UOL Notícias Internacional
 

14/03/2009

Na Argentina, uma câmera e um blog transformam uma adolescente em celebridade

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Buenos Aires
"Cumbio está aqui!" gritou uma menina, após avistar Agustina Vivero na entrada do shopping center Abasto daqui, em um domingo recente. Correndo, a menina deu um abraço em Vivero e então sacou uma câmera, se inclinou na direção de Vivero e tirou uma foto com o braço esticado.

Em minutos, dezenas de adolescentes a tinham cercado, pedindo por alguns poucos segundos com Vivero, uma celebridade da televisão e Internet com cabelo com mechas cor-de-rosa e piercing no lábio inferior. Ao longo da hora seguinte, Vivero posou educadamente para fotos, frequentemente mostrando sua língua com piercing ou beijando sua namorada, Marulina.

Nicolas Goldberg/The New York Times 
Agustina Vivero transformou sua fama na Internet em uma força de marketing


O ano passado foi um turbilhão para Vivero, conhecida aqui simplesmente como "Cumbio" por causa de seu amor pela cumbia, uma fusão de música dance, pop latino e salsa que é popular entre as classes mais baixas da Argentina. Ela se projetou para a fama e riqueza inesperada ao transformar sua fama na Internet, como a mais popular "flogger" da Argentina, em uma força de marketing, assinando contratos como modelo, promovendo discotecas e escrevendo um livro sobre sua vida.

E ela tem apenas 17 anos.

"Quando as pessoas me veem na rua elas às vezes choram, ou querem me abraçar e me beijar", ela disse em uma entrevista. "Ou me odeiam. É tudo muito surpreendente."

Uma fundação a usou em uma campanha para conscientização da prevenção do HIV, e uma cineasta está realizando um documentário sobre sua vida. Há um perfume Cumbio e conversa sobre um reality show estrelado por Cumbio e seus amigos.

Sua popularidade improvável também está redefinindo os estereótipos das celebridades jovens na Argentina. Vivero, que é abertamente homossexual, descreve a si mesma e outros "floggers" como "andróginos" por causa de seus trajes unisex. Ela está à vontade por não ser magra como uma modelo, evitando dieta e se gabando de seu amor por junk food e chocolate -uma mensagem diferente em um país onde as mulheres apresentam alto índice de desordens alimentares.

"Nós estamos quebrando muitas barreiras", ela disse.

Os floggers tiram fotos de si mesmos e de amigos e as postam em blogs de fotos. O Fotolog.com alega ter mais de 5,5 milhões de usuários na Argentina, que é um dos dois maiores mercados do site; o Chile é o outro. Os usuários comentam as fotos uns dos outros. Quanto maior o número de comentários, mais famoso é o flogger. O site de fotos de Vivero está entre os sites de Internet mais visitados na Argentina, registrando 36 milhões de visitas no ano passado, com base em números levantados pela Fotolog, ela disse.

A ascensão de Vivero à fama começou no início do ano passado, quando ela convidou alguns amigos até a casa de sua família em San Cristobal, um bairro de classe operária de prédios de apartamento baixos e imóveis ocupados por invasores. Eles visitaram e tiraram fotos de si mesmos, de seus característicos cabelos grandes despenteados, camisetas de gola V e tênis.

A casa logo ficou pequena para o número deles e Vivero propôs mudarem as reuniões para o Abasto. Na primeira semana, cerca de cem jovens apareceram. Na quarta semana, o número tinha inchado para 2 mil.

A direção do shopping começou a proibir a entrada deles. Então começaram a se reunir na entrada. Algumas poucas brigas entre grupos de jovens reunidos no lado de fora atraíram a atenção da imprensa local. Quando os repórteres chegaram para conferir o que estava ocorrendo, os floggers os encaminharam para Vivero, que explicou de forma confiante o novo movimento.

Logo ela estava aparecendo regularmente no noticiário de TV e em programas de entrevista.

"As pessoas não entendem do que isto se trata", disse Vivero. "As pessoas estão acostumadas à fama que vem da televisão, dos esportes, mas não da Internet, onde as pessoas estão postando fotos, se encontrando e se divertindo."

Os floggers não são "como hippies ou punks, que tinham ideais de lutar para mudar o mundo", disse Maria Jose Hooft, que escreveu um livro, "Tribus Urbanas", sobre as subculturas jovens na Argentina. "Os floggers não querem mudar o mundo. Eles querem sobreviver, e querem desfrutar seu tempo o melhor que puderem."

A febre de Cumbio realmente decolou depois que Guillermo Tragent, o presidente da Furia, uma empresa de marketing, descobriu Vivero e os floggers em abril passado, enquanto procurava por novos rostos para uma campanha de moda esportiva da Nike. A Nike queria "pessoas de verdade, das ruas", disse Tragent.

"O poder da imagem para eles é muito forte", ele disse, notando as festas vespertinas onde os floggers se reúnem, desfilam e posam para fotos uns para os outros. "A sensação que os floggers famosos estão sentindo hoje é semelhante à experimentada pelos astros e estrelas de Hollywood ao caminhar pelo tapete vermelho."

A campanha da Nike foi veiculada por três meses, com a imagem de Vivero usando óculos escuros e boné virado aparecendo em todo o país. Ela incluiu um escorregador gigante em forma de tênis do lado de fora do Abasto, no qual os floggers podiam escorregar enquanto posavam para fotos.

O trabalho como modelo para a Nike levou a aparições promocionais. Agora, na maioria dos fins de semana, um empresário leva Vivero para várias partes do país para promover discotecas e ajudar patrocinadores a venderem roupas de grife. Eles pagam pelos voos e quartos em hotéis quatro estrelas para ela e sua pequena comitiva.

Só as aparições nas discotecas podem render a ela US$ 1 mil por fim de semana, disseram duas pessoas próximas de Vivero, que se recusou a discutir quanto ganha. Seu pai não a deixa ajudar a família, mas insiste que ela pague suas próprias contas de celular e Internet.

Em seu livro, "Yo Cumbio", lançado em dezembro, ela escreve que no início se sentia como Eva Duarte de Perón, a famosa ex-primeira-dama da Argentina. Em um encontro no Abasto, ela olhou para baixo, do degrau superior da escada na entrada, e jogou beijos para a multidão, como Evita Perón costumava fazer da sacada da Casa Rosada, como a residência presidencial é conhecida.

Os pais de Vivero lhe dão apoio. Sua mãe, uma dona de casa, é uma companhia constante. Seu irmão, um produtor de TV, está cuidando de suas finanças e está envolvido na criação de um piloto de um show de variedades. Seu pai, um encanador, disse orgulhosamente que sua filha adolescente agora ganha mais do que ele.

"Eu consigo ganhar 2 mil pesos em 15 dias se tiver trabalho", disse Ruben Vivero. "Eles pagam para ela 2.500 pesos por um evento, para aparecer por 45 minutos."

Os pais de Vivero apreciam a presença dos amigos dela em sua casa, para visitas que às vezes duram semanas. O quarto dela, com seu piso rangente e onde ela mantém seu computador, se transformou em uma espécie de refúgio para amigos escaparem de seus problemas em casa.

"Às vezes há umas 25 pessoas na casa dela", disse Andrea Yannino, uma cineasta que está realizando um documentário sobre Vivero. "O que os floggers realmente querem é o oposto" de seu relacionamento online, "de ter o contato uns com os outros, o toque físico".

Vivero disse que muitos de seus amigos gays procuram sua casa para fugir do preconceito em seus lares. Ela pegou uma câmera de vídeo emprestada com seu irmão e começou a gravar os depoimentos de seus amigos.

Ela disse que planeja estudar para ser repórter de televisão. Por ora, ela está trabalhando nas letras para uma banda ao estilo da Aqua, o grupo pop dinamarquês-norueguês conhecido pelo single "Barbie Girl", de 1997.

"Eu vou me divertir com isto enquanto durar", ela disse. "Quando acabar, bem, acabou. Eu ainda terei todas as fotos."

* Charles Newbery contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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