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16/03/2009

Na África, papa verá onde a Igreja está em alta

The New York Times
Por Rachel Donadio
Cidade do Vaticano - Quando o papa Bento 16 embarcar para sua primeira viagem à África como pontífice na terça-feira, em que irá para Camarões e Angola, ele visitará o futuro da Igreja, se não o presente.

Com uma das maiores populações católicas do mundo, estimada em mais de
158 milhões de pessoas, a África é o continente onde a Igreja é ao mesmo tempo mais forte -em termos de números e vitalidade devocional- e mais fraca, inevitavelmente atingida pela pobreza, corrupção, conflito e doenças que afligem a sociedade como um todo.

Espera-se que Bento toque nessas duas realidades em sua visita, que dá início a um ano de atenção à África, que culminará em outubro, quando os bispos do mundo se encontrarão para seu sínodo anual de um mês em Roma. Este ano, o tema é "A Igreja na África a Serviço da Reconciliação, Justiça e Paz".

Na primeira parade em sua viagem de seis dias, em Camarões, país que fala inglês e francês, o papa deve apresentar o documento de trabalho do sínodo, que foi pedido pelo papa João Paulo 2º antes de sua morte em 2005.

O documento deve tocar no papel da Igreja em promover a democracia e a justiça social; "aculturação", ou encontrar um equilíbrio entre o dogma católico ditado por Roma e as variedades de práticas locais; saúde; e as tensões na África entre católicos, muçulmanos e a população pentecostal de rápido crescimento no continente.

Há muita coisa em jogo. Em 2025, um sexto dos católicos do mundo, ou cerca de 230 milhões de pessoas, deverá ser de africanos. O maior seminário do mundo fica na Nigéria, que faz fronteira com Camarões na África ocidental, e, no geral, a África produz uma grande porcentagem dos padres do mundo. O papa João 23 nomeou o primeiro cardeal africano em 1960. Agora há 16 cardeais da África, entre 192.

Para a Igreja, a África é o continente "onde a Igreja aparece mais viva, aparece numa fase de expansão", diz Sandro Magister, um veterano jornalista italiano do Vaticano. "Mas essa expansão é muito frágil".
Ele acrescentou que "mostra as características típicas da juventude e da adolescência: grandes ondas de sentimento e emoção, mas com raízes fracas".

"Às vezes, dizem que o principal problema do Vatiano é que ele fica a 2 mil milhas ao norte", diz Philip Jenkins, professor da Universidade Estadual da Pensilvânia e autor de "The Lost History of Christianity"
["A História Perdida do Cristianismo"], sobre a história antiga do cristianismo na África e na Ásia.

Em seus mais de 25 anos como papa, João Paulo 2º fez 16 viagens à África, visitando 42 países. Sob vários aspectos, a África deveria parecer uma prioridade improvável para Bento 16, que em seus quatro anos de papado esteve profundamente preocupado em fortalecer a Igreja na Europa, onde seu status está cada dia menor.

Ainda assim, em comparação com a Europa e os Estados Unidos, as Igrejas africanas tendem a assumir uma linha mais tradicional em assuntos como o homossexualismo e a família.

"Não só o cristianismo está prosperando naquela parte do mundo, mas parece ser um tipo de catolicismo bem conservador", diz o professor Jenkins. "Acho que ele tem grandes esperanças nas Igrejas mundiais do sul" e as vê "como um equilíbrio muito importante para as tendências liberais do norte".

Mas a situação no local é rica e complexa. Muitos bispos africanos precisam estabelecer seus próprios parâmetros para equilibrar o catolicismo com o curandeirismo e os sacrifícios animais praticados por muitos paroquianos.

A Igreja Católica também teme que o tribalismo possa enfraquecer sua autoridade mais universal, especialmente se os clérigos são vistos como pessoas com uma ligação forte com alguma etnia ou grupo tribal.

Da mesma forma, pregar o evangelho na língua local pode atá-lo a um grupo étnico específico, mas ler na língua colonial apresenta outras complicações.

Bento 16 vem tentando tomar medidas duras contra a tendência de muitos padres africanos se casarem. Falando aos bispos africanos em 2005, Bento 16 implorou a eles que "selecionassem com consciência os candidatos ao sacerdócio", e para encorajá-los "a se abrirem totalmente a servirem às pessoas assim como Cristo fez, abraçando a vocação do celibato".

No mesmo discurso, Bento 16 falou da Aids pela primeira vez enquanto papa, classificando-a de "uma epidemia cruel" que "não só mata como também ameaça a estabilidade econômica e social do continente".

Ele também declarou a posição do Vaticano em proibir o uso de preservativos. "O ensinamento tradicional da Igreja já provou ser a única forma segura de prevenir a disseminação do HIV/Aids", disse Bento então, reforçando seu aval ao "casamento cristão e a fidelidade"
e à "castidade".

Em sua viagem à África, o papa não deve falar novamente sobre a posição do Vaticano em relação aos preservativos, de acordo com o assessor de imprensa do Vaticano, reverendo Federico Lombardi. "A posição que temos é que é uma ilusão pensar que se pode solucionar o problema da Aids com preservativos", disse Lombardi. Em vez disso, acrescenta, a Igreja continuará a apoiar a educação, incentivar uma "sexualidade mais regular" dentro dos limites do casamento.

Em muitos lugares da África, incluindo a Nigéria, o catolicismo e o Islã estão lutando por almas. Em Camarões, que faz fronteira com a Nigéria e tem uma significativa população muçulmana, o papa deve se reunir com clérigos muçulmanos.

Na Nigéria e no resto da África, a Igreja está cada vez mais preocupada em perder terreno para as Igrejas carismáticas pentecostais. Nos últimos anos, essas Igrejas transformaram radicalmente a paisagem religiosa na América Latina, que tem a maior população católica do mundo.

Nos anos 90, os bispos africanos foram chamados para ajudar a moderar os conflitos no Burundi e Moçambique, mas recentemente a Igreja tem desempenhado um papel cada vez menor nessas situações.

Em Angola, que em 2002 emergiu de 15 anos de guerra civil, Bento 16 deve encontrar-se com políticos e diplomatas para falar contra a corrupção e afirmar o papel renovado que a Igreja espera desempenhar para cultivar a democracia e a sociedade civil na África.

Ele também destacará os 500 anos da chegada do catolicismo na antiga colônia portuguesa e encontrará grupos que promovem o papel das mulheres na África.

Tradução: Eloise de Vylder

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