UOL Notícias Internacional
 

15/03/2009

Quase um milhão de vítimas, encobertas por um manto de amnésia

The New York Times
Sabrina Tavernise
Istambul (Turquia)
Para a Turquia, o número deveria ter sido chocante.

De acordo com um documento que ficou guardado por muito tempo e que pertencia ao ministro de interior do Império Otomano, 972 mil armênios otomanos desapareceram dos registros oficiais de população entre 1915 e 1916.

Na Turquia, qualquer discussão sobre o que aconteceu com os armênios otomanos pode causar uma tempestade de indignação pública. Mas desde sua publicação num livro em janeiro, o número de armênios mortos - e a fonte otomana da informação - passou praticamente despercebido. Os jornais quase não escreveram a respeito. Os programas de televisão não o discutiram.

"Nada", disse Murat Bardakci, escritor e colunista turco que compilou o livro.

O silêncio pode significar apenas uma coisa, disse ele: "Meus números estão muito altos para as pessoas comuns. Talvez elas ainda não estejam preparadas para falar sobre isso".

Por gerações, a maioria dos turcos não soube nada dos detalhes do genocídio armênio que ocorreu entre 1915 a 1918, quando mais de um milhão de armênios foram mortos quando o governo turco otomano excluiu a população. A Turquia trancou as partes mais feias de seu passado longe de vista, ao estilo soviético, deixando qualquer menção dos acontecimentos fora dos livros escolares e narrativas oficiais, numa campanha agressiva pelo esquecimento.

Mas nos últimos dez anos, conforme a sociedade civil floresceu aqui, algumas partes da população turca passaram a questionar abertamente a versão do Estado sobre os fatos. Em dezembro, um grupo de intelectuais fez circular um abaixo-assinado que pedia desculpas pela negação dos massacres. Aproximadamente 29 mil pessoas assinaram.

Com seu livro, "The Remaining Documents of Talat Pasha" [algo como "Os Documentos Remanescentes de Talat Pasha"], Bardakci (pronuncia-se
bard-AK-chuh) tornou-se, contra sua vontade, parte dessa agitação. O livro é uma coleção de documentos e registros que pertenciam a Mehmed Talat, conhecido como Talat Pasha, o principal arquiteto das deportações armênias.

Os documentos, entregues a Bardakci pela viúva de Talat, Hayriye, antes da morte dela em 1983, incluem relatórios de estatísticas demográficas. Antes de 1915, 1.156.000 armênios viviam no Império Otomano, de acordo com os documentos. O número caiu para 284.157 dois anos depois, diz Bardakci.

Para o ouvido não treinado, trata-se simplesmente de uma estatística triste. Mas qualquer pessoa que conheça bem o assunto sabe que os números fazem parte de uma disputa acirrada. A Turquia nunca admitiu nenhum número específico de deportados ou de mortos. No domingo, o ministro de exterior da Turquia alertou que o presidente Barack Obama pode retroceder nas relações com a Turquia caso reconheça que o massacre de armênios foi genocídio antes de sua visita ao país no mês que vem.

O colapso do Império Otomano foi sangrento, argumentam os turcos, e os mortos foram vítimas desse caos.

Bardakci acredita nessa visão. As estatísticas, diz ele, não indicam o número de mortos, apenas o resultado do declínio da população armênia depois da deportação. Ele discorda fortemente de que os massacres chegaram a produzir um genocídio, e diz que a Turquia foi obrigada a agir contra os armênios porque eles apoiavam abertamente a Rússia na guerra contra o Império Otomano.

"Não foi uma política nazista ou um Holocausto", diz ele. "Foi um período muito sombrio. Foi uma decisão muito difícil. Mas a deportação foi o resultado de eventos muito sangrentos. Foi necessário que o governo deportasse a população armênia".

Esse argumento é rejeitado pela maioria dos estudiosos, que acreditam que o pequeno número de rebeldes armênios não era uma ameaça séria ao Império Otomano, e que a política foi resultado principalmente da concepção de que os armênios não eram confiáveis por não serem muçulmanos, e que portanto eram uma população problema.

Hilmar Kaiser, historiador e especialista do genocídio armênio, diz que os registros publicados no livro são uma prova conclusiva de que a própria autoridade otomana empreendeu uma política calculada para eliminar os armênios. "De repente, surge numa página a confirmação dos números", diz. "É como se alguém tivesse dado uma paulada na cabeça".

Kaiser disse que os números de antes e depois configuram um "registro de mortes".

"Não há outra forma de ver esse documento", diz ele. "Você não pode simplesmente esconder um milhão de pessoas".

Outros estudiosos dizem que o número é um acréscimo útil ao registro histórico, mas que não introduz uma nova versão dos eventos.

"Isso corrobora o que já sabemos", diz Donald Bloxham, autor de "The Great Game of Genocide: Imperialism, Nationalism and the Destruction of the Ottoman Armenians" [algo como "O Grande Jogo do Genocídio:
Imperialismo, Nacionalismo e a Destruição dos Armênios Otomanos"]

Bardakci é um aficionado em história que aprendeu a ler e escrever o alfabeto otomano com sua avó, permitindo que ele navegasse pelo passado escrito da Turquia, algo que a maioria dos turcos é incapaz de fazer. Ele toca o "tanbur", um instrumento de corda tradicional. Seu avô era membro do mesmo partido político de Talat, e sua família conhecia muitas figuras políticas importantes da fundação da Turquia.

"Tínhamos uma biblioteca enorme em casa", diz. "Eles sempre falavam sobre a história e o passado". Apesar de Bardacki claramente desejar que os números fossem divulgados, ele teima em não interpretá-los. Ele não oferece nenhuma análise no livro, e fora uma entrevista com a viúva de Talat, praticamente não há texto além dos documentos originais.

"Eu não quis interpretar", diz. "Eu quero que o público decida".

A melhor forma de fazer isso, argumenta, é mostrando os fatos nus e crus, que podem cortar as camadas de retórica emocional que encobriram o assunto durante anos.

"Acredito que precisamos de documentos na Turquia", diz. "Isso é o mais importante".

Mas alguns dos observadores mais perspicazes da sociedade turca disseram que o silêncio é um sinal de como esse tema ainda é um tabu.
"A importância do livro é óbvia porque nenhum outro texto exceto o de Millieyet escreveu alguma linha a respeito", disse Murat Belge, acadêmico turco, numa coluna do jornal diário liberal Taraf, em janeiro.

Ainda assim, o fato de o livro ter sido publicado é uma medida da maturidade democrática da Turquia. Bardakci diz que ele guardou os documentos por tanto tempo - 27 anos - porque estava esperando a Turquia atingir o ponto em que a publicação não causasse agitação.

Até o Estado agora sente a necessidade de se defender. No verão passado, um filme de propaganda sobre os armênios, feito pelos militares turcos, foi distribuído para as escolas primárias. Depois de um protesto público, a distribuição foi suspensa.

"Eu jamais poderia ter publicado esse livro dez anos atrás", diz Bardakci. "Teria sido chamado de traidor".

E acrescentou: "A mentalidade mudou".

Tradução: Eloise De Vylder

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