meados de fevereiro, pelo menos 150 pessoas por dia inscreveram-se para receber informações e oferecer ajuda para a causa, diz Maze.

Rogers contribuiu com US$ 3.000 da sua poupança. A maior parte do dinheiro foi destinada ao aluguel de um quiosque da World Ag Expo, uma feira agropecuária perto de Visalia, em janeiro último. Vários milhares de pessoas deram uma parada no quiosque, e muitas saíram levando panfletos e usando camisetas com a inscrição "Downsize California" ("Reduzam o Tamanho da Califórnia"). Rogers acredita que tudo isso comprova que o dinheiro foi bem empregado.

"Sou um velho cão de caça", diz ele. "Se eu estiver latindo para o alto de uma árvore, quero saber quantos esquilos estão lá em cima".

Tradução: UOL

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